Crítica | A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971)

estrelas 3

Tido como um clássico, A Fantástica Fábrica de Chocolate, roteirizado pelo próprio autor do livro homônimo, Roald Dahl, não atingiu nenhum número impressionante nas bilheterias da época, ou sequer foi cultuado pelos críticos. Seu legado seria construído ao longo dos anos, através de relançamentos no cinema e, é claro, suas exibições na televisão. Desde então, Willy Wonka tornou-se um dos personagens mais memoráveis do Cinema e muito disso se deve a Gene Wilder. Antes dele, porém, muitos outras figuras ilustres, incluindo os seis membros do Monty Python, ansiaram pelo papel. Wilder aceitou encarnar o excêntrico dono da fábrica com uma condição: que sua primeira aparição o mostrasse caminhando mancando com uma bengala, no meio do caminho sua bengala ficaria presa no chão e ele fingiria cair, apenas para, no meio da queda, ele fazer uma cambalhota e se levantar. Sua intenção era que jamais soubessemos se o personagem está falando a verdade ou não.

Desnecessário dizer que Wilder definiu Wonka, como o conhecemos hoje, nesse instante. Uma figura que faz doces para crianças, que, estranhamente, conta com um comportamento quase que de um psicopata, manipulando não só a verdade, como todos à sua volta. Do ponto que o personagem faz sua primeira aparição em diante, ele, sem a menor sombra de dúvidas, rouba totalmente nossa atenção, ao passo que o único fator previsível do filme é o fato de que todas as crianças malcriadas terão o que merecem (ao menos à visão de Willy).

Há uma crueldade na representação de Wilder, proveniente de um evidente tédio do dono da fábrica ou até mesmo uma falta de esperança dele em relação às pessoas como um todo. Vale lembrar que, desde o início, ele testa cada uma das crianças, mesmo antes de entrarem na fábrica. Sua intenção final, quando revelada, explica todas as suas ações, mas ficamos sem saber se fora tudo uma encenação ou se ele apenas recobrara seu otimismo com a ação de genuína bondade de Charlie (Peter Ostrum) próximo ao desfecho. Aqui devo abrir um parêntese. Nessa cena vemos o personagem ganhar uma notável pluralidade, seu acesso de raiva é chocante e, ao mesmo tempo, bastante crível, mostrando como Wilder conseguia oscilar, sem problemas, entre diferentes cenários, fornecendo uma nítida profundidade ao personagem.

Curiosamente, o ar de desesperança de Wonka estende-se para todo o longa-metragem. Desde o primeiro número musical, o famoso The Candy Man, podemos perceber uma notável falta de entusiasmo em todas as músicas. As coreografias são praticamente inexistentes ou simplesmente não chamam a atenção, visto que não contam com todo o refino dos musicais hollywoodianos de outrora. É como se todo o filme captasse a energia da Alemanha Ocidental, local onde a maioria da obra fora filmada – um país dividido, tanto geograficamente, quanto ideologicamente.

Essa questão toda amplifica-se com a aparição dos Oompa loompas, cujas canções todas visam trazer uma moral para o público infantil e que acabam, no fim, somente criando sequências verdadeiramente perturbadoras. São músicas bem escritas, como a maior parte das que vemos no longa, mas o tom nas quais são cantadas criam um ar relativamente sombrio e negativista. A Fantástica Fábrica de Chocolate, de musical, assume um caráter de humor negro, ao passo que nos divertimos com o comportamento despreocupado e até sarcástico do dono da fábrica em relação à tragédia sofrida por cada um dos visitantes.

Infelizmente, esse fator acaba nos distanciando das músicas, transformando muitas delas em uma pura quebra de ritmo narrativo, algumas das quais, principalmente no trecho inicial da obra, apenas constatam o que já sabemos. Dito isso, existe uma grande dilatação do período que precede a entrada na fábrica, tornando o primeiro terço do longa um tanto quanto arrastada, visto que não temos Wilder em cena ainda. Felizmente, há boas doses de humor envolvendo o exagero acerca da corrida pelos tíquetes dourados, o que, curiosamente, cria um certo paralelo com uma certa busca por pokémon na atualidade.

No fim, A Fantástica Fábrica de Chocolate nos traz um misto de emoções, constituindo-se como um filme altamente subjetivo que pode ser tanto amado quanto odiado. Impossível, contudo, não reconhecer o trabalho de Gene Wilder em sua representação engajante e excêntrica de Willy Wonka, certamente o fator primário que transformou o filme em um clássico a ser lembrado por anos e anos a fio e que jamais poderia ser reproduzido em remakes e afins.

A Fantástica Fábrica de Chocolate (Willy Wonka & the Chocolate Factory) — EUA, 1971
Direção:
 Mel Stuart
Roteiro: Roald Dahl
Elenco: Gene Wilder, Jack Albertson, Peter Ostrum, Roy Kinnear, Julie Dawn Cole, Leonard Stone, Denise Nickerson
Duração: 100 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.