Crítica | A Estrela Misteriosa

estrelas 4

Publicada no suplemente juvenil do jornal Le SoirA Estrela Misteriosa é a décima aventura de Tintim, lançada primeiro em preto e branco e depois em cores. A história se constitui uma das mais simples, objetivas e científicas de Hergé até então.

Numa noite calma, Tintim caminha com Milu pela rua. O jovem começa a observar o céu, localizando a Constelação da Ursa Maior, e se espanta por esta estar com uma estrela a mais. Milu segue reclamando do calor. As coisas começam a ficar sérias quando Tintim se dá conta de que a estrela se aproxima da Terra, e após uma passagem pelo Observatório, descobre que o bólido (corpo celeste de rocha e fogo de grandes proporções, de origem asteroidal ou cometária) irá se chocar com o planeta em poucas horas.

Para uma história escrita em plena Segunda Guerra Mundial, e em uma Bélgica ocupada pelos nazistas, não era de se espantar que o tema trouxesse tal sentimento de “fim de mundo”. Nesse ponto, porém, é preciso abrir um longo parênteses para comentarmos a polêmica gerada em torno do álbum e em torno de Hergé, nesse momento da história.

No texto sobre O Caranguejo das Pinças de Ouro eu contextualizei a extinção do Le Vingtième Siècle, o desemprego de Hergé e o encontro de uma nova casa artística, o jornal Le Soir, publicação controlada pelos nazistas durante toda a ocupação da Bélgica. Mas se não há nada em O Caranguejo que condene Hergé, o mesmo não aconteceria com a temática de seu A Estrela Misteriosa certamente colocaria muita lenha na fogueira e lhe traria muita dor de cabeça após a Guerra.

Não que a história do bólido destruidor e a expedição de Tintim, Haddock e outros cientistas em direção ao Ártico (com uma parada na Islândia) contivesse indícios de propaganda nazista. Mas certos elementos, alguns sutis e outros explícitos, deram espaço para certas interpretações e acusações. O caso mais apontado é o nome do vilão, originalmente Blumenstein, e que foi modificado, na reformulação do álbum, para Bohlwinkel. O estereótipo físico de Bohlwinkel permaneceu o mesmo que se dava aos judeus na Alemanha nazista. Ainda é citada a questão de que Blumenstein era um banqueiro dos Estados Unidos, e isso fica claro quando vemos o bote de sua expedição com a bandeira prestes a fincá-la no topo bólido que caiu no Ártico – a bandeira muda, na versão reformulada.

Também ressalta-se que os cientistas que fazem parte da expedição são ou de países do Eixo, ocupados, neutros, ou aliados ao nazismo: Hipólito Calisto (Bélgica ocupada e colaboracionista), Erik Björgenskjöld (Suécia colaboracionista), Porfirio Bolero y Calamares (Espanha franquista), Otto Schulze (Alemanha nazista), Paul Cantonneau (França colaboracionista – República de Vichy), Pedro João dos Santos (Portugal salazarista).

A questão toda em torno de Hergé como feitor de propaganda nazista é uma falta de tato de quem o julga. Particularmente não vejo como ele poderia fazer diferente (a não ser que abandonasse a Bélgica), trabalhando em um jornal controlado pelos nazistas e vivendo num país ocupado. Além disso, seu ciclo de amizades tinha algumas pessoas… digamos… nada legais, a começar de seu tutor no início da carreira, algo que meu colega e co-editor aqui do Plano Crítico, Ritter Fan, explica muito bem em Titim no País dos Sovietes. Em seguida, ter sido amigo do abominável Leon Degrelle também não dá a Hergé nenhum prêmio de boas amizades do século, mas sinceramente não vejo como isso pode tornar Tintim uma persona non grata e digno de ser banido.

Não digo que A Estrela Misteriosa, em sua composição original, não continha “propaganda nazista”. Mas trazendo o contexto em que a obra foi produzida, é ser muito ingênuo para achar que poderia ser diferente, especialmente se considerarmos o currículo e a educação de Hergé. Em Tintim no Congo eu citei a posição racista do autor, embora a entenda e não o condene justamente por fazer parte de uma época em que essa era a postura da vez, embora pudesse ser evitada. Mas no caso das indicações de um vilão judeu a serviço dos Estados Unidos, só quem não conhece o sistema de propaganda e censura nazista para achar que o autor poderia publicar outra coisa.

A Estrela Misteriosa é uma boa aventura, uma busca científica instigante que traz um ponto de humor igualmente interessante, o profeta Filípulo (alguns religiosos não devem gostar muito dessa parte do álbum, mas quem conhece os discursos de fanáticos religiosos sobre o fim do mundo sabe que são iguaizinhos aos do profeta).

Mais uma vez, retomo o discurso de que a leitura de uma obra deve ser contextualizada para que se entenda melhor o que foi retratado, como também a postura adotada pelo artista. O julgamento moral e ético a esse respeito cabe a cada leitor, mas antes, é preciso observar o autor e sua obra no tempo. No caso de Hergé, sua vida e sua obra posterior à Guerra (e mesmo no entre guerras, à exceção do racismo nas suas primeiras obras) dá todas as respostas necessárias.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.