Crítica | A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005)

Quatro anos após o brilhante remake Planeta dos Macacos, Tim Burton volta a abordar o instinto animalesco de sobrevivência que há dentro dos seres-humanos. A fábrica de Willy Wonka vai além de um parque de diversões, é o ambiente infantil perfeito para Tim Burton recomeçar sua carreira após o desastroso Peixe Grande, onde sua marca autoral entrou em risco para poder tornar a experiência mais agradável ao grande público. Intuir novamente os valores inocentes próprios das crianças a seu novo projeto é a chave para retomar sua estética, cuja persistência é violar o olhar infantil e entender um lugar fantasioso e divertido no pior pesadelo de um espectador adulto.

É dentro dos materiais menos originais que Burton sente-se mais à vontade. Seus melhores trabalhos são Planeta dos Macacos e os dois Batman justamente por não ter necessidade de inventar, apenas reencenar uma história amplamente conhecida da forma plástica e pavorosa da qual ele é conhecido. Observemos a abertura do filme, uma visão categórica do passo-a-passo do chocolate, do cozimento à entrega para as lojas, Tim Burton revisita um espaço longe do imaginário infantil de forma impressionista, explorando a fotogenia do processo de criação do chocolate como algo industrial, explorando o chocolate não pelo olhar cobiçado pelas crianças, mas sim de maneira austera, indicando-se algo muito além do conhecido. Chocolate não é coisa de criança, é hostil e assustador, e quando Burton imprime sua autoria sobre aquele processo as diferenças entre seu remake e a versão de 1971 ficam mais claras: Burton não dá a mínima se as crianças tem medo ou não de seus filmes.

Trabalhando em cima do ideal infantil de medo, o diretor vai atrás das imagens inertes ao homem que lhe causam medo. Por mais que a fábrica de chocolate seja um sonho para a maioria das crianças do mundo, aos poucos o que era perfeito vai revelando seus defeitos, e por vez transparecendo o medo embutido em nós do desconhecido. O ambiente é de confinamento, parecido com o clássico do terro Pague Para Entrar, Reze Para Sair, em que uma sequência de acontecimentos vão aterrorizando os convidados no que deveria ser um espaço de diversão e felicidade, mas inverteu a ordem de tudo em favorecimento do caos. Cada uma das crianças é executada durante uma situação referente a algo que lhes era prazeroso. São “quase-mortes” violentíssimas, e Willy Wonka apresenta-se como uma versão colorida e lunática de um médico louco cuja fonte são os filmes de terror dos anos 60. Com prazer, cada uma das crianças é deixada de lado puramente “por serem chatas”, nas palavras do proprietário da fábrica. Vale destacar que, ao contrário do livro ou do filme de 71, as crianças são mostradas após cada um dos desastres, e os resultados são mais aterrorizantes que as próprias cenas de execução.

Resta o pequeno Charlie, protagonista cuja marca principal é a insignificância. É apresentado pelo narrador como um garoto “não mais rápido, forte, ou inteligente que qualquer criança”. Como nos filme de realismo poético franceses da década de 30, sua pobreza é vista como virtude, e, como antecipa novamente o narrador, Charlie é o garoto mais sortudo na terra. Sortudo não por sobreviver ao desafio da fábrica ou herdar a fábrica, sortudo por ter angariado valores cujo lhe ensinaram a manter-se desaparecido no meio de um espetáculo visual, um conceito talvez dúbio por ter sido educado a manter-se invisível na sociedade justamente por não ter dinheiro. Mantendo-se quieto, destaca-se, e o sádico Willy Wonka poupa-o de tamanho sofrimento. Não é por nada, mas o título original do filme troca “Willy Wonka” por “Charlie e a Fábrica de Chocolate” (traduzido literalmente do inglês), destacando o protagonismo do garoto, não ativamente, mas seu olhar: o filme todo inverte a situação, destacando a forma com que a criança enxerga todo o ambiente desconhecido. Nada mais digno que um ambiente amedrontador e injurioso, um verdadeiro espetáculo do horror.

A Fantástica Fábrica de Chocolate (Charlie and the Chocolate Factory) – EUA/Reino Unido/Austrália , 2005
Direção: Tim Burton
Roteiro: Roald Dahl, John August
Elenco: Johnny Depp, Freddie Highmore, David Kelly, Helena Bonhan Carter, Noah Taylor, Missi Pyle, James Fox, Christopher Lee, Adam Godley, Franziska Troegner, AnnaSophia Robb, Julia Winter, Jordan Fry, Phillip Wiegratz
Duração: 115 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.