Crítica | A Fúria dos Reis – As Crônicas de Gelo e Fogo – v.2, de George R. R. Martin

estrelas 4,5

Há spoilers.

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O segundo livro das Crônicas de Gelo e Fogo trata com um tipo de leitor distinto do visto no primeiro livro: um preparado, consciente de que ser um personagem principal, com ponto de vista, nada significará nas mãos do sanguinário George R. R. Martin. Não à toa o lema Valar Morghulis ganha aqui sua primeira aparição. A morte chega em todos os lugares. É partindo exatamente dos pontos deixados no primeiro livro que o autor americano investe, neste segundo capítulo, na continuidade de um enredo que fica cada vez mais complexo e cheio de personagens, agora com um norte mais preciso a ser entregue no fim dessa jornada que só causa angústia no leitor. Mas uma angústia boa.

A Fúria dos Reis tem como cenário uma Westeros de ninguém. A guerra dos cinco autoproclamados reis, Robb Stark, Joffrey Baratheon, Balon Greyjoy, Stannis Baratheon e Renly Baratheon – não confundir com a guerra dos cinco exércitos de Tolkien – agora serve como mote para Martin distrair seu leitor dos perigos ao norte da Muralha, visto pelos olhos de Jon Snow, em empreitada para se infiltrar nos selvagens, e em Essos, com Daenerys sofrendo para encontrar abrigo aos seus dragões recém-nascidos. Se no primeiro livro a dinâmica de Ned Stark e Robert Baratheon tomou maior espaço levando ao principal acontecimento, neste é Tyrion Lannister, agora Mão do Rei no lugar de Ned, e Stannis Baratheon, irmão de Robert, que criarão uma dinâmica mais do que satisfatória, ainda que longes um do outro. E é por meio do último que Martin começa a mostrar, novamente, sua genialidade.

Só citado no primeiro livro, o agora mais velho Baratheon vivo toma uma figura de certa forma central equilibrando a austeridade de Ned com o sobrenome de Robert. A jogada de mestre é colocá-lo sob os olhos do contrabandista e braço direito Davos Seaworth, um dos novos personagens mostrados e também um dos que ganham capítulos com seu ponto de vista. Davos, por ser um personagem muito mais carismático e identificável com o leitor em geral, acaba sendo perfeito para retratar essa nova figura real recalcitrante, caracterizando-o aos poucos e contando, com pitadas históricas como Martin gosta de jogar, a benevolência de um homem frio e justo, acima de tudo.

Falando neste núcleo de Pedra do Dragão, um novo e histórico local que aparece logo no prólogo, é impossível deixar de fora Melissandre e todo o elemento místico que a personagem introduz à série que até ali era discreta com bruxarias e algo do tipo. Não que o autor comece a usar a torto e a direito a magia. Pelo contrário, Martin utiliza a presença da sacerdotisa com uma aura de mistério, o que dá progressivamente ao leitor mais água na boca para ver o desenrolar dos planos de Stannis. A permanência da feiticeira ao seu lado, no entanto, reforça o sentido místico fantasioso presente nessas crônicas.

Mas o misticismo vai ganhando força não só com a Mulher de Vermelho. No próprio núcleo de Davos, Shireen, a pequena garota filha de Stannis, apresenta ao leitor a doença escamagris, da mesma forma que Cara-Malhada, um dos personagens mais fascinantes de toda a história, canta seus enigmas, como o típico bobo da corte que parece saber muito mais do que a quem serve. Qaithe, a moça sem rosto que aparece para Daenerys, também é uma que alimenta inúmeras teorias em fóruns de discussões sobre os livros. É realmente uma pena pensar que tais personagens e o próprio tema das profecias foi deixado tão de lado na adaptação da HBO, pois tratam-se de passagens primorosas na obra escrita de Martin – as profecias do parceiro de Shireen acabaram sendo adaptadas, pelo menos em parte, na agonizante canção cantada pela atriz que interpreta a herdeira Baratheon, tocada nos créditos de alguns episódios.

Além de Stannis, como dito, seu carismático irmão Renly também luta pelo trono de ferro. É por meio de outros capítulos que conhecemos o desenrolar da história – Martin coloca o grande momento de cair o queixo neste núcleo, ainda que não se compare com o escrito na Guerra dos Tronos – que junta tais núcleos e apresenta personagens memoráveis, como Brienne de Tarth e a família Tyrell. Outro pretendente nesta guerra é Robb Stark, o agora Rei do Norte, que continua sendo acompanhado por nós pelos os olhos de sua mãe, Lady Catelyn, assim como o Rei Joffrey e todo o núcleo de Porto Real é visto pelos capítulos de Tyrion Lannister, os melhores do livro. Martin coloca no seu personagem favorito imensas doses de sarcasmo e cinismo sem deixa-lo insuportável, fazendo-o o destaque na preparação para a grande batalha da Água Negra e explorando camadas até então inimagináveis do perspicaz anão.

Citar camadas na Fúria dos Reis é também dar destaque para outro personagem com capítulos sob seu ponto de vista: Theon Greyjoy. Começa aqui a sua longa jornada que o tira do papel coadjuvante para uma figura central em acontecimentos gravíssimos. Sua interação com Bran e Rickon Stark são de deixar qualquer leitor angustiado até o último capítulo. A inveja e a vontade cega fazem de Theon, aos poucos, um complexo personagem, o que só mostra a genialidade de Martin em utilizar um, digamos, ninguém do primeiro livro, para transparecer um rico desenvolvimento com agudas consequências para a trama principal.

Desenvolvimento também é a palavra de ordem na jornada de Arya Stark, talvez a melhor depois de Tyrion neste livro. Com o assassino Jaqen H’ghar em cena, seu amadurecimento começa a tomar forma para o deleite dos leitores que a lembram no marcante final do livro um. O curioso é que Arya, assim como Bran, começa a ter sonhos proféticos, que fazem ligações, inclusive, com descrições da sua loba Nymeria – outro ponto deixado de lado desnecessariamente no seriado – nunca mais vista após o acidente com o filho do açougueiro e Joffrey no primeiro livro. A mesma coisa não acontece, infelizmente, com sua irmã Sansa, presa e sem muita graça ao lado de Joffrey, ainda que tal situação sirva para mostrar seu desenraizamento, já presente na Guerra dos Tronos.

A discussão predominante, residindo na pergunta pelo legítimo rei de Westeros, tornar-se-ia algo risível, dado o caminho que Martin daria para sua história, o que só mostra a maestria do escritor e o domínio que exerce em seu leitor ao foca uma imensa parte de sua obra em tal enredo. Alguns capítulos, porém, ficam em segundo plano nesse período da narrativa, como é o caso de Jon Snow e Daenerys. A segunda ainda tem um momento memorável na Casa das Imortais em um dos melhores capítulos de toda a série de livros, contemplando profecias, participações emocionais, visões e um amadurecimento da última descendente Targaryen – descrições que, comparadas ao mostrado na televisão, só mostram como muito se perde na adaptação de uma mídia para outra. Até tal acontecimento, porém, a cidade de Qarth, onde Daenerys encontra residência, torna-se sinônimo de cansaço.

Visto por quem já leu todos os livros, A Fúria dos Reis é claramente um intermédio que desenvolve a guerra em Westeros entre a abertura deixada pela morte de Ned Stark e os acontecimentos do terceiro livro. A condução, porém, é densa e complexa, não subestimando nem um pouco o envolvimento do leitor. A grande maioria da obra flui extremamente bem e Martin mantém o altíssimo nível estabelecido na Guerra dos Tronos, não arrastando a narrativa em sua grande maioria e evitando qualquer confusão com a introdução de personagens que somam muito ao enredo. O segundo livro é um primor da literatura fantástica.

A Fúria dos Reis – As Crônicas de Gelo e Fogo – v. 2 (A Clash Of Kings – A Song of Ice and Fire – vol. 2, EUA – 1998)
Autor:
George R.R. Martin
Editora: Leya
Páginas: 884

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.