Crítica | A Felicidade Não Se Compra

Mesmo após sete décadas de seu lançamento, A Felicidade Não Se Compra é um filme bastante atual. A sua temática não envelheceu, tampouco a estrutura. Uma produção dos anos 1940 que ainda dialoga com as plateias contemporâneas, apesar de sua evidente falta de contato com a geração que vive apenas da montagem pós-MTV. Quando lançado, o cinema clássico passava por uma fase de transição, haja vista a massificação televisiva nos anos 1950 e as mudanças de estilo com a nova onda cultural dos anos 1960, circuito de manifestações e posturas estéticas e políticas que encontrou na indústria cinematográfica um espaço prolífico.

Experiente em narrativas edificantes, Frank Capra, responsável pelos lacrimejantes Aconteceu Naquela Noite, O Galante Mr. Deeds, Do Mundo Nada Se Leva, A Mulher Faz o Homem, dentre outros, era um exímio contador de histórias, tendo sempre como base um texto simples. Ao acumular as funções de diretor, produtor, financiador e coautor do roteiro, escrito juntamente com Frances Goodrich e Albert Hackett, adaptado do conto The Greatest Gift, do escritor estadunidense Philip Van Doren Stern, Capra entregou mais uma produção ao estilo “feel good movie”, isto é, filme que geralmente trata de uma figura humana idealizada e que tem como pano de fundo a crença na humanidade em tempos tão difíceis.  Mergulhados na arrogância, na corrupção e na descrença nas instituições, A Felicidade Não Se Compra traduz o ideal de mundo que os mais céticos sonham para o contemporâneo, mesmo que tal desejo simbolize “um sonho impossível” e “distante”.

A trama é a seguinte: George Baily (James Stewart) é um homem respeitoso e referenciado como modelo de bom marido em sua cidade. Preocupado com o bem estar de todos, ele frequentemente coloca os interesses dos outros à frente das suas necessidades. Ele precisa abdicar de seus sonhos, entre eles, viajar pelo mundo e cursar uma universidade, tendo em vista assumir o controle dos negócios da família após a morte do seu pai (Samuel S. Hinds). Casado com Mary Hatch (Donna Reed), uma esposa exemplar, ele um dia encontra o infortúnio quando o seu tio Billy (Thomas Mitchell) perde uma grande quantia em dinheiro e coloca a vida de todos em risco.

Em cena há Mr. Potter (Lionel Barrymore), antagonista que tem como plano dominar a cidade em todas as instâncias possíveis. O maquiavélico idoso pode se gabar de quase conseguir colocar o seu plano em prática, pois ele domina o capital, algo que segundo a ótica crítica de Capra, corrompe as relações e formam indivíduos frios e exageradamente ambiciosos. George é o seu contraponto. Apesar de trabalhar com empréstimos e financiamentos, ele constantemente demonstra interesse em ajudar as pessoas, sem precisar fazê-las se sentir ameaçadas diante dos acordos financeiros.

Com a perda do dinheiro e a prisão iminente, George entra em desespero e encontra solução numa medida fora do comum: preocupado em deixar a sua família longe da miséria, ele decide que é preciso ganhar o dinheiro do seguro de vida, mas para isso, precisa se suicidar. E para deixar tudo mais dramático, eis a cereja dramática do bolo: na noite de Natal. Como se diz no popular, “é Deus que” o anjo Clarence (Henry Travers) desce dos céus e entra em ação, impedindo que George ceife a sua vida. Diante do exposto, não é preciso muito para compreender como o final vai se desenvolver: George vai aprender uma lição, os habitantes da cidade também, o antagonista vai pagar pelos seus erros e todos viverão felizes para sempre, com suas contas equilibradas e possibilidades de crédito reajustadas, afinal, com o herói de volta, a cidade poderá contar com seu aquecimento econômico sem a exploração do dominador Mr. Potter. Isso, caro leitor, não é ironia, tá? Acredite: A Felicidade Não Se Compra é um filme natalino, repleto de mensagens edificantes, mas não deixa de ser também uma peça publicitária para o mundo, tendo como foco o estilo de vida estadunidense. Não é “vulgar” como um panfleto, mas é incisivo e sofisticado como um flyer.

Popular por conta de suas exibições televisivas durante o período natalino há relatos de que não havia interesse em tornar o filme uma produção específica para o Natal. Esta é uma questão que fora da diegese fílmica, construída com base nos elementos que regem a estética da recepção. Filmado em um imenso estúdio, há todos os símbolos que se tornaram a marca registrada dos “filmes natalinos”: a neve, as lâmpadas enfileiradas, a árvore de natal, ícones bem significativos, mesmo diante de uma fotografia preta e branca. Junto aos elementos físicos que constituem o período, há também os substantivos abstratos que designam os desejos desta época: do outro lado do capitalismo selvagem e destruidor, temos sentimentos como amor, respeito, compaixão e amizade para contrapor a “maldade” estabelecida dentro deste mundo criado na fictícia Beford Falls.

Moralmente conservador e híbrido de discreto panfleto para o american way of life com crítica social ao sistema capitalista opressor, o filme já acerta o tom na abertura, com créditos iniciais estabelecendo o clima com suas cartelas estilizadas, o que nos remete aos cartões natalinos. Com discussões sobre otimismo, celebração do amor e da amizade, combate ao egoísmo e importância dos laços familiares, a produção ousa em alguns elementos narrativos (destaque para as transições entre os numerosos flashbacks), fatores que juntamente com sua linguagem “universal”, o tornaram uma referência para a Era de Ouro de Hollywood, pois também discutia a necessidade de consciência diante da tarefa transformadora de cada individuo numa sociedade, questão que urgia nos tempos nebulosos do pós-guerra.

A eficiente direção de fotografia da dupla formada por Joseph Biroc e Joseph Walker, a direção de arte de Jack Okey, juntamente com a montagem de Dimitri Tiomki, foram setores da equipe técnica que tornaram a A Felicidade Não Se Compra uma fábula encantadora, típica do Natal, clássico que hoje possui o mesmo patamar de importância de filmes como O Mágico de Oz, um fenômeno industrial e crítico.

No que diz respeito ao roteiro, não há grandes observações. O foco está mesmo na construção do protagonista. Em American Vision: The Films of Frank Capra, de Ray Carney, o autor diz que nos filmes do cineasta, “o individuo é quem modela o sistema, não o contrário”. O que Carney estabelece é que “o individuo é o único gerador legítimo de valores do universo”, isto é, há pessoas por detrás deste sistema, por mais que nós busquemos institucionalizá-los. São pessoas que regem o sistema e no caso do filme em questão, as pressões sociais e a presença do ambicioso e “maligno” antagonista, Mr. Mercedes.

A Felicidade Não Se Compra é um filme que sobreviveu graças ao resgate memorialístico da crítica. Ganhadora do Globo de Ouro de Melhor Diretor, a produção concorreu ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (James Stewart), Melhor Edição e Melhor Som, mas apesar de todo o respeito nas premiações, naufragou na bilheteria, ofuscado pelo eclipsante Os Melhores Anos de Nossas Vidas, de William Wyler, drama que tratava de pessoas que buscavam ajustar as suas vidas após os conflitos da Segunda Guerra Mundial. Tema que dialogava com a realidade da época, afinal, as produções situavam-se em 1946, a produção de Wyler destacou-se e fez o filme de Capra, realização muito cara para os padrões, amargar uma bilheteria bastante abaixo do esperado.

Inspiração para diversos filmes que se baseiam em toda a sua estrutura, tais como Click e Um Homem de Família, a produção é um marco do tema “Natal no cinema”, tendo influenciado, de alguma maneira, praticamente todos os filmes que tenha essa temática. A Felicidade Não Se Compra está para Anjo de Vidro, O Amor Não Tira Férias, Simplesmente Amor, O Natal dos Coopers e Tudo em Família o que Psicose foi para Atração Fatal, Cabo do Medo, Os Estranhos, Um Tiro na Noite: uma referência direta ou indireta que se faz presente nem que seja em um frame da narrativa.

A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life) — EUA, 1946.
Direção: Frank Capra
Roteiro: Albert Hackett, Frances Goodrich, Frank Capra, Jo Swerling, Philip Van Doren Stern
Elenco: Argentina Brunetti, Beulah Bondi, Carol Coombs, Charles Lane, Charles Williams, Danny Mummert, Donna Reed, Edward Keane, Frank Albertson, Frank Faylen, Frank Hagney, Georgie Nokes, Gloria Grahame, H.B. Warner, Henry Travers, James Stewart, Jean Gale, Jeanine Ann Roose, Jimmy Hawkins, Karolyn Grimes, Larry Simms, Lillian Randolph, Lionel Barrymore, Mary Treen, Ray Walker, Robert J. Anderson, Ronnie Ralph, Samuel S. Hinds, Sarah Edwards, Sheldon Leonard, Thomas Mitchell, Todd Karns, Virginia Patton, Ward Bond, William Edmunds
Duração: 130 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.