Crítica | A Guerra Acabou (1966)

estrelas 5,0

A Guerra Civil espanhola foi um dos momentos mais marcantes do século XX, tendo como base a forte disputa entre fascistas e socialistas pelo país. Com várias baixas, essa guerra trouxe traumas para a Espanha que demoraram anos para serem superados. Nesse período, ficou explícito que ter um ideal podia exigir sacrifícios e, muitas vezes, para agir em nome do pensamento coletivo, era necessário abrir mão do conforto próprio, sendo difícil conciliar uma causa e os amores pessoais. É exatamente esse conflito interno que A Guerra Acabou aborda.

O filme mostra Diego (Yves Montand), um dos chefes do Partido Comunista espanhol, que retorna a Paris, na tentativa de encontrar um de seus companheiros e impedi-lo de voltar a Madri, onde poderá ser preso pela polícia franquista. Porém, ao chegar à capital parisiense, ele reencontra Marianne (Ingrid Thulin), um velho amor, e se envolve com Nadine (Geneviève Bujold), uma jovem francesa.

O título da obra remete diretamente ao plano de fundo da história, o fim da guerra civil espanhola e as resultados dela. Esse período tem por característica muitas reflexões sobre o que é “certo” e “errado”. O roteiro, escrito por Jorge Semprún, mostra essas reflexões não na situação do país, mas sim no estado atual dos envolvidos. O longa representa muito bem a opressão da época, umas vez que, aqueles que são de extrema esquerda vivem se escondendo e são constantemente parados por policiais, o que explica o cansaço de alguns personagens com a conjuntura do momento.

A obra nos apresenta à discussão do pós-guerra na Espanha através da figura do protagonista da história, Diego. Ele, que é um dos líderes do partido comunista, encontra-se dividido entre sua ideologia e a vontade de firmar raízes em algum local, o que pode ser facilmente comparado com a discussão da época, anarquistas contra conservadores. E Yves Montand dá toda a carga dramática ao protagonista, construindo um personagem visivelmente cansado de sua rotina, sempre calmo em sua fala e demonstrando receio em expressar seus sentimentos.

O roteiro também acerta em exemplificar esse confronto de ideias através do triângulo amoroso no qual Diego se envolve. Umas das mulheres com quem ele se compromete é Marianne (interpretada por Ingrid Thulin), uma mulher madura que, assim como o protagonista, mostra-se cansada com sua vida na clandestinidade, repetindo algumas vezes “isso não é vida” demonstrando ter como prioridade engravidar de seu amado e nada mais, um pensamento claramente “conservador”, e que é a personificação do que Diego deseja nesse momento. Já a outra peça desse triângulo é o oposto disso, Nadine (interpretada por Geneviève Bujold), uma jovem rebelde e anarquista. A sensualidade dela está na forma ingênua com que age e como excita-se fácil com o proibido, como, por exemplo, quando escuta do protagonista que ele é um “revolucionário profissional”. A moça é a exemplificação do lado rebelde de Diego contra o sistema, quem o incentivou a ingressar nessa vida clandestina.

A intensidade dessa relação tripla é brilhantemente conduzida pelo diretor Alain Resnais. Principalmente nas cenas de sexo, onde, enquanto o ato com Nadine é idealizado, mostrando apenas toques leves de mão sobre um fundo branco; o ato com Marianne é mais realístico e menos inventivo, sob uma paleta de cores mais apagada, o que torna a cena mais fria, contrapondo os sentimentos que ambas ressaltam em Diego — a rebeldia contra a calmaria –, o que o deixa dividido a todo momento.

Esse enredo dramático e pessimista poderia empurrar o filme rumo à monotonia e lentidão, mas o que ocorre é o contrário. A montagem intercala bem as relações e dá dinamismo ao filme. Além disso, a escolha de antecipar alguns fatos mostra-se acertada, o que torna a narrativa não linear, provocando ainda mais a mente do público.

O diretor Alain Resnais, que dirigiu clássicos como Hiroshima, Meu Amor e O Ano Passado em Marienbad, constrói em A Guerra Acabou não apenas um grande drama, com um triângulo amoroso que destaca os conflitos de seu protagonista, mas também uma história que mostra o cansaço e prejuízos causados em um povo por uma guerra civil.

A Guerra Acabou (Le Guerre Est Finie)- França, Suécia, 1966
Direção:
Alain Resnais
Roteiro: Jorge Semprún
Elenco: Yves Montand, Ingrid Thulin, Geneviève Bujold, Jean Dasté, Dominique Rozan, Jean-François Rémi, Marie Mergey, Jacques Wallet e Michell Piccoli
Duração: 121 min.

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.