Crítica | A Fúria (1978)

auria-the-fury-kirk-douglas-plano-critico

estrelas 2,5

Após o estrondoso sucesso de Carrie, A Estranha (1976), Brian De Palma embarcou em mais um projeto envolvendo personagens com poderes telepáticos e psicocinéticos, adaptando o livro homônimo de John Farris, lançado dois anos antes. O diretor tinha apreço pelo tema e, de certa forma, trouxe para A Fúria um grande número de elementos de Carrie, como as intrigas escolares, a dificuldade de relação entre pais e filhos — algo que muda, dependendo da família, ao longo da narrativa — e pressões externas que empurram os sensíveis a esses poderes até o limite, fazendo com que suas atitudes machuquem outras pessoas.

A obra se divide em dois blocos narrativos. No primeiro deles temos Peter (Kirk Douglas, em excelente e quase incansável interpretação) e Robin (Andrew Stevens, aos 23 anos e em boa conexão com Douglas na primeira sequência), pai e filho se divertindo em uma praia do Oriente Médio, em 1977. Em pouco tempo, o roteiro estabelece a presença de um “dom” em Robin e o fato de existirem poderes em jogo não é um problema para ninguém, até então. Mesmo quando Gillian (Amy Irving, cuja personagem em Carrie foi a única sobrevivente do ataque) mostra que é telepata e também possui outros poderes, os personagens à sua volta aceitam isso como piada ou parte de futuros experimentos realizados para um fim que o roteiro jamais explana. Do conflito com as colegas de escola até a internação voluntária em um lugar de treinamento para pessoas com habilidades especiais, no melhor estilo X-Men, o segundo bloco irá mostrar como os poderes de Gillian se desenvolvem e o que podem fazer com que se colocar em seu caminho.

Do Oriente Médio às cenas em Chicago, em 1978, notamos diversos núcleos de suspense sendo erguidos. Sabemos que esta fase da carreira de De Palma foi uma das mais marcadas pelas referências ao cinema de Alfred Hitchcock, e aqui temos dois polos onde a presença do Mestre do Suspense é diretamente sentida; o primeiro, na trilha sonora composta por John Williams, que emula com sucesso o estilo de Bernard Herrmann; e o segundo no clímax do filme, com planos propositalmente similares a Janela Indiscreta (1954) e Um Corpo Que Cai (1958). À medida que o suspense ganha força, algo bastante peculiar sobre os personagens começa a ser sentido, o fato de que a maioria são pessoas tremendamente solitárias, começando pela jornada de Peter — Kirk Douglas brilha nessas sequências! — e terminando com os jovens que possuem poderes e os envolvidos com a organização que realiza pesquisas na área.

Sabendo que De Palma nunca teve muito compromisso com o realismo, entendemos certos caminhos visuais que ele escolheu para mostrar as mortes; ou mesmo a orientação para a montagem e para algumas escolhas do roteiro. Aos poucos, porém, esse cenário de terror e ficção científica se torna exagerado demais para ser aceito e ganha contornos que não ajudam o preparo para o desfecho, pois as linhas narrativas separadas se juntam — começando com a soberba sequência em slow motion, quando Gillian é resgatada da instituição –, mas ao mesmo tempo, se repelem. É como se as jornadas funcionassem apenas de forma separada. Juntas, elas nem chegam a se sobrepor, pois perdem o vigor que tinham e são elevadas a um nível ainda maior de exagero, acabando por se auto-destruírem, uma pela morte de dois personagens, outra pela mudança de abordagem que terá nos minutos finais, guardando muita semelhança com Carrie.

O plot da conspiração do governo sugerido no começo e mais ou menos elencado no decorrer da história se perde completamente. Ben Childress, personagem interpretado por um cínico John Cassavetes, é o melhor produto dessa parte da película, mas sua ação picotada na montagem, e incerta através do texto, se segura apenas pela presença impactante do ator em cena, nada mais. A maioria das tomadas internas são de uma precisão impressionante, e indicam um De Palma seguro em relação ao que mostrar para o público, como gerar determinados sentimentos e como desviar temporariamente a nossa atenção.

Em par com a música de John Williams, ele consegue acertar nessa manipulação do público e obter resultados imediatos na primeira parte, com direito até a uma sequência cômica no meio de uma grande fuga; mas do meio para frente, talvez pela já citada conexão de linhas narrativas que não funcionam bem juntas, a impressão do espectador é completamente outra. Ainda é possível aproveitar as citações visuais no parque de diversões, remetendo a Pacto Sinistro (1951) e ao desenho de produção e direção das duas mortes bizarras no final, especialmente a última, mas diante da falta de unidade, o desfecho chocante consegue apenas gerar um espantoso riso e a espera de algumas respostas que deveriam vir. Mas não vem.

A Fúria (The Fury) — EUA, 1978
Direção: Brian De Palma
Roteiro: John Farris (baseado em seu próprio livro)
Elenco: Kirk Douglas, John Cassavetes, Carrie Snodgress, Charles Durning, Amy Irving, Fiona Lewis, Andrew Stevens, Carol Eve Rossen, Rutanya Alda, Joyce Easton, William Finley
Duração: 118 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.