Crítica | A Festa de Babette

PLANO CRITICO A FESTA DE BABETTE

Alguns especialistas colocam A Festa de Babette em um patamar sofisticado. Considerado como precursor dos filmes que envolvem gastronomia e cinema, a produção é uma referência na história deste subgênero que já encantou plateias ao redor do planeta. Ao tratar da preparação dos alimentos, da figura de uma pessoa que gerencia a cozinha e do ato de comer uma refeição saborosa e bem preparada, a trama flerta com as ricas experiências sinestésicas oriundas da gastronomia enquanto ação representativa para a humanidade.

Em A Festa de Babette, a comida amplia os seus horizontes, ao deixar de ter caráter exclusivamente nutricional para reger relações no bojo da cultura, e assim, promover atos de sociabilidade. A alimentação neste atmosférico drama está relacionada a condutas, atos e costumes. O filme começa com uma noite de tempestade em um vilarejo da Dinamarca, tendo como foco a chegada de Babette (Bibi Anderson), uma mulher que foge das agonias que envolvem a França naquele momento, envolta nas repressões da Comuna de Paris.

Ela se emprega como faxineira e cozinheira na casa de duas distintas mulheres solteiras, Martina (Brigitte Federspiel) e Philippa (Bodil Kjer), filhas de um rigoroso pastor. Babette vive neste local por 12 anos, até que descobre ter ganhado na loteria. Todos os anos, um amigo seu renovava um bilhete de loteria e nesse ano, havia sido premiado. Aturdida com a notícia, ao invés de voltar para a França e curtir os prazeres das novas possibilidades, Babette pede autorização para ficar e preparar um banquete em comemoração ao centésimo aniversário do pastor.

Parábola da graça, quando um presente custa tudo para o doador e nada para o que recebeu, o filme nos ajuda a refletir sobre a sociedade e os seus valores. No jantar, estavam agendados a senhora Loewenhielm e o seu sobrinho, oficial de cavalaria, então general do Palácio Real. Ele é uma representação da modernidade, uma espécie de abertura ao mundo, responsável por ampliar as possibilidades de novos sabores e experiências. Animado pelos pratos espetaculosos, o general é o personagem que de fato se delicia e enxerga naquelas comidas o extremo do prazer típico da vida terrena.

Vinhos, frutas saborosas, massa folhada, queijos e outras delícias são partes integrantes deste ritual, numa poética declaração de amor estética à vida e ao ato de criar, o que por sua vez, permite a sociabilidade e a comunhão entre as pessoas. Partindo do ponto de vista filosófico, que nos faz até mergulhar um pouco nas ideias de Platão em uma de suas obras mais conhecidas, O Banquete, temos na mesa onde acontecem os eventos prazerosos originados pelos dotes culinários de Babette, a sensualidade e o prazer que foram expurgados da vida das irmãs que tiveram na juventude um pai extremamente rígido.

No banquete oferecido por Babette está presente a memória dos envolvidos na história, bem como a sua vida. Ela produz os pratos sofisticados e inscreve na narrativa a sua trajetória como profissional, revelando-se um ser humano formidável, numa obra com clima de fábula e adornada por ensinamentos de vida, sem necessariamente vulgarizar-se como panfleto barato de autoajuda. Além de se preocupar consigo mesmo e com as irmãs que lhe deram abrigo, Babette também é cuidadosa com os pobres e trouxe alegria para determinado eixo da comunidade.

Visualmente bem conduzido, principalmente por conta do eficiente figurino, composto pelo trio formado por Annelise Hauberg, Pia Myrdal e Karl Lagerfeld, repletos de roupas pretas, a narrativa também ganha bastante vigor com a música de Per Norgaard, presente em vários trechos juntamente com os sinos e violinos tocados por alguns personagens, carregados de significação. A cenografia, outro ponto positivo, cheia de ruas lamacentas e cabanas cobertas de palha é outra parte da linguagem que ganha complemento com as paletas que adornam a direção de arte, sempre compostas por cinza, preto e branco. Nas mesas, o linho ganha destaque, além dos castiçais prateados que reluzem o jantar organizado com requintes artísticos.

Há alguns especialistas que apontam o erro histórico na condução do roteiro, pois segundo relatos, a narrativa de Babette não pode ser levada em consideração, haja vista a presença da mulher numa cozinha na sociedade da época, algo considerado como inconcebível. Na verdade, o chefe francês que assumia a cozinha que Babette relata no filme era Adolphe Dugleré, homem que regido pelos códigos da época, não permitia mulheres em sua ala de trabalho. A licença poética, por sua vez, parece não ter sido compreendida por todos. A proposta era justamente dar o tom feminino para causar o estranhamento e tocar nas cordas sensíveis das relações de gênero que ainda nos envolve na contemporaneidade.

Ao trazer de maneira sublime a combinação dos atos de criar, produzir e fruir no âmbito da culinária, o ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, A Festa de Babette, foi um dos filmes mais badalados de 1987. Ao longo de seus 102 minutos, o espectador é colocado numa extensa teia de reflexões sobre várias questões que gravitava em torno do ato de cozinhar, ação que surge como alegoria em diversos momentos deste filme poético, dirigido pelo dinamarquês Gabriel Axel, cineasta que se baseou em um conto de Karen Blixen.

A Festa de Babette (Babette Gaestebud/Dinamarca, 1987)
Direção: Gabriel Axel
Roteiro: Gabriel Axel
Elenco: Bibi Andersson, Ebbe Rode, Gudmar Wivesson, Jarl Kulle, Jean-Philippe Lafont, Stéphane Audran
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.