Crítica | A Favorita (2018)

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A chegada de Ana da Grã-Bretanha ao trono (título que recebeu após o Tratado da União, de 1707) foi parte de um processo político bastante complicado, que continuou em andamento no país durante o governo da frágil rainha, entre os anos de 1702 e 1714. Em A Favorita (2018), o diretor Yorgos Lanthimos se debruça sobre a segunda metade do governo de Anne, perpassando os eventos da Guerra da Sucessão Espanhola e a clássica inimizade dos britânicos com os franceses (não, não é um lapso histórico). Tudo isso, porém, do ponto de vista da Corte, onde tais eventos ganham destaque diante da Rainha e de duas fortes mulheres de seu tempo: Lady Sarah e Abigail Hill.

Uma breve passada por comentários a respeito do filme nos coloca (mais uma vez) naquele estado de espanto em que ficamos toda vez que alguém teima em desclassificar uma obra cinematográfica por não ser historicamente fiel aos fatos que se propõe narrar. Eu já falei isso inúmeras vezes aqui no Plano Crítico e volto a repetir: isso é a maior bobagem que alguém possa levar em consideração para critério de julgamento. Uma obra artística tem a sua clara licença para manipular dados, nomes, pessoas, anos, acontecimentos, conceitos gerais e, ainda assim, ser uma excelente obra. A frase “baseado em fatos reais” — ou qualquer coisa que indique isso — é apenas uma deixa de tempo, espaço e olhar para um evento conhecido. Arte com abordagens históricas irão se adequar, de maior ou menor maneira, aos fatos comumente apontados pela historiografia (raramente unânime), mas o que interessa, além da coerência da leitura no caso do cinema, é que o diretor e os roteiristas consigam sustentar bem o que propõem. Não importa a proposta. E sim, Lanthimos, Deborah Davis e Tony McNamara sustentam muito bem a sua leitura para esse período da História britânica.

Um ponto a ser destacado é que Lady Sarah (ou Sarah Churchill, Duquesa de Marlborough) e Abigail Hill (futura Abigail Masham, Baronesa Masham) são de fato personagens reais e que de fato dividiram o favoritismo da Rainha Anne, elemento que faz o roteiro de A Favorita chegar a um grau de fidelidade histórica muitíssimo interessante, cabendo não só as fofocas e intrigas da Corte, mas também fortes movimentações políticas que o país conhecia naquele momento e que ganham uma abordagem aplaudível (destaque para a “política de dois partidos”), que funciona até nas modificações em favor do enredo. No elenco, a tríade formada por Olivia Colman (Rainha Anne), Rachel Weisz (Lady Sarah) e Emma Stone (Abigail) dão um show à parte, principalmente as duas primeiras citadas. O filme é delas, feito para elas, e os homens ao seu redor são bufões de ocasião que servem para apimentar o jogo em alguns momentos, garantindo alguns dos diálogos mais engraçados, cínicos, sujos e provocativos já vistos em um filme histórico. É claro que essa representação específica funciona para o propósito geral da obra, mas nem sempre o gancho político ligado a ela é bem preso, vide a posição de Lady Sarah com o marido (especialmente na parte final) e de Abigail, cuja cena da noite de núpcias é certamente a pior do filme, mesmo nos arrancando algumas risadas.

A cargo de Robbie Ryan, a fotografia do filme tem a paleta de cores e o contraste que esperamos de um filme ambientado no século XVIII, e aí podemos elogiar as grandes angulares para as cenas da cozinha do palácio e especialmente as cenas com iluminação à luz de velas, dando um ar pictórico à la Barry Lyndon que é um verdadeiro presente para os olhos. Note que, na composição das personalidades, os figurinos das favoritas são mais garbosos do que os da própria rainha, assim como a forma engrandecedora que a câmera as mostra, enquanto Anne possui raros momentos de imponência, um recurso que, mesmo se o roteiro não deixasse clara a posição de desequilíbrio de poder, o espectador entenderia pela apresentação estética dessas personagens. Outro grande destaque técnico é a trilha sonora, com poucos motivos musicais, todos eles bem curtos e que se readequam a cada novo capítulo do filme. Infelizmente, não vi esse tipo de divisão como algo benéfico para a película, mas ao menos a música funcionou com o propósito de se reajustar em cada um deles, e o tom de crônica, mesmo interrompendo certas linhas narrativas muito sólidas, acaba se ajustando à visão geral do texto para a narração desses fatos históricos.

A Favorita é um filme sobre ambição e sobre o que alguém pode fazer para conseguir o que quer. O tema não é novo em dramas históricos, mas aqui ganha um excelente e cômico tempero ligado à sexualidade da rainha e suas protegidas, além de nos fazer acompanhar um governo tipicamente manipulado, tendo na maior voz do país uma frágil (de saúde e emoções) e enciumada figura para quem o poder era um brinquedo difícil. Lanthimos acertou em cheio no seu modo agressivo e um tanto cruel de filmar histórias sobre laços entre pessoas de comportamento difícil. Um modo que combina bem com o tema de A Favorita, onde o maior destaque de todos, por trás da pompa, riqueza e problemas do Reino, é a miséria e a profunda necessidade de cada um dos indivíduos. A boa e velha condição humana, no fim de tudo.

A Favorita (The Favourite) — Irlanda, Reino Unido, EUA, 2018
Direção: Yorgos Lanthimos
Roteiro: Deborah Davis, Tony McNamara
Elenco: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Delves, Faye Daveney, Emma Stone, Paul Swaine, Jennifer White, LillyRose Stevens, Denise Mack, James Smith, Mark Gatiss, Willem Dalby, Edward Aczel, Carolyn Saint-PéJohn Locke, Nicholas Hoult, Basil Eidenbenz, Everal Walsh
Duração: 120 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.