Crítica | A Ghost Story

A Ghost Story adentra no universo particular dos fantasmas. Primeiramente, devemos entender que a proposta da obra é, tomando como rédeas a realidade daqueles seres, justificar a existência dos mesmos; explorar, por meio de uma linguagem poética e sensível, a vida – ou a morte – de algo presumidamente eterno. O diretor, e também roteirista, David Lowery não permite se entregar à obviedade em sua construção de personagens, subvertendo diversas vezes a expectativa do público diante da história. Tal longa é, no entanto, mais do que uma simples trama baseada em uma premissa diferente. Mais do que um estudo sobre luto, sobre perda, sobre distanciamentos acarretados pelo acaso. É uma alegoria sobre o significado do ser humano; sobre a nossa existência, mortal ou imortal.

Sendo assim, a história nos aponta a seguir os rumos do fantasma de C (Casey Affleck), o qual morre após um acidente de carro, deixando a sua mulher M (Rooney Mara) desamparada, tendo que lidar com a solidão de sua ausência. A questão é que C em momento algum deixa de estar perto da mulher, permanecendo dentro do lar desenvolvido por eles, mesmo além da vida. Ela, porém, não o vê, nem o ouve, nem o sente. Por boa parte do filme, David Lowery nos levará a visualizar tanto a dor da perda da mulher, quanto a impotência do fantasma. Engana-se porém quem pensa que o filme trata sobre apenas essa questão. Ele vai muito, muito além disso.

Em primeiro plano, antes de adentrar na questão filosófica acerca do enredo da obra, devemos exaltar aspectos técnicos da produção. A começar pelos pacientes planos-sequências, ricos de conteúdo audiovisual para uns e estafante por sua natureza lenta para outros. A Ghost Story não é um filme facilmente digerido; não é uma composição parecida com os longas-metragens comuns da atualidade. A câmera não pretende deslocar-se até ser  extremamente necessário deslocar-se.

Para exemplificar, em uma destas sequências acompanhamos Rooney Mara, enquanto a personagem come por completo uma torta deixada na cozinha – ao fundo, o fantasma encontra-se estático. O espectro continua a acompanhar atentamente, rígido, enquanto a sua viúva devora o alimento, com raiva, tristeza – um misto de sentimentos que, senão possível serem expostos por meio de palavras, são absorvidos por meio da incrível atuação da atriz. Um adendo importantíssimo à cinematografia do filme, responsabilidade de Andrew Droz Palermo, que com uma razão de aspecto menor, traduz ao público o íntimo do casal, de uma forma invasiva, porém honesta. Dentro da casa, aliás, os planos exprimem um leve desconforto, aliados a própria rigidez característica do fantasma. Portanto, as cenas remetem a um filme caseiro, deveras particular daquela família precocemente destituída.

Levando a análise para o seu protagonista, o fantasma, vivido – em teoria – por Casey Affleck , recebe um visual acertadíssimo, extremamente simpático e relacionável. Afinal, partindo para a interpretação pessoal do discurso do filme, a caracterização, sem distinção da aparência mundana, resulta na possibilidade de diversas visões, todas cabíveis dentro do pensamento do espectador. A que se entende, no entanto, e trata-se de um acerto da direção e do roteiro, é de que, primeiramente, a obra não aborda essencialmente a relação entre C e M. A personagem de Rooney Mara acaba tornando-se figurante de uma narrativa que depreende-se verdadeiramente na busca de C pelo significado da persistência de sua existência.

Ademais, o próprio monólogo de Will Oldham não está no filme por acaso, surgindo impressionantemente dentro de um filme muito mais quieto do que os que costumamos assistir. Aliás, o silêncio termina exteriorizando muita tristeza; muita solidão decorrente da imensidão daquele vazio infinito. Desta forma, A Ghost Story é um perfeito estudo sobre o sentido da vida, a qual ressurge, na tentativa contínua de que o homem alcance seu objetivo, seus anseios terrenos, pré-destinados ou não. David Lowery nos presenteia como uma obra singular, de efeito ímpar, que dificilmente será esquecida, assim como dificilmente será lhe atribuída um significado verdadeiramente absoluto. Um filme que dialoga, mesmo colocando um fantasma como protagonista, de forma honesta sobre humanidade.

A Ghost Story — EUA, 2017
Direção:
David Lowery
Roteiro: David Lowery
Elenco: Casey Affleck, Rooney Mara, Will Oldham, Sonia Acevedo, Rob Zabrecky, Liz Franke, Grover Coulson, Kenneisha Thompson, Barlow Jacobs, McColm Sepha Jr, Kesha
Duração: 87 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.