Crítica | A Hora do Lobisomem / Bala de Prata

estrelas 3

Mais um filme amaldiçoado pela praga do “A Hora do” nos anos 80 por aqui, A Hora do Lobisomem acabou conhecido, graças à TV, também pela tradução direta de seu título original, Bala de Prata. Baseado em romance curto e ilustrado de Stephen King e com roteiro do próprio autor, assim como fizera em Creepshow e Olhos de Gato, pode-se dizer que a obra de estreia de Daniel Attias na direção e que abriria caminho para que ele tivesse uma prolífica carreira quase exclusiva na televisão, é um pequeno clássico B oitentista que, como afirma Roger Ebert em sua crítica, funciona melhor se encararmos como algo com uma pegada intencionalmente cômica, uma paródia por assim dizer.

Como praticamente tudo que King escreve, a história se passa no Maine, desta vez na cidadezinha fictícia de Tarker’s Mills. A localização em si não é importante, mas a caracterização do local é, quase que como um microcosmo do interior dos EUA, com personagens que são, se pararmos para estudar, caricaturas claramente propositais: os “habitantes” do bar local, quartel-general de praticamente todos os adultos, com direito ao valentão local que quer fazer justiça com as próprias mãos, o xerife bonzinho (aliás, vivido por um quase irreconhecível Terry O’Quinn, o John Locke, de Lost), as crianças que vivem nesse pequeno paraíso rural em uma estranha harmonia que só é quebrada pela relação de amor e ódio que Jane Coslaw (Megan Follows) tem com seu irmão paraplégico Marty (Corey Haim, dois anos antes de Os Garotos Perdidos) que usa uma cadeira de rodas motorizada batizada de Bala de Prata, cortesia de seu tio alcoólatra e três vezes divorciado Red (Gary Busey).

A estrutura familiar interiorana clássica é logo quebrada pelas inexplicáveis mortes violentas de algumas pessoas em noites de lua cheia. O que começa com uma morte atribuída à bebida, vai aos poucos se aproximando do círculo pessoal de Marty, culminando com a morte de seu melhor amigo. A fita não economiza na violência estilizada, mantendo o lobisomem oculto pelo maior tempo possível. O medo toma a cidade, mas só o jovem acredita na possibilidade do sobrenatural.

O roteiro, porém, mantém as duas linhas narrativas separadas por dois terços do filme, com Mary vivendo sua vida de um lado e as mortes acontecendo de outro. O ponto de convergência só vem acontecer logo depois que Red o presenteia com uma nova e turbinadíssima versão do Bala de Prata: uma cadeira de rodas chopper. Sem dúvida que faltou a King a habilidade de reunir as histórias antes, evitando que essencialmente assistamos a dois episódios separados e não um filme coeso só. É interessante notar como todas mortes violentas e toda a reação da cidadezinha acontece exclusivamente no “primeiro episódio”, enquanto que o “segundo” é dedicado a Mary e seu plano para dar cabo do licantropo, com a ajuda de Jane e Red.

Essa natureza episódica de A Hora do Lobisomem, todavia, não afasta completamente o espectador. As atuações de Haim e de Follows como irmãos convencem e trazem um belo charme à história, com Busey ajudando com sua veia canastrona, mas sempre divertida. As mortes violentas prendem a atenção nos primeiros 2/3 e, no terço final, o confrontamento da pessoa que é o lobisomem e Marty funciona bem quase como uma fábula. O que realmente causa estranhamento é a montagem de Daniel Loewenthal (um especialista em filmes B oitentistas como Braddock – O Super Comando e Allan Quatermain e a Cidade do Ouro Perdido), pois ela não consegue passar corretamente a impressão de passagem de tempo. Se não prestarmos a atenção em detalhes e usarmos o senso comum, parece que toda a ação se passa em apenas um ciclo lunar, ao passo que, na verdade, temos algo protraído no tempo ao longo de um ano, de forma semelhante ao romance de King.

Com o orçamento baixo (sete milhões de dólares), a direção de Attias compreensivelmente usa os mais variados artifícios para não mostrar a criatura, especialmente a batida neblina que gera um dos melhores e mais sanguinolentos momentos da obra. Quando o monstro é finalmente mostrado – com direito a duas transformações com efeitos práticos e óticos – o trabalho do mestre Carlo Rambaldi (E.T., Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Duna dentre vários outros) não faz feio se considerarmos as restrições financeiras e a época em que o filme foi feito.

A Hora do Lobisomem ainda é, depois desse tempo todo, um filme de terror “família” quase cômico que prende a atenção e passa seu recado. Mesmo com efeitos datados e contando duas histórias em uma, é um prazer revisitar esses tempos mais simples em que tudo podia ser resolvido com uma bala de prata.

A Hora do Lobisomem / Bala de Prata (Silver Bullet, EUA/Holanda – 1985)
Direção: Daniel Attias
Roteiro: Stephen King (baseado no romance A Hora do Lobisomem, de Stephen King)
Elenco: Gary Busey, Everett McGill, Corey Haim, Megan Follows, Robin Groves, Leon Russom, Terry O’Quinn, Bill Smitrovich, Joe Wright, Kent Broadhurst, Heather Simmons, James A. Baffico, Rebecca Fleming, Lawrence Tierney
Duração: 95 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.