Crítica | A Fúria do Dragão (1972)

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estrelas 2,5

No momento em que A Fúria do Dragão foi produzido, Bruce Lee já tinha uma grande base de admiradores no Ocidente e no Oriente, algo que vinha construindo desde o seu papel como Kato, na série O Besouro Verde (1966 – 1967) e que se ergueria de verdade depois do lançamento de O Dragão Chinês (1971), embora não graças à qualidade do filme. O apelido de “Rei do Kung Fu” parece ter sido definitivamente abraçado pelo público a partir de A Fúria do Dragão e isso abriria tanto as portas para produções futuras do ator, quanto incitaria a busca por outros filmes de sua carreira. É bastante triste imaginarmos que o ator só faria mais dois filmes a partir daqui, e que morreria aos 32 anos, em julho de 1973.

Escrito e dirigido por Lo Wei (ou Wei Lo, dependendo de como você prefere representar nomes asiáticos, se com o sobrenome ou nome na frente) A Fúria do Dragão é considerado por muitos fãs o melhor filme de Bruce Lee. A referência máxima aqui é o clássico Butch Cassidy (1969), mas aplicado a uma jornada de vingança do estudante de artes marciais Chen Zhen (Lee), que ao voltar de uma viagem, encontra seu Mestre Huo Yuanjia morto. O roteiro de Wei é imediato e quase inconsequente ao apresentar a problemática que irá mover o jovem e exímio lutador. Não fosse pela simpatia de Lee, dificilmente a atenção para o longa se manteria ativa.

Com uma introdução frágil, o espectador foca apenas no elemento de vingança que moverá Chen Zhen ao longo da fita, que é encontrar o assassino de seu Mestre, uma vez que ele se recusa a acreditar na morte por pneumonia. A trama se passa nos anos 1920 e deixa claro a força japonesa no local, o que talvez confunda alguns espectadores quanto a incorreções ou invenções do roteiro, mas neste ponto não existem problemas não. Desde o final da 1ª Guerra Sino-Japonesa (1894 – 1895) Xangai — cidade onde o filme se passa — era uma região internacional, ou seja, embora pertencesse á China, era administrada e influenciada por forças políticas externas, como o Reino Unido e o Japão. Os conflitos que se passam do meio para o final, com a ameaça do Consulado japonês e uma clara inimizade entre eles e os chineses são bem representados no longa e correspondem à época retratada.

O que incomoda, de certo modo, é a maneira caricata com que os inimigos são mostrados (e isso é muito frequente nos filmes de artes marciais da época, herança que perdurou mais do que deveria, inclusive em Hollywood) e a falta de profundidade com que os personagens são tratados. Até mesmo o personagem de Bruce Lee sofre com isso, só ganhando maior impacto quanto à sua história devido ao contraste da postura do ator, sua cólera, seus gritos, seus olhares mortais (delineados por closes e zoom que só funcionam nas primeiras vezes, depois apenas irritam — a forma como são mostrados, não os olhares em si) e sacrifício final, tendo um trajeto bastante doloroso até completar seu destino. No meio do longa, ainda há espaço para momentos de humor — deslocados, mas muito divertidos — que mostram o personagem se disfarçando e fazendo reconhecimento de terreno.

Como já havíamos observado em O Dragão Chinês, as cenas de luta protagonizadas por Lee (que devido a fama, teve liberdade para interferir e fazer todas as suas coreografias — e este foi um dos motivos que pautaram as brigas entre ele e o diretor –, além de usar pela primeira vez a sua famosa nunchaku nas telonas) não são cenas de grande beleza estética ou marcadas por uma “dança de luta”, como era observado na maioria dos filmes chineses do gênero até os anos 1960. Há aqui grande brutalidade e mesmo simplicidade na aplicação do estilo de luta do próprio ator, o Jeet Kune Do, que mesclado com o Kung Fu, já conhecido do público, tem resultados impressionantes. Não é de se espantar que este filme tenha sido um sucesso estrondoso na Ásia e conquistado o Ocidente. A maneira como as lutas são guiadas e especialmente o fator emotivo a elas ligado torna tudo ainda mais importante e tocante, algo pelo qual torcemos o tempo inteiro.

As cenas finais de A Fúria do Dragão são impactantes. Todas as caricaturas, o mal trabalho com os personagens e a superficialidade ou os furos do roteiro são postos de lado e temos uma sequência de tragédias que são capazes de emocionar. Me lembrou um pouco os destinos trágicos vindos de uma jornada de improbabilidades na série em quadrinhos What If…, e deixou tudo ainda mais imponente em relação ao destino de Chen Zhen, que teve aquele final por insistência do próprio Bruce Lee. Assuntos mal trabalhados ou desprezados ao longo da fita surgem rapidamente diante do sacrifício, pois denota uma entrega pessoal para a manutenção da honra e da justiça em um lugar aonde nenhuma dessas duas coisas era comum. Um belo final para um filme não tão bom quanto seu protagonista ou sua importante última lição.

A Fúria do Dragão (Jing wu men) — Hong Kong, 1972
Direção: Lo Wei
Roteiro: Lo Wei
Elenco: Bruce Lee, Nora Miao, James Tien, Maria Yi, Robert Baker, Fu Ching Chen, Shan Chin, Ying-Chieh Han, Riki Hashimoto, Jun Katsumura, Chung-Hsin Huang, Kun Li, Feng Tien, Ying-Chi Li, Tony Liu
Duração: 102 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.