Crítica | A Guerra das Armaduras (Tie-In de Guerras Secretas – 2015)

estrelas 2

Obs: Leia a crítica da saga aqui e dos demais tie-ins aqui.

Em Guerras Secretas, saga de 2015, o Doutor Destino – agora Deus Destino – recriou o mundo ou, como agora é conhecido, Mundo Bélico, a seu bel-prazer, dividindo-o em baronatos, cada um refletindo de alguma forma um evento ou uma saga passada da Marvel Comics. Com isso, a editora, que, durante o evento, cancelou suas edições regulares, trabalhou como minisséries – algumas mais auto-contidas que as outras – que davam novo enfoque à situação anterior já conhecida dos leitores, efetivamente criando uma saga formada de mini-sagas, com resultado bastante satisfatório, muitas vezes até superior do que as nove edições que formam o coração de Guerra Secretas.

guerras_secretas_a_guerra_das_armaduras_capa_plano_criticoNo caso de A Guerra das Armaduras, o evento original não foi exatamente uma saga, mas sim um arco de sete números na publicação Homem de Ferro, entre os número #225 e #231, publicados de dezembro de 1987 a 1988. Lá, os acontecimentos em si ganham o nome geral de Guerras Stark, mas acabaram sendo conhecidos e republicados como Guerra das Armaduras, e lida com a descoberta, por Tony Stark, que os planos de suas armaduras foram roubados. Ele parte, então, com a ajuda de Scott Lang, para descobrir o culpado e, no processo, enfrenta todos os inimigos “armadurados” que têm, além de se desentender com a S.H.I.E.L.D. e com os Vingadores.

Como o arco, apesar de conhecido, nunca foi particularmente bom ou característico por essa ou aquela razão, o que vemos na minissérie parte de Guerras Secretas é, única e exclusivamente, a apropriação do nome do evento oitentista (e a presença do Arraia em ambos, se você for detalhista…), o que resulta na criação de uma história completamente nova. Nela, vemos o baronato de Tecnópolis comandado, claro, pelo barão Tony Stark, em que todos os habitantes precisam usar armaduras fornecidas substancialmente por sua empresa ou a de seu irmão e rival Arno Stark em razão de um vírus assassino que só a tecnologia impede que mate seu hospedeiro. O resultado: uma sucessão de personagens Marvel vestidos com armaduras diferentes, em um desfile que parece ser o maior objetivo da minissérie. Afinal, vemos o Homem-Aranha (aqui, ele é Peter Urich, filho de Ben Urich, o jornalista), Pepper Potts, o Rei do Crime, Homem de Titânio, Thor-Máquina de Combate (Jim Rhodes), o já mencionado Arraia e assim por diante em uma sucessão de “o que aconteceria se… todo mundo usasse armaduras”.

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A narrativa parte de um mistério, o assassinato do Homem-Aranha, que acabara de descobrir um segredo terrível, por alguém misterioso. Tanto o segredo quando o(a) assassino(a) são absurdamente fáceis de se deduzir, o que em si não seria particularmente ruim se seu desenvolvimento fosse satisfatório. Infelizmente, porém, A Guerra das Armaduras é uma colagem de situações pseudo-interessantes que não levam a lugar algum. O Homem de Ferro de 2020 – Arno Stark – está de certa forma de volta, mas com uma versão stealth (leia-se preta) de sua icônica (e feia) armadura original e Tony Stark usa uma versão muito pouco inspirada de sua própria armadura. Os demais personagens, notadamente as geninhas Kiri Oshiro e Lila Rhodes, que desenvolvem tecnologia que Arno quer roubar e que Tony quer comprar, estão ali perdidas apesar de sua importância em tese na narrativa. É que o roteiro de James Robinson parece embebido em doses cavalares de auto-indulgência, parecendo muito mais importante e sério do que é na verdade. O tratamento quase infantil que ele dá ao segredo que o Aranha descobriu e o desenvolvimento dolorosamente expositivo sobre a rivalidade entre Tony e Arno e as razões pelas quais o primeiro tolera o segundo (já que, sendo barão, Tony poderia invocar o exército de Thors de Deus-Destino e simplesmente aniquilar a oposição) cansam o leitor que só tem, então, as dezenas de novas armaduras para observar.

E, mesmo nesse quesito, a minissérie não tem melhor sorte, pois a arte de Marcio Takara, acompanhada das cores muito escuras e lúgubres de Esther Sanz, esconde muito mais do que mostra suas recriações de personagens clássicos. Além disso, como ele evita o uso de splash pages, o que temos são apenas lampejos do que poderia ser e não um desenvolvimento visual realmente interessante, com exceção, talvez, da armadura do próprio Homem-Aranha que, porém, só aparece, por razões óbvias, por poucas páginas. Se a intenção era fazer uma espécie de tokusatsu marveliano, então que a pancadaria de armaduras fosse liberada completamente e não soterrada debaixo de um roteiro pseudo-misterioso que não consegue atrair atenção para seus personagens. Takara tem traços que poderiam fazer o equivalente a Círculo de Fogo em quadrinhos – como prova a imagem que capeia a presente crítica, criando um belo “efeito de vitral” ao embate entre Tony e Arno -, mas o que vemos é algo tímido, mal pensado e soterrado debaixo de bravados-clichê dos personagens, mortes vazias, flashbacks narrados (o meio é eminentemente visual, Sr. Robinson!) e uma completa ausência de tensão.

A Guerras das Armaduras, por se completamente livre das amarras do evento original, poderia ter ousado bem mais do que as demais minisséries tie-ins de Guerras Secretas. Curiosamente, no entanto, o resultado é justamente o oposto, com uma história presa a narrativas enroladas que não empolgam e não desabrocham como poderiam. Uma oportunidade desperdiçada.

A Guerra das Armaduras (Armor Wars, EUA – 2015)
Contendo: A Guerra das Armaduras (2015) #1 a #5
Roteiro: James Robinson
Arte: Marcio Takara
Cores: Esther Sanz
Letras: Travis Lanham
Editora original: Marvel Comics
Datas originais de publicação: agosto a novembro de 2015
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de 2016 (encadernado – Guerras Secretas: Os Vingadores #1)
Páginas: 116

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.