Crítica | A Grande Aposta

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estrelas 4

A crise do mercado imobiliário americano de 2008 é sem dúvida um dos mais marcantes acontecimentos do século XXI, representando o maior golpe que a economia ianque sofreu desde a infame Depressão de 1929. É também um tema complexo e que reuniu muito a atenção de estudiosos, e ainda mais complexo para aqueles que não os grandes entendedores do assunto – como este que vos escreve. Felizmente, Adam McKay percebe a extrema dificuldade que é tratar com tantos jargões e termos do mercado econômico com seu A Grande Aposta, e utiliza justamente a leiguice comum a seu favor.

Inspirada em eventos reais, a trama nos apresenta aos anos anteriores à famosa Crise de 2008, utilizando de três personagens centrais que previram a quebra antes de seu acontecimento, encontrando aí uma oportunidade para lucro: Michael Burry (Christian Bale), um economista renomado, o vigarista Jared Vennet (Ryan Gosling) e o empresário Mark Baum (Steve Carell). Além disso, temos uma dupla de jovens investidores vividos por Finn Witrock e John Magaro que também entram no esquema com o auxílio do aposentado Ben Rickert (Brad Pitt).

Primeiramente, se você realmente não é um entendido forte no assunto economia, esse filme pode não ser muito divertido para você. O roteiro de McKay e Charles Randolph aposta pesado em termos, nomeações e praticamente todas as suas reviravoltas estão ligadas à eventos do mercado imobiliário; é muito fácil se perder na história. No entanto, é impossível não se envolver pela linguagem absolutamente inventiva e envolvente que o longa oferece. Ele tem ciência de que o espectador médio não está entendendo nada do que acontece, da mesma forma que Jordan Belfort interrompe sua explicação em O Lobo de Wall Street apenas para resumir que era um esquema ilegal. McKay leva esse exemplo ainda além aqui, na brilhante ideia de trazer pessoas famosas para explicar os conceitos mais complicados – um deboche, na verdade, como se a presença de figuras atraentes nos fizesse prestar atenção.

A narrativa também brinca bastante com a figura do narrador. O personagem de Ryan Gosling começa como um narrador em off, ao mesmo tempo em que quebra a quarta parede para interagir com o espectador. Mas, por exemplo, alguns personagens secundários literalmente roubam a câmera para fazer adendos, seja um estagiário chinês que revela suas verdadeiras credenciais ou apenas um simples “não falo sobre isso”. A montagem de Hank Corwin também é inteligente por oferecer uma colagem de eventos, notícias e elementos de cultura pop para simbolizar a passagem de tempo de cada período, em um verdadeiro turbilhão visual que funciona muitíssimo bem. A mixagem de som também acerta nesse quesito, como quando os milhares de cliques de mouse e batidas em teclados de computadores vão dominando a paisagem sonora, chegando ao ponto de alcançar uma musicalidade derivada da técnica de mickey mousing – a sincronização de música com imagem.

E é surpreendente como McKay, vindo de comédias como O Âncora e Quase Irmãos, revela-se habilidoso para criar um drama com certeiros toques cômicos. Sua câmera incessante adota uma estética documental, dando zoom e alternando fortemente seu foco para pequenos detalhes e nuances no rosto do elenco; em certo momento, vemos apenas a boca de Christian Bale falando ao telefone. A fotografia de Barry Ackroyd também revela um amadurecimento, optando por uma película de cores frias e um granulado forte, quase como se a produção fosse rodada nos anos 70.

Então chegamos ao elenco estelar. De cara, Christian Bale domina absolutamente cada minuto de cena, criando um Michael Burry excêntrico e quase autista, mas que indubitavelmente é um gênio. Mesmo com o corte de cabelo estranho e um olho de vidro chamativo, Bale cria uma figura palpável e crível, evidenciando suas habilidades sociais falhas ao trazê-lo de chinelo no escritório e ouvindo heavy metal altíssimo no trabalho. Steve Carell também surge excelente, já que faz um personagem claramente mais afetada por um trauma e que o esconde com excessos de raiva um tanto cômicos, mas que o ator controla para não transformar em seu Michael de The Office.

A Grande Aposta é uma comédia de humor negro que consegue transmitir uma mensagem poderosa, seja como estudo de um evento cataclísmico ou como envolvente estudo de personagem.

A Grande Aposta (The Big Short, EUA – 2015)

Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph
Elenco: Christian Bale, Steve Carrell, Ryan Gosling, Brad Pitt, Melissa Leo, Finn Wittrock, John Magaro, Marisa Tomei, Rafe Spall, Hamish Linklater
Duração: 130 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.