Crítica | A Grande Muralha

estrelas 2,5

Um dos maiores nomes do cinema chinês, Yimou Zhang se tornou um dos diretores orientais mais conhecidos pelo público ocidental, fruto de inúmeras de suas obras terem sido indicadas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Com longa-metragens como Herói e o Clã das Adagas Voadoras em seu currículo, é difícil não ficar, ao menos, curioso em relação a seus novos filmes. A Grande Muralha é um desses, mas a curiosidade nesse caso veio a partir dos trailers e do próprio enredo da obra, que nos mostraram cenas, no mínimo, fora do comum, envolvendo monstros e a Muralha da China – é claro que, junto da expectativa, veio um grande medo de que esse seria um blockbuster comum, especialmente considerando se tratar de uma co-produção chinesa e americana.

A narrativa acompanha William (Matt Damon), um mercenário europeu que está no oriente em busca de pólvora, junto de seu amigo Tovar (Pedro Pascal), ambos visando enriquecer através desse pó negro. Em sua jornada, contudo, eles são atacados por uma misteriosa criatura e logo após se deparam com a Grande Muralha, que está sendo guardada por um exército gigantesco. Ali eles descobrem que a construção é uma linha de defesa contra uma legião de monstros, que atacam a cada sessenta anos. Sem ter muita escolha, ambos são tragados para o centro dessa guerra.

A premissa de A Grande Muralha é a mais básica possível, estamos na velha história de um exército tentando segurar o forte, algo que já cansamos de ver em obras que vão desde Os Sete Samurais até O Senhor dos Anéis. O que poderia, então, Yimou Zhang, trazer de novo para esse cenário? Para começar, o diretor sabe exatamente o foco de sua obra e não perde tempo com uma infindável introdução que precede a primeira batalha – não demora muito para sermos jogados nesse conflito entre os humanos e as criaturas verdes.

O que segue a partir daí é a demonstração clara da criatividade do roteiro, que dispensa maiores complicações no enredo em si para ousar mais na forma como combatem os monstros que atacam a muralha. Das básicas flechas ao ar até mulheres seguradas por cordas cortando esses seres nefastos, Zhang consegue imprimir toda sua identidade das sequências de ação, tornando cada uma delas diferente da outra. Em momento algum nos vemos entediados diante da tela e isso é a prova do talento do diretor, que dispensa uma quantidade excessiva de cortes a favor de mais movimentos de câmera, que acompanham a movimentação do campo de batalha, sem perder o espectador ao tornar tudo muito confuso.

O que prejudica o longa-metragem é o seu excesso de computação gráfica, garantindo altas doses de artificialidade a praticamente todas as sequências. O design das criaturas é interessante, mas se repete ao longo de toda a projeção, parecendo ser um simples copiar e colar. Por outro lado, se tratando da parte humana do filme, o CGI se sai melhor, contanto que o espectador consiga deixar passar os soldados chineses vestindo armaduras coloridas que nos fazem sentir como se estivéssemos diante de um filme dos Power Rangers. Não há como negar, porém, que essa escolha da direção de arte nos proporciona planos verdadeiramente belos, com inúmeras cores contrastando com os velhos tons de preto aos quais estamos acostumados nesse tipo de filme. Isso sem falar, é claro, nos excelentes figurinos que dão um novo ar aos filmes de fantasia medieval, fugindo do velho e surrado para o radiante.

Transmitindo um tom verdadeiramente épico à cada sequência, temos a trilha sonora de Ramin Djawadi, responsável pela música de Game of ThronesWestworld. O compositor alemão acerta em cheio ao se apoiar em melodias com tons orientais, apostando no uso maior de vozes para compor o cenário musical dessa obra. Ouso dizer que, mais que a imagem em si, ele imprime o tom de fantasia presente na narrativa.

Apesar de todos esses acertos, que se intercalam com alguns deslizes, A Grande Muralha continua se estabelecendo como uma obra completamente dispensável, que não oferece nada de verdadeiramente novo para o gênero, ainda que a direção de Yimou Zhang seja de se tirar o chapéu, sabendo tirar o máximo de seu elenco, mesmo de Matt Damon, que soa completamente desconexo ali no meio em virtude de seu sotaque americano tentando se passar por europeu, mas que cumpre seu papel. Existe whitewashing aqui? É claro, mas, ao menos, o roteiro perfeitamente justifica a presença tanto de Damon quanto de Pascal no elenco (esse, por sua vez, se enquadra melhor, contanto que não o espectador não consiga diferenciar o sotaque latino-americano do espanhol).

Por essa razão o máximo que posso dar a essa nova obra do diretor chinês são duas estrelas e meia: se trata de um filme que não acrescenta absolutamente nada, é esquecível e proporciona apenas um entretenimento descerebrado que não faz jus às produções anteriores de Yimou Zhang. Quem espera somente se divertir no cinema, é claro, não irá se arrepender de comprar os ingressos para A Grande Muralha, mas se a busca é por algo com mais conteúdo, sinto dizer que não será aqui que isso será encontrado.

A Grande Muralha (The Great Wall) — China/ EUA, 2016
Direção:
 Yimou Zhang
Roteiro: Carlo Bernard, Doug Miro, Tony Gilroy
Elenco: Matt Damon, Tian Jing, Willem Dafoe, Andy Lau, Pedro Pascal, Hanyu Zhang, Lu Han
Duração: 103 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.