Crítica | A Força do Mal

A Força do Mal é brega, sem dúvidas alguma. O filme, como o título aponta, de terror, começa com alguma coisa ruim perseguindo um senhor. Primeiramente, a câmera lenta é exagerada e a tensão fabricada porcamente. Poderíamos esperar mais de um diretor em início de carreira? Poderíamos. Steven Spielberg já havia feito o telefilme Encurralado, bem recebido pela crítica. Esta outra obra para televisão, no entanto, não seria receptora de nenhum louro. Um casal de Nova Iorque decide se mudar (abruptamente) para uma fazenda. O que eles não sabiam é que estavam indo em direção, e levando seus filhos juntos, à morada de um demônio invisível. Assustador? Um ponto positivo para o filme que não se abriga em clichês de casas, obviamente, mal assombradas, vide o fato dessa residência ser até bem comportada, aparentemente. Fora isso, o espectador deve se preparar para uma hora (graças por ser apenas uma hora e alguns minutinhos) de suspense barato, roteiro furado sem pé nem cabeça, e muitas cenas “assombrosas” bem mal acabadas. Ao menos, a tensão vai de porca para operante, com pitadas genuinamente boas e outras genuinamente ruins. Filminho para se ver despretensiosamente? Se você achar uma cópia minimamente decente, pode até ser. Se você imaginar que Tubarão veio depois três anos depois dessa aberração, as coisas ficam bem melhores.

É perceptível alguns toques na direção mais inteligentes, como o momento no qual filho e mãe quebram coisas ao mesmo tempo em um clima crescente de que algo está errado. Mas, no tudo, Spielberg falha em desenvolver um filme de terror convincente. Mas a culpa não é só dele. O trabalho de edição é desastroso, amador. A montagem é vergonhosa, como se, nos parâmetros atuais, tivesse sido feita em um programa fajuto disponível pelos meios mais escusos imaginados. Durante uma festa na casa mal assombrada (aliás, Spielberg faz uma ponta nessa cena), as coisas são conduzidas risivelmente, com diálogos que não vão a lugar algum. Por falar em não ir a lugar algum, o terror também é fraco. Em uma das cenas mais “memoráveis” (a única que me recordo totalmente desde a minha jornada pelo telefilme), a mulher acorda com um som de bebê chorando e sai perambulando a procura do choro. Spielberg definitivamente sabe movimentar a câmera e algumas movimentações de planos são interessantes, instigando o medo no espectador. A trilha sonora, porém… Sem palavras para descrever o quão genérica ela é. Continuando, após uma boa reviravolta (o fato do som não ter vindo de sua filha), tudo se perde quando no final um rato surge de um balde e temos que nos contentar com isso. O nada é usado como alavanca para o terror, sem significado para a narrativa. Algo poderia ter sido apresentado, uma pista. Mas não, Marjorie vira as costas ao ver o rato e sai de cena, sem nem mesmo questionar o que de fato era aquele som apavorante de bebê.

O roteiro faz questão de apressar tudo. A contextualização é apressada, a possessão é apressada e a resolução é apressada. O sentimento de paranoia não tem tempo para respirar. O bom é que não há expositividade desnecessário no início do filme. O ruim é que nada é feito para compensar a não existência desse artifício narrativo. Personagens vem e vão com uma fluidez absurda, como se fossem meros figurantes de um filme que, em termos mais adequados, se proporia a introduzir questões relevantes a um espectador. Nada deveria ser gratuito, e em A Força do Mal as coisas são, menos a pintura apresentada nos créditos iniciais. Ali, Spielberg joga bem com os pontos de interesse do espectador ao longo do longa. No que tange as atuações, Marjorie, interpretada por Sandy Dennis, é escandalosa. Cada palavra dita é, como muito bem apontado pela própria natureza da situação, dita, pausadamente, sem muito esforço para que os diálogos soem conversas naturais. Ao menos funciona quando se tem que ser escandalosa, mesmo que o seu filho, interpretado por Johnny Whitaker, se saia melhor. Enfim, com alguns sustos ali e aqui, A Força do Mal não é o pior filme já feito. Dado os padrões da televisão na época (que mesmo assim produzia filmes bem melhores, como o próprio Encurralado), muito mais humildes que os do cinema, era difícil de esperar que esse filme alcançasse um sucesso tão grande quanto O Exorcista, de um ano depois, com atmosfera parecida. Esse é ruim. Mas não é melhor olharmos para o lado bom e imaginar que poderia ter sido ainda pior? Imaginar que Spielberg ainda se envolveria com uma produção contendo muitas das características dessa, chamada Poltergeist – O Fenômeno, muito melhor? O mundo dá voltas.

A Força do Mal (Something Evil) – EUA, 1972
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Robert Clouse
Elenco: Sandy Dennis, Johnny Whitaker, Darren McGavin, Ralph Bellamy, Jeff Corey, John Rubinstein, David Knapp, Laurie Hagen, Herb Armstrong, Margaret Avery
Duração: 73 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.