Crítica | A Fraternidade é Vermelha

afraternidade

estrelas 4

Um filme sobre a velhice e a juventude. Uma produção que arremata o processo de reconstrução de significados para os ideais iluministas que soavam (e soam) na contemporaneidade como distantes e evasivos. O projeto ainda está presente, por sinal, muito bem arquitetado: com o bicentenário da Revolução Francesa, o mundo estava diante de uma Europa que desejava o rompimento com as barreiras nacionais.

Neste desfecho, Valentine (Irene Jacob) dirige o seu carro ao voltar de uma atividade para casa, mas por conta do destino, atropela a cadela de alguém em seu caminho. Diante do animal ferido, encontra uma coleira com o endereço e segue até o local. Ao chegar, descobre um homem amargo que a recepciona muito mal. Ele é um juiz aposentado que termina a sua existência terrena espionando as conversas telefônicas de seus vizinhos. O motivo desse homem misterioso é tomar posse das intimidades alheias, para acompanhar passo a passo o desenrolar dos seus respectivos destinos. Há, todavia, em Valentine, o paradoxo comum na trilogia em questão: inicialmente aterrorizada e com postura de condenação, passa a se envolver com aquela situação considerada abusiva e errônea, atos que vão de encontro aos seus ideais.

No que tange aos aspectos narrativos, este é o capítulo da trilogia com maior profundidade de campo, principalmente nas cenas mais contemplativas e filosóficas. A cor vermelha tonaliza semáforos, faróis, bolas de boliche, cerejas, dentre outras coisas. É uma cor bem representativa, pois nos remete ao sangue das relações humanas, da circulação que envolve os encontros e desencontros dos personagens de toda a trilogia. Na seara da direção de arte e do design de produção, temos várias referências significativas, sendo uma delas a foto de Franz Kafka que aparece no estúdio de fotografia. Coincidência ou não nos remete ao Processo, um dos monumentos da literatura moderna. Cabe ressaltar o trabalho de som: entre arroubos de silêncio e composições discretas para ilustrar algumas cenas, a música do filme comove e serve como elemento coesivo para as emoções dos personagens em cena.

A Fraternidade é Vermelha marca o fim de uma brilhante jornada. Com esse filme, Kieslowiski disse ter alcançado o que queria como cineasta e ser humano. Notadamente o seu filme favorito da trilogia, é onde encerra e relaciona as narrativas anteriores, numa espécie de metáfora avassaladora: no final, somos informados pela televisão que um acidente de balsa dizimou quase toda a tripulação e passageiros, restando apenas alguns poucos sobrevivente, dentre eles, Julie (Juliette Binoche, de A Liberdade é Azul), Dominique e Karol Karol (Julie Delpy e ator, respectivamente, de A Igualdade é Branca) e Valentine, protagonista do filme em questão.

Por estarmos diante de uma trilogia com abordagens geopolíticas, não há como negar a força metafórica deste naufrágio, pois o acidente representa os representantes das microscópicas ações dentre de um feixe macro de relações dentre do continente europeu numa era de indecisões e incertezas. Uma situação que representa um roteiro apurado e preocupado em dar verossimilhança ao que se representa e ressignifica, tendo em vista a abordagem do primeiro texto, mais explícita no que diz respeito aos ideias iluministas reapresentados na contemporaneidade, sem as afetividades e excessos idealistas da antiga história.

Ao escrever estas reflexões, encontrei-me diante do solilóquio eterno herói da dúvida e da postergação: Hamlet. Ser ou não ser? Seria o naufrágio uma interpretação para os europeus unidos apenas pela tragédia? Não há nada verbal que comprove, mas podemos inferir, haja vista que estamos diante de um continente sempre envolvido em guerras internas.

O diretor morreu um ano depois do lançamento. Ainda jovem, nos idos dos 50 e tantos anos de idade, foi vítima de um colapso cardíaco, oriundo da vida ativa e frenética que levava, acompanhada, como disse Julie Delpy,  “por noites montando o primeiro filme e o dia filmando outro, tendo o cigarro como escapismo para o estresse da vida tão badalada”.

Antes de concluir o curso de Cinema na Academia Cinematográfica de Lodz, dirigiu curtas que denunciavam questões sociais na Polônia, e, como não seria diferente para um diretor visionário e crítico, encontrou problemas com a censura. Realizou, em 1976, os filmes A Cicatriz e A Profana, sendo o segundo uma observação sobre o ofício de cineasta. Nos anos 1980, em específico, 1987, filmou para a televisão o seu famoso Decálogo, produções com uma média de 60 minutos de duração, focadas nos 10 mandamentos bíblicos. Para o formato longa-metragem, adaptou Não Matarás e Não Amarás, clássicos absolutos para o campo da crítica compromissada e dos cinéfilos. Antes de estrear a Trilogia das Cores, lançou-se no cinema francês com A Dupla Vida de Veronique, drama que nos revelou a carismática e brilhante Irene Jacob.

A Fraternidade é Vermelha esteve nas premiações mais badaladas da indústria. O filme concorreu ao Globo de Ouro de Melhor filme, ao Oscar de Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia. Em Cannes, disputou a Palma de Ouro, mas perdeu para Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. Ao longo dos seus 99 minutos de duração, espera-se que o espectador consiga identificar os elos entre as três narrativas, independentes por um lado, mas parte de um mesmo contexto, visto sob o viés do bloco que forma a trilogia, filmes imperdíveis e didáticas aulas de cinema para os interessados em compreender mais sobre a linguagem cinematográfica.

A Fraternidade é Vermelha (Trois Colors: Rouge, França/Polônia/Suíça, 1994)
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz
Elenco: Irene Jacob, Jean-Louis Trintignant, Frederique Feder, Jean-Pierre Lorit, Samuel de Freitas, Marion Stalens, Leonardo Gabardo, Teco Celio
Duração: 99 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.