Crítica | A História de Adèle H.

estrelas 4

Em suas histórias de amores destrutivos, Truffaut sempre procurava elencar elementos humanos, artísticos e narrativos bem diferentes, realizando um diálogo com as artes, destacando a pintura e a literatura e mostrando a cada nova obra do gênero as muitas formas do coração quebrantar a alma de uma pessoa.

De Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (1962) em diante, Truffaut sempre procurou roteiros que mostrassem, além da felicidade que o amor pode proporcionar, o lado frio e parcialmente decepcionante desse sentimento, trazendo à tona a não-correspondência de sentimentos, os encontros e desencontros, os caprichos da vida interferindo nas questões amorosas e a tragédia seguida de uma devoção quase neurótica, que é o caso do brilhante O Quarto Verde (1978), filme que fecha esse ciclo de trabalhos sobre as vicissitudes do amor, muito embora o tema apareça, mesmo que com abordagem menos intensa nos 4 filmes que o diretor ainda dirigiria.

Em A História de Adèle H. (1975), o amor não correspondido vira objeto de perseguição, neurose e loucura, uma quase via crucis percorrida pela protagonista Adèle H. (a estonteante Isabelle Adjani, em uma interpretação de tirar o fôlego), filha do escritor Victor Hugo, que se apaixona por um oficial britânico e o persegue até o outro lado do Atlântico, buscando no rapaz um amor que não mais existia nele. Incapaz de entender e aceitar essa realidade, Adèle usa de artifícios moralmente questionáveis (em pé de igualdade com as atitudes do pretendido Albert Pinson) e, ao falhar, vê seu corpo e sua mente se entregarem ao desespero.

O roteiro do filme é então desenvolvido em uma crescente intensificação da loura de Adèle. O espectador fica ainda mais preso à história porque sabe que se tratam de fatos reais, registrados pela própria Adèle Hugo em seu diário ao longo dos anos. A adaptação de Truffaut centra-se completamente na personagem, destacando a entrega máxima de Isabelle Adjani ao papel e suprindo uma necessidade orçamentária que o filme possuía mas que o espectador não sente. As poucas sequências fora do universo de Adèle bastam para contextualizar os ambientes geográficos onde a trama se passa (Halifax e Barbados) e apresentar satisfatoriamente o elenco de apoio.

Truffaut e o fotógrafo Néstor Almendros transformam o longa em uma experiência bem próxima às artes plásticas, especialmente os takes em que Adjani está enquadrada em planos de contexto. É como se víssemos quadros realistas ganharem vida e se tornarem cada vez mais intensos em suas mensagens à medida que o filme avança. Amparado pelos excelentes figurinos de Jacqueline Guyot (em seu último trabalho no cinema) e uma excelente equipe de maquiagem e cabelo, Truffaut dirigiu uma das mais interessantes reconstruções históricas (com uma abordagem intimista e claustrofóbica) de regiões colonizadas na América, além de narrar uma tocante histórica de vida.

Dos pontos menos interessantes da obra podemos citar o impacto negativo e chateante que a postura de Adèle causa no público, embora essa pareça ter sido a intenção do diretor; a montagem que constantemente altera a sua identidade, sendo antiquada e puramente narrativa no início e depois alternando maneiras de destacar os símbolos e delinear o sentido geral da história; e o desfecho, que passa de um interessante contexto memorial para o ressaltar de uma personalidade que já havia sido satisfatoriamente explorada.

A despeito de suas pequenas lombadas, A História de Adèle H. se coloca facilmente na lista de filmes interessantes e tocantes de Truffaut, além de ser uma obra seminal de Isabelle Adjani, à época com 19 anos, com formação teatral e poucos e pequenos trabalhos no cinema até então. Se só tivesse a atriz interpretando Adèle H., o filme já valeria a pena. Mas além dela, temos Truffaut, o que significa um prato cheio para se comer com os olhos – possivelmente marejados a partir de certo ponto da história.

A História de Adèle H. (L’histoire d’Adèle H.) – França, 1975
Direção:
François Truffaut
Roteiro: François Truffaut, Jean Gruault, Suzanne Schiffman, Frances Vernor Guille (baseado nos diários de Adèle Hugo).
Elenco: Isabelle Adjani, Bruce Robinson, Sylvia Marriott, Joseph Blatchley, Ivry Gitlis, Louise Bourdet, Cecil De Sausmarez, Ruben Dorey
Duração: 96 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.