Crítica | A Hora do Amor (1971)

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Primeira produção de Ingmar Bergman em língua inglesa e primeira aparição de um ator não escandinavo (Elliott Gould) no time de protagonistas de um longa-metragem do diretor, A Hora do Amor (1971) foi um dos poucos filmes que o Mestre sueco declarava estar bastante insatisfeito com o resultado final. À época do lançamento, a crítica corrente foi bastante negativa. A obra recebeu vaias em muitos Festivais e mesmo com uma famosa entrevista de defesa, dada por Bibi Andersson — cuja defesa consistia na composição temática e trabalho de atores e, nesse sentido, ela realmente estava correta, porque os atores estão todos muito bem, o problema é o roteiro que eles interpretam –, a posição do público diante do filme foi majoritariamente negativa. E com total razão.

Inicialmente, o filme se chamaria Karin. É documentado no diário de trabalho do diretor que ele finalizou o roteiro em 5 de julho de 1970 e que começaria a filmá-lo em meados de setembro, indo até meados de novembro do mesmo ano. A intenção inicial era que a obra tivesse comercialização bilíngue, em inglês e sueco, mas devido às exigências do braço americano da produção, foram feitas duas filmagens. A versão em que falam majoritariamente em inglês (há apenas alguns poucos diálogos em sueco entre Bibi Andersson e Max von Sydow) foi a que sobreviveu no mercado, para desgosto ainda maior do diretor.

O roteiro aborda questões caras à filmografia do cineasta, destacando uma personagem feminina, como ele mesmo definiu, “comum“. A obra traz um arqueólogo americano, vivido por Elliott Gould, que vem participar de uma escavação na Suécia. Ali, se apaixona por Karin (Bibi Andersson), esposa do médico da pequena cidade (Max von Sydow). Os dois começam um caso e, ao mesmo tempo, afloram as suas incertezas, perturbações e comportamentos dos mais intragáveis, principalmente por parte de Davis, o arqueólogo. No cerne de toda essa tempestade, Karin se vê perdida, em sua extrema dificuldade de tomar decisões — algo que o roteiro delineia em diferentes momentos –, não sabendo se quer ser livre para correr atrás de um novo amor ou permanecer em seu estável casamento, que ela não despreza de todo.

Diferente de obras recentes de Bergman, àquela época, como Persona (1966), Vergonha (1968) e A Paixão de Ana (1969) o retrato feminino em A Hora do Amor parece não servir a propósito algum, especialmente à mulher em cena. A postura absolutamente condenável de David, um vampiro social que guia uma relação abusiva em relação a Karin, se torna o primeiro grande problema, porque é algo que não recebe real motivo de existência ou desenvolvimento no roteiro. Por sua vez, a mulher não dá indícios psicológicos (como é comum na obra do diretor) e não está cercada de elementos coadjuvantes para justificar o por quê de aceitar tudo aquilo como um cordeiro indo para o matadouro. Nem ao final do filme, quando supostamente assume o comando de sua vida e toma uma decisão realmente impactante, o texto dá a ela a genuína oportunidade de fazê-lo, novamente destacando a postura dominadora, machista e sociopata de David, travestida de “amor voraz e devoto”, diante da qual Karin abaixa a cabeça e silencia.

Ao longo da fita, aparecem dúvidas e furos em relação à presença dos filhos do casal Karin-Andreas; inconstâncias em relação ao tempo diegético sobre o bloco inicial do caso de amor (a montagem aqui é sofrível); falta de explicação coerente sobre motivações e relações extras para os dois amantes e, principalmente, o status final de Karin em relação à família e a si mesma, coisas que ficam soltas, abertas de uma maneira displicente, sem o tipo de abertura que normalmente temos nos filmes de Bergman, onde a não-resposta recebeu todo o aparato dramático para existir, explorado ao longo da fita. Aqui, isso não existe. Os personagens sofrem, mas quase não se desenvolvem; os diálogos são os piores que eu já vi, vindos de Bergman, e nem mesmo alguns planos e sequências bem inspiradas do fotógrafo Sven Nykvist conseguem salvar a fita. Apesar da temática forte, relacionável, de alguns poucos bons momentos e das discussões genericamente levantadas, A Hora do Amor é um dos piores filmes de um dos maiores diretores do cinema.

A Hora do Amor (Beröringen / The Touch) — Suécia, EUA, 1971
Direção: Ingmar Bergman
Roteiro: Ingmar Bergman
Elenco: Elliott Gould, Bibi Andersson, Max von Sydow, Sheila Reid, Elsa Ebbesen, Margaretha Byström, Dennis Gotobed, Karin Gry, Staffan Hallerstam, Barbro Hiort af Ornäs, Åke Lindström, Ann-Christin Lobråten, Maria Nolgård, Erik Nyhlén, Bengt Ottekil, Alan Simon, Per Sjöstrand, Aino Taube
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.