Crítica | A Guerra dos Mundos (1953)

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estrelas 4

Publicado pela primeira vez como livro em 1898 – após ter sido escrita em forma serializada em 1897 -, Guerra dos Mundos foi uma das primeiras obras a retratar a invasão da Terra por uma força alienígena. Tida atualmente como uma das mais importantes produções dentro da ficção científica, o livro de H.G. Wells ganhou inúmeras adaptações ao longo dos anos, devo aqui destacar a narração, transmitida por rádio, de Orson Welles em 1938 que fez muitos acreditarem que nosso planeta estava, de fato, sendo invadido. Já no cinema, o romance tardou mais alguns anos, e ganhou sua primeira versão em 1953, dirigida por Byron Haskin, sob o nome de A Guerra dos Mundos.

Trabalhando em cima do roteiro de Barré Lyndon, Haskin introduz uma narrativa bastante simples que ganha uma maior complexidade mais pelos efeitos empregados que pelo texto em si. A projeção rapidamente resgata o material original ao introduzir uma narração em off logo em sua sequência de abertura. Pela voz de Cedric Hardwicke somos introduzidos a um plano de dominação pelos marcianos, que, após esgotarem as capacidades de seu planeta, buscam outro local para proliferarem sua avançada raça. Seus olhos, naturalmente, se viram para a Terra, onde as condições climáticas parecem ideais para sua sobrevivência, mas, antes de lá se estabelecerem, precisam eliminar os humanos que ali habitam. Com esse prólogo finalizado nos aproximamos de nosso planeta, onde um estranho meteoro atinge o solo. Rapidamente olhos curiosos são fisgados e uma multidão cerca o local, ignorantes do que está por vir. Dentre esses está o Dr. Clayton Forrester (Gene Barry), um renomado cientista que assume o papel de protagonista, tendo de lutar por sua sobrevivência enquanto busca, ao lado de outros, uma solução para a possível futura extinção da humanidade.

É curioso, especialmente comparando com a mais recente adaptação por Steven Spielberg, como o roteiro de Barré Lyndon sabe trabalhar com as expectativas do espectador. Não temos uma trama megalomaníaca que coloca no centro um homem que passa por situações impossíveis para sobreviver. Ao invés disso, o texto mantém um forte suspense dos minutos iniciais até o encerramento. Em ponto algum sabemos todas as capacidades dessa raça alienígena, ao passo que sua tecnologia é exibida com parcimônia, não estragando a surpresa de uma só vez. Evidentemente a estratégia utilizada se apoia fortemente no trabalho de efeitos especiais, a grande maioria deles práticos (obviamente, considerando o ano de produção), que nos convencem até hoje, criando uma forte tensão na audiência. A exceção vai para os raios de desmaterialização, que soam datados, mas nada que atrapalhe fortemente nossa imersão.

A lenta movimentação das naves alienígenas garante a elas uma notável imponência e, embora o esquema de cores utilizado pareça espalhafatoso, ele não consegue tirar a força dessa ameaçadora presença. Nós realmente acreditamos que as espaçonaves estão pairando sobre a superfície do planeta. O design das criaturas em si, sabiamente mostradas pontualmente ao longo da projeção, se encaixa perfeitamente com a proposta tecnológica apresentada. Nesse aspecto, a fotografia sabe muito bem o que mostrar e o que ocultar, empregando planos abertos para transmitir todo o terror das máquinas mortíferas marcianas.

Infelizmente o roteiro conta com alguns furos, o maior deles é a rápida e infundada conclusão da humanidade que se tratam de marcianos do outro lado do campo de batalha. Em ponto algum da trama evidencias são apresentadas para que tal afirmação seja feita. Existem, porém, algumas citações que fazem uma interessante menção ao Inimigo, que naturalmente se referem à União Soviética. A Guerra Fria, porém, não chega a ser abordada a fundo pelo roteiro, ao invés disso ele opta por um cunho mais religioso, que, embora soe forçado em determinados pontos da narrativa, introduz uma coesa ligação com o encerramento do longa, deixando pairar sobre o ar a presença de um milagre salvador da raça humana.

Embora seja consideravelmente diferente de seu material original, A Guerra dos Mundos é uma marcante entrada dentro do gênero da ficção científica, um filme que merece ser visto tanto pela sua importância histórica, quanto pela forma como consegue nos prender através de sua narrativa coesa. Conta, sim, com seus deslizes, mas nada que não possa ser perdoado, principalmente levando em conta seus muitos êxitos. H.G. Wells ficaria orgulhoso.

A Guerra dos Mundos (The War of the Worlds – EUA, 1953)
Direção:
 Byron Haskin
Roteiro: Barré Lyndon (baseado no livro de H.G. Wells)
Elenco: Gene Barry, Ann Robinson, Les Tremayne, Robert Cornthwaite, Sandro Giglio, Lewis Martin, Houseley Stevenson Jr.
Duração: 85 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.