Crítica | A Garota do Pântano (1935)

estrelas 3

Tendo começado sua carreira artística no teatro, Detlef Sierck entrou para a indústria do cinema do III Reich em 1934, quando dirigiu o curta-metragem Dois Gênios (Zwei Genies). A Alemanha de então era um país com um novo governante e com um novo formato ideológico em seu processo histórico, algo que a partir de 1935 passou a afetar Sierck pessoalmente, porque ele tinha uma esposa judia e já percebia as dificuldades encontradas no país para quem era judeu ou se relacionava com judeus. Ele e a esposa acabaram partindo da Alemanha, passando um breve período na Holanda e chegando a trabalhar na França, mas migraram para os Estados Unidos – esse era o plano original –, onde Detlef Sierck adotou o nome de Douglas Sirk.

A Garota do Pântano (1935) é produto da primeira fase alemã de Sirk (que voltaria ao seu país natal após a realização de Imitação da Vida e encerraria a carreira como professor de cinema, dirigindo com um grupo de alunos o ótimo Bourbon Street Blues, curta com ninguém menos que Rainer Werner Fassbinder no elenco), um período geralmente desprezado devido à demonização ideológica do material artístico vindo da Alemanha entre 1933 e 1945 ou por comparação aos filmes que o cineasta faria nos Estados Unidos de 1943 a 1959.

Neste sexto filme de sua carreira (e terceiro longa) Sirk dá início à sua jornada no gênero melodrama, contando-nos a história de Helga (Hansi Knoteck), uma bela jovem que engravida de seu patrão na “fazenda do pântano” e é por ele rejeitada assim que a criança nasce. A cena inicial do filme mostra uma feira onde jovens servas estão dispostas para serem contratadas e, em paralelo, temos a audiência para apurar a denúncia de Helga. O desfecho da sequência estabelece a oposição entre o bem e o mal na história e dá à protagonista o ar angelical que a colocará como heroína desafortunada esperando por um amor.

O filme lembra motivos estéticos de Carl Theodor Dreyer e narrativos de Frank Borzage, alternando tomadas nas belas paisagens bucólicas e pantanosas do distrito de Osterholz, na Baixa Saxônia, onde foi filmado, e atenção especial aos detalhes físicos e psicológicos relacionados às mulheres, não importando qual lado das forças em jogo elas estejam.

Há espaço no roteiro para um bonito trabalho com cultura campesina no início do século XX (acreditar em duendes, espalhar cinzas no fogão para espantar a saudade, etc.) e para uma quebra dramática que traz à tona conflitos morais e éticos de primeira ordem.

O grande problema do filme não é necessariamente dele e sim do seu gênero. Por se tratar de um melodrama, o roteiro – que é baseado em um romance de Selma Lagerlöf –, segue um conflito de virtudes que converge para um final onde o bem é vitorioso e isso da maneira mais inocente e despreocupada possível.

Sirk mantém uma mão firme na direção e consegue uma boa interpretação do elenco, mas a finalização de A Garota do Pântano é suave e “colorida demais” para o próprio filme. Sabendo do caminho final já prescrito por seu gênero, o roteiro e a direção poderiam inserir algumas cenas que pontuassem melhor essa reta final, dando substância ao destino e ‘últimos passos’ dos personagens, não apenas empurrando-os para a felicidade, que chega quase abrupta, embora filmada de maneira calorosa pelo diretor e com uma bela fotografia, aliás, o setor técnico de destaque do filme.

Mesmo finalizado de forma menos precisa e com menor qualidade que seu desenvolvimento, A Garota do Pântano é bom filme de Douglas Sirk, com um tom dramático bem equilibrado e elementos que podemos facilmente identificar como sendo do mestre do melodrama. É ainda um documento interessante de um período do cinema alemão que muitas pessoas acreditavam ser unicamente destinado à propaganda nazista, como se houvesse homogeneidade cultural no país mesmo sob o totalitarismo de Hitler, o que está longe de ser verdade. Este filme – e toda a obra de Sirk na época em que ele ainda era Sierck – são provas vivas disso, e, melhor ainda, não são as únicas.

A Garota do Pântano (Das Mädchen Vom Moorhof) – Alemanha, 1935
Direção: 
Douglas Sirk (na época assinando como Detlef Sierck).
Roteiro: Philipp Lothar Mayring (baseado na obra de Selma Lagerlöf).
Elenco: Hansi Knoteck, Ellen Frank, Friedrich Kayßler, Theodor Loos, Kurt Fischer-Fehling, Jeanette Bethge, Eduard von Winterstein, Lina Carstens, Fritz Hoopts, Franz Stein, Erich Dunskus
Duração: 82 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.