Crítica | A Gigantesca Barba do Mal

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estrelas 4

Em sua primeira graphic novel, A Gigantesca Barba do Mal (2013), Stephen Collins resolveu trabalhar de uma maneira surreal e diferente algumas das coisas pelas quais já passamos ao longo da vida — e que percebemos o tempo inteiro ao nosso redor: o conformismo; a ação robótica diante do cotidiano; o medo e a ignorância como porta de entrada para o preconceito e a segregação; as políticas de extermínio de tudo o que é diferente e a ação de “lavar as mãos” tomada pelo Estado e pelas chamadas “pessoas de bem” diante de coisas que não conhecem.

O livro pode ser visto como uma fábula cheia de caminhos interpretativos possíveis, cabendo no lado corporativo, no lado psicológico, nass relações humanas mais pontuais e claro, na própria comunidade global, uma vez que o “fator barba” aqui representado pode ser qualquer coisa tabu ou que não faça parte do cotidiano de uma nação específica, gerando muitos problemas para quem se mostra diferente da massa. E convenhamos, esta não é uma situação exclusiva de alguns países. Ela pode ser encontrada em todos os lugares, dos ditos lugares mais receptivos às liberdades individuais, aos mais fechados em relação a isso, achando que possuem o direito de dizer para as pessoas o que é certo e o que é errado fazerem com suas próprias vidas, muitas vezes usando a carta religiosa para bater o martelo moral: Deus quis assim e pronto.

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Cada um tem uma “barba do mal” que jamais consegue cortar.

Dave, o protagonista desta aventura, mora na costa da Ilha de Aqui, espaço geográfico cercado pelo Mar e que em seu extremo, leva-nos ao território de Lá. Aqui é um lugar ordenado. Todos caminham muito bem asseados e barbeados; as casas são perfeitamente alinhadas e as árvores podadas; os animais imaculadamente tosados e as pessoas seguem alheias ao mundo, focadas em seus celulares, cumprindo de maneira cíclica as suas tarefas do dia: trabalhar, comer, dormir, trabalhar… Ninguém reclama da rotina. Não existem revoluções, passeatas, programas de televisão e artigos mostrando o lado horrendo dessa homogeneidade passiva, desta tradição de valores incorruptíveis que deixam todos parecidos com produtos recém saídos da fábrica. O diferente não é bem-vindo em Aqui. O diferente é o caos, é obra de Lá. Em Aqui reina a ordem, sempre foi assim, não faz nenhum sentido mudar ou questionar.

Para Dave, esse discurso e modo de vida funcionaram bem por toda a sua vida. Ele não tinha do que se queixar. Possuía um emprego que não sabia muito bem o que era, mas tudo bem. Ouvia em loop a canção Eternal Flame, do The Bangles. Comia no mesmo restaurante, a mesma comida. Desenhava as pessoas da rua para se entreter. Tudo estava em ordem. Até o dia em que o único pelo que ele tinha no corpo, aquele que jamais conseguiu arrancar de vez, pois crescia imediatamente, começou a “empelar” ainda mais, tomando todo o seu rosto e dando início a um caos social, o evento da “gigantesca barba do mal”.

Durante toda a narrativa, que é composta por uma diagramação que exige muitas pausas do leitor; estratégicas paradas para pensar em quadros de diversos tamanhos e diferentes acabamentos; para comparar desenhos, para sentir o vazio que vai, aos poucos, tomando o personagem, assim como a sua gigantesca barba toma-o por completo e vai modificando a cidade inteira. O público deve prestar atenção nas dicas que Collins deixa ao longo do caminho, começando com sua reafirmação de que certas coisas estão “debaixo da pele” e depois utilizando substantivos ou construções diferentes para indicar o “brotar” da barba. Alguns vão ver uma clara dinâmica de ID, EGO e SUPEREGO; alguns verão uma tremenda crítica à sociedade contemporânea; outros verão uma fábula sobre o preconceito ou uma história de amadurecimento. E todas essas visões estão corretas.

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Não há iniciativa externa ou disfarce algum capaz de domar uma “barba do mal”, um “sonho bagunçado”.

Apenas no final o autor abre demais a sua corrente narrativa, o que para mim atrapalhou a conclusão da história, mas nada que tire da graphic novel a força de seus significados e o quanto essa situação se adapta ao nosso dia a dia e pode ser vista como “normal” para todo aquele que tem uma gigantesca barba do mal ou pertence a um dos muitos grupos de malvadas barbas gigantescas que pululam em nossa sociedade. Pessoas que são acusadas de trazerem o mal de Lá para a ordenança de Aqui. Pessoas que quebram a tradição de Aqui. Pessoas que não seguem as leis milenares, divinas, imutáveis de Aqui e expõem sua barba do mal quando deveriam raspá-la para parecerem iguais a todo mundo. O padrão. O rosto liso, o rosto certo, o único rosto possível. Mas o que ninguém de Aqui percebe é que algumas barbas não são raspáveis. Alguns pelos não param de crescer. Ninguém é igual. E é essa diferença que nos torna humanos, não bonecos ignorantes e orgulhos com o cabresto de uma tradição de bisavós.

Por mais triste que pareça, essa história é um olhar para o diferente e para a monotonia que nos cerca e que às vezes estão tão perto de nós, que não sabemos direito como lidar com elas. Mas esta é também uma história de esperança. A esperança de que ao assumir a barba e os pelos, o povo de Aqui possa olhar para tudo isso de maneira diferente. De maneira normal. Natural. Aceitando e convivendo com a barba dos outros. Um longo caminho que só a primeira crise da barba em um “Aqui” de qualquer lugar do mundo é capaz de começar.

A Gigantesca Barba do Mal (The Gigantic Beard That Was Evil) — EUA, 2013
No Brasil: Editora Nemo, 2016
Roteiro: Stephen Collins
Arte: Stephen Collins
245 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.