Crítica | A Fita Branca

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estrelas 5,0

“Venho manifestando já por vezes minha opinião de que cada povo e até cada indivíduo, em vez de sonhar com falsas responsabilidades políticas, deveria refletir a fundo sobre a parte de culpa que lhe cabe da guerra e de outras misérias humanas, quer por sua atuação, por sua omissão ou por seus maus costumes; este seria provavelmente o único meio de se evitar a próxima guerra.”

O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse

A filmografia de Michael Haneke é das mais interessantes e peculiares do cinema nas últimas décadas. Desde os seus filmes seminais à sua última grande obra-prima – o lindíssimo Amor, o diretor austríaco se dedica com interesse constante ao tema do mal e da violência como constituintes da natureza humana. A recriação de um misterioso caso de suicídio familiar em O Sétimo Continente, os jogos de tortura e humilhação de Violência Gratuita e as fantasias sadomasoquistas de A Professora de Piano são apenas alguns dos obscuros caminhos da alma humana que Haneke já investigou. Todos os seus filmes giram em torno desse mesmo ponto gravitacional, mesmo que em abordagens muito diferentes. A Fita Branca, seu longa-metragem de 2009 e pelo qual foi laureado com sua primeira Palma de Ouro, não é diferente.

Haneke cria nele uma sombria atmosfera de terror, ao abordar uma onda de violência em uma pequena vila do interior da Alemanha, em 1913, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. O primeiro acontecimento estranho é o acidente envolvendo o médico da cidade, que cai de seu cavalo depois que o animal tropeça em um arame, propositalmente colocado ali. Parece não haver explicação para tal ato em uma sociedade tão educada e ordeira, como aquela que vemos em A Fita Branca. Esse, contudo, seria apenas o primeiro de tantos atos de crueldade que perturbariam aqueles habitantes, tão fleumáticos e disciplinados.

O primeiro aspecto que destaco no filme é o extraordinário trabalho que se faz sobre a ideia de que o mal está entre nós e não para além de nossas fronteiras. O que mais aterroriza o vilarejo é a tomada de consciência de que aqueles terríveis atos são praticados por habitantes da própria vila, que dividem os mesmos espaços, compartilham do mesmo alimento e professam a mesma fé de todos. O mal não vem de longe, mas parte de dentro da sociedade constituída, tornando difícil a sua localização e ainda mais trabalhoso o seu combate. O roteiro conduz toda a narrativa apoiado nessa ideia, não permitindo qualquer alívio aos personagens e ao público, até que termine a sessão.

Ressalto também o formalismo presente no comportamento dos habitantes. Haneke é muito atento à postura e até à entonação de voz de seus personagens, sempre excessivamente austeros em cada fala e cada gesto. Até as crianças, que cumprem papel fundamental na história, crescem impregnadas por esse padrão de comportamento. Há muito desse formalismo na própria direção do austríaco, que realiza cada enquadramento e cada movimento de câmera com um esmero que chega a incomodar. Neste caso, a perfeição da forma contribui para criar a ideia de uma sociedade engessada e que cultiva um mal oculto, mas prestes a se revelar. A ausência de trilha sonora e a fotografia em preto e branco são escolhas técnicas que também colaboram para esse clima de sobriedade perturbadora.

Outro aspecto técnico muito relevante é o uso da câmera parada, em longas tomadas, dando a sensação de aprisionamento em cenas muito desagradáveis. Aquela em que se banha o corpo da mulher morta no segundo acidente é um brilhante exemplo. Haneke enquadra somente as pernas da mulher, mantendo a câmera fixa e com distanciamento do que ocorre. Outro exemplo ocorre durante um jantar na casa do pastor, em que todos mantêm expressões duras, com olhos e cabeças baixos, ao serem repreendidos pelo homem. A câmera parada, demorando-se em cada rosto, é muito reveladora. Tudo isso traz ainda mais peso ao filme, no qual as emoções estão constantemente represadas.

Impressiona ainda como tudo é ritualístico em A Fita Branca. A parteira, que se relaciona com o médico da vila, ouve do próprio homem o quanto ele a despreza, estando sentada em uma cadeira com a postura irrepreensivelmente ereta. Também o ato de violência mais assustador, praticado contra um menino com retardo mental, é realizado com todos os requintes de uma cerimônia. Mas a cena que mais me impressiona nesse sentido é aquela em que o pastor ordena ao filho que vá pegar a vareta com que ele mesmo será brutalmente castigado. Novamente o diretor deixa sua câmera imóvel, produzindo uma enorme perplexidade enquanto o menino entra e sai do quadro para buscar o instrumento. O tom formal e solene que se observa nos costumes dos habitantes surge também na violência que praticam.

A fita branca de que trata o título é uma tira de tecido amarrada ao braço das crianças que precisam ter seu comportamento corrigido. Há uma violência simbólica fortemente empregada através do uso desse distintivo, que separa os impuros e os desviantes. É muito representativa inclusive a violência praticada contra o menino com retardo mental, sendo ele, por sua própria natureza, um grande pária numa sociedade com valores erguidos sobre a força e o rigor. É bem conhecido o tratamento que regimes totalitários deram a deficientes físicos e mentais e Haneke prenuncia isso em seu pequeno vilarejo de uma forma perversa.

O grande trunfo de A Fita Branca é tratar de um tema tão complexo de uma forma original e propositiva. Há uma dimensão histórica bastante evidente no filme. Aquelas mesmas crianças, crescendo em um ambiente onde não falta educação formal e até certa erudição (que inclui a música de Schubert e de Bach, dois compositores executados pelos personagens ao longo do filme), seriam responsáveis pela ascensão do Terceiro Reich na Alemanha duas décadas depois. Também as fitas brancas parecem aludir às braçadeiras com a estrela de Davi, que distinguiam os judeus no mesmo período histórico. Toda essa relação com a ascensão do nazismo na Alemanha é de fato necessária e inevitável.

Contudo, penso que o filme é muito mais sobre o terror em sua face genérica. Michael Haneke constrói uma história em que o mal viceja dentro da própria família. Os homens e as mulheres da vila, que transmitem o mal a seus filhos dentro de sua própria casa, são absolutamente comuns e capazes de manter uma civilidade aparente quase todo o tempo. O mesmo seria observado por Hannah Arendt, quase cinquenta anos depois, durante o julgamento de Adolf Eichman, o homem comum e bastante polido que elaborou a Solução Final para a questão dos judeus. A “banalidade do mal”, como ela chamou a terrível destruição provocada por pessoas medíocres, é um alerta para a história humana. O mesmo faz A Fita Branca ao demonstrar que, em qualquer tempo e lugar, o mal só é capaz de produzir grandes hecatombes quando corrompe primeiro as pessoas comuns em suas relações mais íntimas e invisíveis.

A Fita Branca (Das Weisse Band) — Alemanha/ Áustria/ França / Itália, 2009
Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke
Elenco: Burghart Klaußner, Christian Friedel, Ernst Jacobi, Josef Bierbichler, Leonie Benesch, Steffi Kühnert, Ulrich Tukur, Ursina Lardi
Duração: 144 min

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.