Crítica | A Freira

Em Exorcistas e Psiquiatras, livro duvidoso e problemático de Gabrielle Amorth (o exorcista mais midiático que o Vaticano já teve), o sacerdote que passou boa parte da vida numa luta sem descanso contra as forças satânicas nos revela que é preciso ter muita garra para enfrentar as forças do mal que parecem dominar a vida terrena a cada dia. Num de seus capítulos focados no panorama histórico do exorcismo, conforme a trajetória do cristianismo, o padre narra fatos documentados sobre eventos tenebrosos registrados por volta de 1559 e 1620.

Conhecido como o caso das “Irmãs Negras de Mons”, na França, a história retrata a vida de uma freira que havia contraído um pacto com o diabo e denominada bruxa, foi condenada pela Inquisição. Felizmente, a história teve um final menos trágico. O sensível monsenhor Luís de Berlaymont, Arcebispo de Cambrai, ordenou que a freira não fosse processada, tampouco condenada, mas exorcizada. Depois do ritual, a religiosa continuou a sua vida como freira exemplar, libertada das forças demoníacas que a possuía. O mesmo, por sua vez, não acontece com a história desenvolvida para A Freira, narrativa focada na entidade que sacudiu Ed e Lorraine Warren em no segundo Invocação do Mal.

Envolto numa redoma de expectativas, a promessa de “filme mais aterrorizante do universo de Invocação do Mal” não se concretiza, mas a produção ainda assim consegue ser mais interessante que os dois casos sobre a boneca Annabelle. Sob a direção de Corin Hardy, responsável pelo pouco interessante A Maldição da Floresta, o derivado da franquia criada por James Wan teve roteiro assinado por Gary Dauberman, profissional que contou com uma equipe gigantesca do departamento de som, tendo em vista potencializar as descrições presentes no texto dramático.

A história é, no mínimo, profana e aberrante. Certo dia, um entregador se depara com uma freira que acabara de cometer suicídio num convento na Romênia. Diante da estranheza do acontecimento, o padre Burke (Demián Bichir) é convocado para investigar a situação, pois como um local sagrado pode ser palco de uma tragédia tão profana? Para a sua missão, ele convida a irmã Irene (Taissa Farmiga), uma jovem que ainda não confirmou os seus votos, mas possui bastante interesse em seguir os caminhos religiosos para o resto da vida.

Ao chegar, os representantes externos começam a sentir que há algo de muito estranho no convento e descobrem que uma manifestação maligna, acostumada a se apresentar por meio de trajes de uma freira (representada por Bonnie Aarons), é a força responsável pelos atos profanos que estão colocando em risco a vida de todos os que circulam naquele espaço. Juntamente com a condução musical de Abel Korzeniowski, acompanhamos as revelações apresentadas aos personagens, oriundas de circunspecções e bastante investigação. Assim, a dupla precisará enfrentar o mal absoluto, uma força devastadora capaz de carregar a todos para as profundezas do inferno.

Cronologicamente responsável por ser o primeiro capítulo da franquia, situado duas décadas antes de Invocação do Mal, A Freira é o quinto filme do “universo”, um dos melhores no que concerne a composição visual. A direção de fotografia de Maxime Alexandre é a definição da eficiência, com enquadramentos sofisticados e esteticamente deslumbrantes, sempre preocupados em captar o que há de melhor no design de produção de Jennifer Spence, profissional que contou com os cenários de Gina Calin e os figurinos de Sharon Gilham. Cores adequadas ao clima soturno, figurinos que captam bem o design dos personagens e elementos devidamente expostos em cena nos mostram que os bons filmes de terror precisam caprichar nos aspectos visuais para a construção da atmosfera narrativa.

Filmado em Bucareste, capital e maior cidade da Romênia, A Freira dá vazão aos planos que captam, por meio de movimentos calculados, a arquitetura que mescla o neoclássico, o estilo art déco e Bauhaus. Através da técnica do dolly ou travelling, as imagens captadas são artisticamente valiosas, numa demonstração de extrema beleza diante de uma história macabra e grotesca. A edição da dupla formada por Michel Aller e Ken Blackwell, também eficiente, corta na hora certa e sabe exatamente o que não pode deixar de ser captado e exposto para o público. O departamento cenográfico agradece, contemplado neste quesito.

Se visualmente A Freira é empolgante, não podemos dizer o mesmo do roteiro. A história não chega a ser ruim, mas apenas a reciclagem dos filmes que gravitam em torno deste “universo”. Há a necessidade de por algumas pequenas doses de humor ao longo dos acontecimentos, numa possível tentativa de diminuir o impacto dos sustos relativamente previsíveis, o que não vejo como algo adequado, afinal, que mania é essa das produções de horror que tentam fazer gracinha o tempo inteiro? Outro problema: narrativas de origem geralmente focam na apresentação de informações sobre o passado de seus personagens e o que temos aqui é mais virtuosismo imagético e menos a construção da trajetória de Valak, demônio que possui mais informações ligadas aos pontos de informação exteriores ao filme.

A entidade de fato é parte dos estudos de demonologia, mas a representação como freira é fruto da imaginação dos realizadores da franquia. Somos informados sobre a sua “saída” do inferno, mas falta maior complexidade para um antagonista de tamanha projeção. Responsável por comandar 38 legiões, a entidade pode surgir como uma criança, bem como montada num dragão de duas cabeças, tendo ainda o poder de revelar tesouros ocultos e manipular serpentes. Assustador, não concorda? Pelo que podemos perceber ao passo que a narrativa alcança seu desfecho, os elementos da franquia estão longe de chegar deixar as salas de cinema.

Padres, freiras, exorcistas e outros sacerdotes ainda precisam continuar a cruzada do poder divino, pois pelo que me parece, os demônios vão demorar bastante tempo para abandonar a indústria do entretenimento. Essa participação ativa dos demônios na sociedade do espetáculo não tem incomodado apenas o italiano extremista Gabrielle Amorth, mas também projetos de lei brasileiros sem nenhuma consistência. Em 2017, tramitou no congresso uma proposta que tinha como foco, proibir a profanação de símbolos religiosos em espetáculos, filmes e jogos.

Criado pelo Pastor Marco Feliciano, o projeto de Lei 8615/2017, de 19 de setembro, diz não ter nada a ver com censura, mas quer evitar que símbolos sagrados sejam banalizados. Se depender de filmes como A Freira, episódio visualmente mais profano da franquia, repleto de crucifixos, cruzes em chamas, protagonismo demoníaco e outros elementos ligados às “origens do mal”, o projeto de lei vai precisar de maior impacto e coesão, pois o filme é uma ode ao tenebroso por todos os quatro cantos dos enquadramentos.

A Freira (The Nun, França – 2018)
Direção: Corin Hardy
Roteiro: Gary Dauberman, James Wan
Elenco: Taissa Farmiga,Ani Sava, August Maturo, Boiangiu Alma, Bonnie Aarons, Charlotte Hope, Demián Bichir, Emma Appleton, Flynn Hayward, Ingrid Bisu, Jamie Muscato, Jared Morgan, Jonas Bloquet, Jonny Coyne, Lourdes Nadres, Mark Steger, Natalie Creek, Samson Marraccino, Sandra Rosko, Sandra Teles, Scarlett Hicks, Simon Rhee
Duração: 110 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.