Crítica | A Garota no Trem

estrelas 2,5

O sucesso de Garota Exemplar, tanto do livro quanto sua adaptação cinematográfica dirigida por David Fincher, naturalmente atraiu a atenção de dezenas de outros autores e produtores, gerando, é claro, inúmeros outros produtos que seguem o mesmo estilo. Uma série na HBO, comandada por Fincher e Gillian Flynn, inclusive, chegou a ser cogitada, mas foi abandonada por diferenças criativas entre o canal e o diretor. Baseado no livro de Paula Hawkins, A Garota no Trem é uma dessas obras que surfam nessa onda, nos trazendo mais uma narrativa psicológica, subjetiva, com personagens que não podem ser confiados. Ao tentar estabelecer uma identidade própria, porém, o longa-metragem acaba falhando miseravelmente.

A trama gira em torno de Rachel (Emily Blunt), uma alcoólatra que se entregara ao vício devido ao término de seu casamento. Todos os dias ela pega o trem para Nova York e, no caminho, observa uma casa específica, criando teorias sobre a vida perfeita que o casal que vive nela, Megan (Haley Bennett) e Scott (Luke Evans), deve levar. Como nada é por acaso, eles moram dois números abaixo da casa onde vivia e onde seu ex-marido, Tom (Justin Theroux), com sua atual esposa, Anna (Rebecca Ferguson), ainda moram. A obsessão de Rachel ganha novas proporções, contudo, quando ela vê Megan traindo seu marido.

A Garota no Trem começa bastante bem, com uma narração em off da protagonista, que nos oferece um olhar mais profundo sobre sua mente. Nesse momento ainda não descobrimos sobre seu alcoolismo, mas já sabemos que há algo de errado com ela, algo que a abala, o que é salientado pelo trabalho de maquiagem realizado na atriz, que ressalta suas olheiras e seus traços de expressão. Emily Blunt parece ter sido envelhecida dez anos e sua voz desanimada se encaixa perfeitamente com sua aparência desgastada pela dor. Esse fator é amplificado pela direção, que opta por utilizar planos bastante próximos aos personagens, evidenciando o foco no lado psicológico de cada um deles.

Não demora muito, porém, para o foco se alterar. O nome de Megan desnecessariamente aparece na tela e passamos a observar um pouco de sua vida, o que é seguido por um dos muitos flashbacks que parecem ansiar pela confusão do espectador. Evidente que a presença deles na narrativa visa lentamente desconstruir o grande mistério inserido no roteiro, mas o que conseguem é quebrar a nossa imersão através do clássico “x meses antes”, tirando nossa atenção do que importa. O pior é que a resolução funcionaria por si só sem esses olhares sobre o passado.

A investigação policial conduzida pela detetive Riley (Allison Janney) também não ajuda, visto que é repleta de irrealidades que tiram qualquer tensão do espectador. Em momento algum sentimos como se Rachel estivesse em perigo de ser presa. Evidente que ficamos curiosos sobre sua culpa em todo o acontecimento que define a obra, mas a proporção dessa falha no roteiro é tamanha, que chegamos a acreditar que ela transita pelo mundo sem ninguém a enxergar, somente em momentos pontuais.

Com isso, a obra faz o serviço de nos cansar ao longo de sua narrativa fragmentada e tenta, com um plot-twist, reverter essa situação. Ainda que a reviravolta nos traga um angustiante olhar sobre os relacionamentos abusivos – um problema constante de nossa sociedade, que é assustador para as pessoas “de fora” e claustrofóbico e violento (seja fisicamente ou emocionalmente) para quem efetivamente está dentro de um – não conseguimos, de fato, sermos fisgados de volta para os minutos iniciais da obra que tanto nos atraíram. Trata-se de um recurso preguiçoso, de uma trama falha, que tenta nos cativar nos momentos finais, enquanto o restante do filme não conseguiu.

A Garota no Trem até tenta ser o próximo Garota Exemplar, mas definitivamente não consegue, provando de uma vez por todas que o sucesso de uma adaptação depende de seu diretor. Com uma montagem fragmentada, repleto de desnecessários flashbacks, que nos distanciam do foco da obra, temos aqui um filme que nos perde no seu primeiro terço e aposta em um plot-twist, sem conseguir nos cativar. Havia potencial para algo maior, mas seu ritmo inconstante não consegue utilizar toda a força da trama e desperdiça um assustador olhar sobre os relacionamentos abusivos.

A Garota no Trem (The Girl on the Train) – EUA, 2016
Direção:
 Tate Taylor
Roteiro: Erin Cressida Wilson (baseado no livro de Paula Hawkins)
Elenco: Emily Blunt, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Justin Theroux, Luke Evans, Edgar Ramírez, Laura Prepon, Allison Janney
Duração: 112 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.