Crítica | A Gaiola Dourada

A Gaiola Dourada

estrelas 4

O título “A Gaiola Dourada” diz muita coisa sobre o tema central deste filme de Ruben Alves. A metáfora do pássaro bem cuidado e residente numa gaiola de ouro cai como uma luva ao drama cômico pelo qual o casal Ribeiro passa durante a projeção: sair da França, onde são queridos pelo excelente trabalho que fazem e por nunca dizerem “não” pra ninguém ou voltar para Portugal, onde podem passar a velhice numa Quinta da família, cuidado de uma vinha particular e longe de todas as exigências de trabalho?

Filmes relacionados a questões étnicas ou de imigração, especialmente as comédias, acabam tendo uma notável dose de clichês e estereótipos dos povos que retratam. Às vezes, essas questões são postas unicamente como trampolins para o humor; outras vezes, fazem parte de uma tortuosa forma de olhar o estrangeiro; mas, em poucas ocasiões, são utilizadas para cercar uma verdade e contar uma história com graça e sentimento. Levando em consideração que toda representação passa por um crivo subjetivo, temos nesse último modelo o mais interessante dos estereótipos cinematográficos, aquele que assume o que está fazendo mas não se furta de zombar de si mesmo e mostrar algo fora dessa única visão. Assim é o roteiro de A Gaiola Dourada.

O filme conta a história da família Ribeiro, radicada na França a algumas décadas. José e Maria são os cabeças da casa e trabalhadores excelentes. Ele, pedreiro. Ela, porteira. Ambos são admirados por tudo o que fazem e exatamente por conta desse compromisso, causam reboliço em torno de todos os que o cercam quando descobrem que o casal está indo embora para Portugal, após receber de herança uma grande propriedade de terra e uma boa quantia em dinheiro. Todos passam a bajular a família e a montar a gaiola dourada do título. O objetivo é fazer com que eles resolvam ficar na França, talvez presos em um compromisso moral com seus benfeitores egoístas e interesseiros.

Ruben Alves conta a história com um bom número de elementos culturais, cercando o texto de referências engraçadas e nada forçadas, arrancando risos prazerosos do espectador e brincando com a visão que um estrangeiro tem do outro, especialmente quando se trata de agradar alguém com base em algo tido como tradicional em sua cultura.

As citações nesse sentido são muitas, da culinária à História de Portugal e França. Os melhores momentos nesse sentido são representados pela ótima Chantal Lauby, no papel de Madame Caillaux. Ela levando tulipas para os Ribeiro em homenagem à Revolução dos Cravos (feita com rosas e não com armas, segundo ela) ou confundindo Salazar com o General Alcazar das Aventuras de Tintim é um dos pontos altos do filme. O texto insere todos esses momentos com um aceitável ritmo cômico e de maneira orgânica, nunca forjando situações para fazer piada mas transformando a própria piada em situação, algo que não é fácil de levar adiante numa comédia, mas que podemos ver em todos os bons filmes do gênero, que não são muitos.

O diretor ainda tem o mérito que mesclar tenências humorísticas a questões sociais. É claro que não temos situações de caráter político e antropológico como as de Bem Vindo (2009), O Porto (2011) ou Eu, Vocês, Os Outros (2010). Mas a saudade da terra natal e a relação com o local em que se vive a tanto tempo e carinhosamente adotado como lar é vista com olhos críticos em muitas cenas. A vergonha do filho Pedro em assumir para a namorada e amigos quem realmente são seus pais e o que fazem é um dos exemplos.

Através da trilha sonora temos referências muito bonitas de Portugal, cantadas em francês e em português, mais um amálgama entre as duas culturas. A sequência do fado ao vivo, já na reta final, é um momento bastante emotivo da obra, com direito a uma eficiente montagem paralela mostrando algumas mudanças de ação que se encaixam perfeitamente no comportamento das personagens e não nega nada daquilo que havia sido construído na obra até aquele momento. Destaca-se também a ótima fotografia de André Szankowski, não opondo tons contrastantes para ambos os espaços culturais. Não são todos os fotógrafos que resistem a essa tentação, convenhamos. E devo dizer que essa opção de Szankowski foi mais do que certa. Afinal, A Gaiola Dourada não é um filme que quebra de relações culturais ou renúncia de um lugar ou outro. É um filme de integração, de harmonia entre pessoas e culturas.

Seguindo o caminho das melhores comédias francesas, mesmo as românticas, como A Delicadeza do Amor (2011), A Gaiola Dourada é um filme inteligente e emocionante, uma obra que arregimenta valores familiares e brinca com clichês étnicos de maneira assumida e nada preconceituosa, para contar uma história de saudade e reencontros. Filmes desse tipo já estavam fazendo falta!

A Gaiola Dourada (La Cage Dorée) – França, 2013
Direção: Ruben Alves
Roteiro: Ruben Alves, Luc-Olivier Veuve, Jean-André Yerles, Hugo Gélin
Elenco: Rita Blanco, Joaquim de Almeida, Roland Giraud, Chantal Lauby, Barbara Cabrita, Lannick Gautry, Maria Vieira, Jacqueline Corado, Jean-Pierre Martins, Alex Alves Pereira, Sergio Da Silva, Nicole Croisille, Bertrand Combe, Ludivine de Chasteney, Alexandre Ruscher
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.