Crítica | A Garota das Nove Perucas

estrelas 3,5

Uma fábula moderna que levanta o espírito. Essa seria uma definição justa de A Garota das Nove Perucas, filme germano-belga dirigido por Marc Rothemund (Uma Mulher Contra Hitler) e estrelando a bela Lisa Tomaschewsky no papel título.

Contado de maneira leve e em tom de comédia suave, o filme aborda a reação de Sophie Ritter (Tomaschewsky) – nenhum parentesco com o subscritor da presente crítica! – e de sua família e amigos com a notícia de que ela tem uma forma rara de tumor cancerígeno no pulmão. Sem muita alternativa, a menina é internada em um hospital e começa um agressivo tratamento de quimioterapia.

Com um passado de câncer na família, o primeiro momento é de desespero total. Sophie acabou de passar para a faculdade, símbolo de independência e de um futuro brilhante pela frente (ou, pelo menos, ela e sua família assim esperam). Ela acabou de passar o ano novo com sua melhor amiga, Annabel (Karoline Teska) e está com o espírito lá em cima, somente para receber a devastadora notícia que vem, sem firulas e enrolação da boca de seu médico. É um soco no estômago. Algo destruidor de verdade, especialmente considerando que a história é verdadeira.

Mas o tom mais cômico da trama – sem ser engraçado – equilibra o peso da notícia e permite que o espectador suporte com mais facilidade todo o procedimento pelo que Sophie passa. Os mais frágeis certamente sofrerão com uma certa quantidade de sequências mostrando a inserção e retirada de agulhas, mas esse enfoque, que o diretor não faz nenhum esforço para esconder, é necessário para tornar a história mais centrada na realidade. Funciona quase que como um lembrete de que, apesar de parecer, a fita não é exatamente um conto de fadas.

Logo ao começar a perder sua bela cabeleira, Sophie, então, decide raspar tudo e começar a usar diversas perucas diferentes. É aqui, porém, que o que vemos na tela começa a divergir fortemente do que a sinopse oficial indica. Nela, há a forte menção à assunção, por parte de Sophie, de diversas personalidades diferentes, cada uma delas condizente com um tipo de peruca. Mas isso não é verdade. Pelo menos não dessa maneira simplista, provavelmente escrita para facilitar o marketing do filme.

Sim, Sophie adota nomes diferentes e sim, ela passa agir de maneira condizente às personalidades que cria, mas ela nunca deixa de ser Sophie, plenamente consciente de que esse subterfúgio é uma forma efetiva de fugir de seu mundo de agulhas e dor. Marc Rothemund não tenta manobrar o espectador dando vida completa a cada uma das personalidade de Sophie. Ao contrário, ele diminui a importância desse aspecto e foca na maneira com que Sophie passa a encarar a vida.

Com um grande futuro em potencial a frente, Sophie se recusa deixar-se abater pelas circunstâncias e faz de tudo para escapar de seu destino. As perucas são um detalhe que ela usa para voltar para a faculdade, para sair em viagem com a amiga, para se divertir à noite e para namorar seu melhor amigo. Mas ela também ajuda as pessoas, fazendo amizade com um simpático enfermeiro, conversando com um senhor que passa pelo mesmo tipo de tratamento e, especialmente, criando laços com outra jovem que está em tratamento há mais tempo que ela.

A atuação de Lisa Tomaschewsky é de se tirar o chapéu. Com seus grandes olhos que ela sabe usar para manipular seu público, Lisa consegue gerar empatia automática mesmo em seus momentos mais duros. Ela transita bem entre uma jovem mulher sem freios, uma paciente arrasada e em cada micro-personalidade que ela assume. Acreditamos em sua luta e em cada mudança de comportamento naturalmente, sem precisarmos nos esforçar.

O tom de fábula, porém, é inescapável. Isso não é propriamente um defeito, mas talvez simplifique demais o processo. Sophie é uma menina que vem de uma família amável e de meios. Com isso e vivendo na Alemanha, ela tem o melhor tipo de tratamento que o dinheiro – ou o seguro social do país – pode comprar. Não existem mazelas ao redor de sua doença. Nada que amplifique sua dor. É certo que não há absolutamente nada de errado com isso, mas esses aspectos todos somados às perucas multicoloridas de Sophie emprestam um ar de leveza à fita, algo pouco comum e até inesperado considerando-se o assunto.

A Garota das Nove Perucas dá esperança a quem não tem e levantará o espírito de qualquer um que o assistir, mas como o diretor evita mergulhar de cabeça no drama, a fita tem pouco impacto e acaba passando uma lição que não combina bem com a realidade da maioria das pessoas. Mas nem todo filme sobre doenças devastadoras precisa focar no que há de pior, não é mesmo?

A Garota das Nove Perucas (Heute Bin Ich Blond, Alemanha/Bélgica – 2013)
Direção: Marc Rothemund
Roteiro: Kati Eyssen, Sophie van der Stap (história)
Elenco: Lisa Tomaschewsky, Karoline Teska, David Rott, Alice Dwyer, Peter Prager, Gerald Alexander Held, Jasmin Gerat, Daniel Zillmann, Katrin Pollitt
Duração: 115 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.