Crítica | A Grande Ilusão (1937)

estrelas 3,5

Jean Renoir é um dos cineastas mais importantes da história do cinema francês. Dono de uma retórica audiovisual culta, o cineasta foi responsável por registrar grandes momentos na história do nosso cinema. Num estudo complexo sobre os elementos que compõem a alma humana, A Grande Ilusão, lançado em 1937, refletia os males da Primeira Guerra Mundial e parecia antecipar o que viria nos anos 1940, a Segunda Guerra Mundial, acontecimentos históricos que sequer tinham esta nomenclatura na época.

Renoir dirige um filme sobre um grupo de soldados franceses presos em um campo de prisioneiros na Alemanha, exatamente em 1916. Através das relações que se estabelecem no local, Renoir analisa, através dos personagens, as questões inerentes aos conflitos bélicos e o que coaduna no comportamento humano oriundo desta situação.

Além da sua importância história, o filme classifica-se também como material de vanguarda, pois encontrou ressonâncias em diversos relatos narrativos posteriores, tais como Inferno nº 17, de Billy Wilder, Fugindo do Inferno, Steve McQueen e contemporâneos como A Guerra de Hart, com o astro Bruce Wills. No entanto, diferente do que se convencionou a fazer em muitos filmes do gênero, A Grande Ilusão não se atém aos explosivos e aos comportamentos históricos, preferindo analisar a psique humana diante das extremas situações, observações de um cineasta que consegue captar excelentes performances de seu elenco.

No que diz respeito ao roteiro, A Grande Ilusão não é grande coisa. Visto com base nos pressupostos da contemporaneidade, torna-se mais um filme convencional, mesmo para as possibilidades da época. Dentre os elementos audiovisuais que merecem destaque temos a fotografia, belissimamente bem concebida, bem como o trabalho com a iluminação, setores responsáveis por captar bem as ótimas escolhas cenográficas.

Temas como luta de classes, relações de amizade adornadas por saudosismo, dentre outras abordagens poéticas típicas do cineasta dão o tom ao filme. Independente das rugas alcançadas ao longo dos anos, a obra permanece em nossos registros como um clássico absoluto do cinema. Consciente do que narrava, principalmente por ter participado da Primeira Guerra como piloto de caça, o cineasta nos brinda com um filme complexo, repleto de momentos emocionantes.

A Grande Ilusão (La Grande Illusion) – França /1937.
Direção: Jean Renoir
Roteiro: Jean Renoir, Charles Spaak
Elenco: Jean Gabin, Dita Parlo, Pierre Fresnay, Eric von Stroheim, Julien Carrete, Georges Peclét, Jean Dasté, Gaston Modot.
Duração: 114 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.