Crítica | A Fistful of Fingers

estrelas 3

Nove anos antes de despontar com o primeiro filme da trilogia Cornetto, Todo Mundo Quase Morto, Edgar Wright dirige o seu primeiro longa-metragem (a ser exibido no cinema), A Fistful of Fingers. Assim como seu curta anterior, Dead Right e, claro, suas obras posteriores, o filme é uma paródia de um gênero cinematográfico específico – como o título já deixa explícito, o olhar de Wright se vira, aqui, para os western spaghetti, embora o diretor chegue a flertar com outros faroestes clássicos, como Butch Cassidy. Com orçamento praticamente nulo, tirado de seu próprio bolso, o longa é mais uma grande brincadeira do realizador, que, desde já, apresenta sua identidade, especialmente no roteiro.

A trama acompanha um cowboy sem nome, que chega em uma pequena cidadezinha buscando homens procurados para coletar as recompensas pelas suas cabeças. Focado em um sujeito específico, essa paródia de Clint Eastwood rapidamente quem procura, mas, na perseguição, acaba tendo seu cavalo, Easy, morto. A história, portanto, se transforma em um conto de vingança, com o homem sem nome percorrendo grandes distancias para encontrar o assassino de sua fiel montaria.

Em muitos aspectos, A Fistful of Fingers nos remete imediatamente a Monty Python em Busca do Cálice Sagrado. Wright não esconde sua inspiração na trupe de comediantes, algo que se faz bem evidente pela forma como os cavalos se apresentam no filme: feitos de tecido, com os atores “trotando” enquanto vestem o adereço como uma saia. Naturalmente que parte do motivo desses animais serem retratados dessa forma é a falta de orçamento, mas o diretor utiliza isso a seu favor, compondo parte do humor de sua obra satírica.

E humor é o que não falta no filme, que ironiza praticamente todos os aspectos dos clássicos faroestes, não deixando absolutamente nada de fora. Wright ainda aproveita para dar pinceladas de metalinguagem aqui e lá, como fizera em Dead Right – aliás, é interessante ver como, com o caminhar da projeção, o diretor/ roteirista insere mais e mais piadas desse tipo. Mas não estamos falando do mesmo realizador que veríamos bem mais tarde em Chumbo Grosso, por exemplo – seu humor ainda não está nem um pouco refinado e se apresenta de maneira exagerada pela maior parte do filme, o que acaba cansando o espectador, transformando esse um longa muito mais extenso do que ele verdadeiramente é.

Dito isso, A Fistful of Fingers funciona muito mais como um olhar sobre a trajetória de seu diretor do que como uma fonte de entretenimento propriamente dita. Ainda que elementos característicos de sua filmografia se façam mais presentes em seu curta anterior, podemos observar algumas de suas marcas aqui, em especial a ágil narrativa, que se apoia em constantes elipses a fim de pegar o espectador desprevenido, construindo, portanto, uma atmosfera mais relaxada, que nos permite uma maior entrega à comédia pastelão, reminiscente de Mel Brooks e outros mestres do gênero. Além disso, claramente Wright opta por uma linguagem cinematográfica que referencia imediatamente os western, como os planos fechados no olhar dos personagens e a transição de indivíduo em indivíduo a fim de elaborar o suspense, o qual, aqui, é transformado em comédia, através de alguns absurdos presentes na tela.

O que mais entrega o amadorismo da obra é o trabalho fotográfico, que não acerta na iluminação em inúmeros trechos. Enquanto, em algumas cenas, nos sentimos dentro do velho Oeste, em outras temos a completa certeza de que o filme fora filmado em algum lugar do Reino Unido, deixando transparecer o característico clima nublado tão comum às paisagens inglesas. Evidente que um simples esforço maior na coloração resolveria isso, mas esse ponto é, notavelmente, deixado de lado na construção desse longa-metragem.

No fim, A Fistful of Fingers é um filme que diverte, especialmente aqueles que já assistiram boa parte dos clássicos faroestes, especialmente os spaghetti. O maior mérito da obra, contudo, é servir como um olhar sobre o amadurecimento de Edgar Wright enquanto diretor – a partir dessa obra e a anterior, podemos observar sua gradual evolução, até chegar no realizador que nos entregaria Todo Mundo Quase MortoChumbo GrossoScott Pilgrim Contra o Mundo, dentre outros longas inesquecíveis.

A Fistful of Fingers — Reino Unido, 1995
Direção:
Edgar Wright
Roteiro: Edgar Wright
Elenco: Graham Low, Martin Curtis, Oli van der Vijver, Quentin Green, William Cornes, Edward Scotland, Richard Green, Amy Bowles, Stuart Low, Nicola Stapleton
Duração: 78 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.