Crítica | A Fonte da Donzela

estrelas 5,0

SPOILERS

Controverso à época que estreou e certamente perturbador, A Fonte da Donzela nos garante um vislumbre da temática que Ingmar Bergman trabalharia posteriormente em sua Trilogia do Silêncio (composta por Através do Espelho, Luz de Inverno O Silêncio). Adaptado de uma balada sueca do século XIII, a obra trabalha em cima de temáticas como a religião – o conflito entre o chamado paganismo e o cristianismo -, inocência, moralidade e, é claro, o pecado. Vencedor do Oscar de Melhor Filme estrangeiro de 1961, temos aqui um filme que não merece ser visto uma só vez, mas consecutivas a fim de experimentar todas as suas facetas.

Dentre essas inúmeras iniciemos a jornada pela fotografia de Sven Nykvist, que teve uma prolífica carreira, assinando inúmeros projetos de Bergman. Nykvist transmite, desde os primeiros planos a nítida sensação de que uma tempestade se aproxima. Uma jovem, suja e com olhar ameaçador, Märeta (Birgitta Valberg) trabalha em um salão de madeira – em seu evidente descontentamento reza pela presença de Odin, introduzindo aqui o primeiro elemento de conflito dentro da narrativa. Planos longos, utilizando cortes somente quando necessários, marcam o ar de calmaria presente nesse primeiro terço do longa-metragem – sutis movimentos de câmera acompanham os personagens a fim de nos dizer que tudo ali se encontra em seu devido lugar, mesmo a problemática jovem, como é vista pelos outros membros da casa.

É claro que seria percebida assim, afinal, todos os outros já se converteram ao cristianismo, deixando para trás seus deuses nórdicos tão diferentes daquela religião que, na teoria, prega o perdão. O maior e mais evidente exemplo do contraste estabelecido dentro dessa morada é a donzela que dá nome ao filme, a virgem do título internacional, Karin (Birgitta Pettersson). Sua inocência, nítida desde sua primeira aparição, conflitam com o caráter mais selvagem de Märeta em uma perfeita representação da mulher nórdica antes e depois do catolicismo. A oposição, contudo, não para por aí. O pai da donzela, interpretado por Max von Sydow, é estabelecido também em antagonia à sua esposa (Gunnel Lindblom), porém em uma gama que não se limita ao preto e o branco das duas jovens.

Conforme caminhamos na direção do clímax da narrativa, o trabalho de Nykvist vai adotando um número maior de cortes, utilizando uma quantidade maior de planos e contra-planos que visivelmente criam a tensão no espectador, nos deixando praticamente sufocados com a antecipação. Toda a sequência com Karin na floresta, encontrando os bandidos na estrada é assustadoramente perturbadora, culminando em uma corajosa cena de estupro que revira o estômago de qualquer um. Bergman conduz cada ator em cena harmonicamente, trabalhando com a simetria em quadro e o contraste entre o claro e o escuro, o sujo e o limpo a fim de tornar a cena verdadeiramente emblemática.

Partimos, portanto, para a temática da vingança, o pecado e o silêncio de Deus, que permite a ocorrência de tal barbaridade em relação a uma devota inocente e virgem. Bergman, porém, não torna a revanche algo fácil e a nutre com a amargura de um fiel que sabe que seu Deus condena tais ações – sua hesitação ao cometer o ato em nome de sua falecida filha é notável e ela vem acompanhada da honra de um homem que se nega em matar o outro em seu sono: não é assassino, apenas quer a justiça que lhe foi negada.

Você viu isso e não fez nada, viu minha vingança e não fez nada, repete o homem injuriado pelo peso de suas ações. Voltamos ao contraste das religiões, onde a antiga o veria como uma pessoa protegendo sua honra e a nova como um pecador. E onde está Deus? Silencioso, não punindo ou recompensando seu fiel. A surpresa, porém, formando, por fim, o título do filme: a fonte da donzela dá as caras, como um milagre da divindade, até então, ausente, que agora chora pela morte da inocência e pelo arrependimento de um homem que apenas buscou (de maneira errada?) pela paz de espírito.

Com um coro celestial, Ingmar Bergman encerra sua visão da balada sueca, chocando o espectador, esteja ele em 1960 ou já no século XXI. Com uma narrativa em tom crescente, o diretor nos suga para dentro de sua perfeita retratação do medieval, trazendo temáticas da época que nitidamente se traduzem para a atualidade. A Fonte da Donzela, como já dito, merece ser visto e revisto e, a cada exibição, somente ganha um caráter mais perturbador.

A Fonte da Donzela (Jungfrukällan – Suécia, 1960)
Direção:
Ingmar Bergman
Roteiro: 
Ulla Isaksson
Elenco: 
Max von Sydow, Birgitta Valberg, Gunnel Lindblom, Birgitta Pettersson, Axel Düberg
Duração: 89 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.