Crítica | A Filha (2015)

estrelas 4

Por mais que contem com linguagens bastante similares, é sempre preciso ter cuidado ao se adaptar uma peça de teatro para o cinema. Nem sempre o que funciona com um pode ser facilmente transposto para o outro, com o risco do longa-metragem cair na teatralidade sendo uma constante, que já prejudicara inúmeros filmes ao longo da história. A Filha, estreia de Simon Stone como diretor e roteirista, conta com a difícil tarefa de colocar nas telonas a peça The Wild Duck, do norueguês Henrik Ibsen, escrita em 1884. Stone traz essa trama para os dias atuais e consegue se distanciar dos problemas comuns a esse tipo de adaptação, ainda que cometa outros deslizes.

A narrativa acompanha Christian (Paul Schneider), que retorna à pequena cidade onde crescera para estar presente no casamento de seu pai, Henry (Geoffrey Rush). De imediato captamos uma tensão no ar, que apenas aumenta quando descobrimos que a esposa do antigo melhor amigo de Christian tivera um caso com Henry. O que inicia como uma simples visita se torna, então, uma abertura de antigas feridas, com esse grupo tendo de lidar com as recém descobertas reveladas pelo homem que voltara para casa. De imediato surge a dúvida: será a filha do amigo de Christian, na verdade, sua irmã?

O estrante Simon Stone faz um ótimo trabalho no roteiro, criando uma narrativa que passo a passo nos mergulha nos dramas pessoais desses personagens. De imediato nos aproximamos de alguns deles, enquanto que outros são enxergados como vilões dentro dessa história. Como diretor, Stone não chega a surpreender, se apoiando na linguagem clássica sempre, não ousando com enquadramentos mais criativos. Ele, contudo, sabe nos aproximar dos personagens e quebra a linguagem teatral, não caindo no velho problema já mencionado.

Há um clima de instabilidade constante na trama de A Filha, o que apenas se intensifica conforme descobrimos mais sobre o passado dessas duas famílias – a todo momento a expectativa é de que algo muito ruim irá acontecer, mas não sabemos ao certo o que. Por estarmos falando de um retrato bastante realista de relações interpessoais, tal fator se torna ainda mais sufocante para o espectador, que teme qualquer ação irremediável.

Esse realismo se dá não somente em virtude do texto, como dos esforços de todo o elenco, que traz personificações reais de situações que poderíamos muito bem encontrar ao longo da vida. Dentre eles, o maior destaque é Geoffrey Rush, que interpreta um sujeito que, de início, já não gostamos, mas que é tão verdadeiro que não podemos deixar de ficar hipnotizados pela sua presença em tela. Sabiamente o texto o coloca como o ponto que une todos os personagens da trama, por mais que o protagonismo seja reservado a Christian.

Curiosamente o realismo do texto e das atuações não se estende para a montagem de Veronika Jenet, que faz uso do tempo subjetivo para unir as sequências. Pulamos de cena em cena sem saber ao certo quanto tempo se passou, ainda que a iminência do casamento esteja sempre presente. Tal escolha permite que a obra transite de personagem em personagem, ainda que tais mudanças de foco causem pontuais rupturas no ritmo narrativo – esses, contudo, não chegam a atrapalhar o longa como um todo, que passa bastante rápido e, quando paramos para notar, os noventa e seis minutos já passaram. O único porém está no ato final, que, embora, seja mais dramático, hesita um pouco perto da conclusão.

Dito isso, Simon Stone, com seu longa-metragem de estreia, A Filha, consegue se esquivar dos comuns problemas presentes em grande parte das adaptações do teatro para o cinema, nos entregando um filme que nos envolve, ainda que deslize em alguns pontos durante a sua narrativa. Com uma tensão que vai gradualmente aumentando, tornando a história cada vez mais angustiante, temos aqui uma obra que sabe transpor para as telonas a peça de Henrik Ibsen, se configurando como um retrato profundamente real das relações interpessoais e de como ações enterradas no passado podem destruir famílias inteiras.

A Filha (The Daughter) — Austrália, 2015
Direção:
 Simon Stone
Roteiro: Simon Stone (baseado na peça de Henrik Ibsen)
Elenco: Geoffrey Rush, Nicholas Hope, Sam Neill, Ewen Leslie, Richard Sutherland, Paul Schneider, Robert Menzies,  Anna Torv
Duração: 96 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.