Crítica | A.I. – Inteligência Artificial

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estrelas 4

Um dos fatos mais curiosos sobre A.I. – Inteligência Artificial nem está tanto no filme em si, mas na expectativa e reação do público e da crítica sobre o primeiro trabalho de Steven Spielberg nos anos 2000. Todos sabiam que o diretor Stanley Kubrick estava desenvolvendo o projeto sobre o filme desde 1969, porém acreditava que a tecnologia ainda não estaria avançada o suficiente para que a obra chegasse às telas da maneira desejada por Kubrick. Com sua súbita morte no ano de 1999, a tarefa de levar o projeto adiante ficou à cargo de Spielberg, que havia levado o prêmio de melhor direção por seu filme anterior, O Resgate do Soldado Ryan.

Grandes expectativas se cercaram sobre o filme, especialmente após toda a comoção sobre a morte de Kubrick. O resultado foi inesperado: o filme foi um fracasso de público, e uma considerável parcela da crítica malhou o filme. A principal discussão é: estaria o real problema no próprio filme ou nas expectativas nutridas pelo público antes de seu lançamento?

Obviamente, a resposta para tal questão dependerá da visão de cada espectador sobre o filme, mas para este que vos escreve, A.I. – Inteligência Artificial pode ser facilmente definido em uma palavra: incompreendido. Como Kubrick já vinha trabalhando há anos no projeto, muitos foram ao cinema tendo em mente um filme ao estilo do falecido diretor, ou seja, o que se esperava era uma experiência mais cerebral e sombria, tal qual a maioria dos filmes de Kubrick. Mas vindo de alguém como Spielberg, o filme se tornou uma fábula de ar complexo, completamente mergulhada em sua própria fantasia, e obviamente, extremamente emocional. Visto pelo filme que é, A.I. é uma fábula científica singular.

Num futuro onde o efeito estufa derreteu as calotas polares e deixou as cidades debaixo d’água, a humanidade agora obedece um rígido controle de natalidade a fim de evitar a super população na Terra. A tecnologia se encontra extremamente avançada, e em meio a esta evolução, o professor Hobby (William Hurt) apresenta a proposta de criar um robô com a capacidade de amar e sonhar. Assim sendo, o casal Monica (Frances O’Connor) e Henry (Sean Robards) aceita fazer parte da experiência de levar um destes robôs para casa, uma vez que Monica sente-se solitária devido ao congelamento de seu filho, vítima de uma rara doença ainda sem cura. O casal estabelece um laço familiar com o robô batizado de David (Haley Joel Osment), mas a situação tomará novos rumos com o despertar de Martin (Jake Thomas), filho do casal.

Comentar mais sobre a sinopse de Inteligência Artificial seria impedir que o espectador, por si só, possa compreender os objetivos de Spielberg com seu filme. O fato é que, gostando ou não, será difícil passar indiferente à obra. De maneira explicita (porém jamais didática), Spielberg traz diversas discussões cientificas e filosóficas sobre nosso futuro, tendo como principal ponto a convivência e interação entre seres humanos e robôs. Pode soar como algo fantasioso em demasia para o espectador desavisado, mas Spielberg expande o tema e aborda as consequências éticas, filosóficas e cientificas da situação. E no fim, e não surpreendentemente em se tratando de um filme de Spielberg, Inteligência Artificial é também uma ode ao amor e a convivência familiar.

Com três atos muito bem divididos e apresentados (embora o clímax tenha gerado duras reclamações devido a sua extensão aparentemente desnecessária), Spielberg guia sua narrativa com pulso firme, dando vida a um ritmo que casa perfeitamente com o objetivo do diretor em se aprofundar em seus personagens. O roteiro de Ian Watson e Brian Aldiss é bastante funcional em as abordagens do enredo, concedendo espaço suficiente para que cada tema seja aprofundado com perícia por Spielberg.

Além de sua direção sóbria e coerente, Inteligência Artificial também é uma das experiências visuais mais ricas desde o início dos anos 2000 até aqui. Sem exageros, o trabalho técnico é de uma elegância invejável e fascinante de se ver, dominadas com extremo profissionalismo pelo diretor. Os efeitos visuais são absurdamente realistas, e pouquíssimas vezes podemos noatr o uso de computação gráfica, o que ajuda a manter a sobriedade da história. A direção de arte oscila entre o luxuoso e o degradante, algo que é ressaltado pela fotografia que oscila perfeitamente bem entre tons alegres e sombrios. E o compositor John Williams, constante parceiro de Spielberg, se mostra deveras contido e acentua seus arranjos nos momentos apropriados, sem soa forçado em demasia.

Ao final, o espectador é obrigado a entender que A.I. – Inteligência Artificial é um filme de Spielberg, não de Kubrick. Assim como muitos, não nego que o filme teria alcançado proporções maiores nas mãos do falecido cineasta que trouxe ao mundo obras-primas como 2001: Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica. Mas as lentes de Spielberg não são menos ambiciosas ou desafiadoras, e para aqueles que compreenderem o verdadeiro espírito da coisa, o filme poderá ser uma experiência extremamente rica, seja em técnica ou conteúdo.

A.I. – Inteligência Artificial (Artificial Intelligente, EUA, 2001)
Roteiro: Brian Aldiss e Ian Watson
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Haley Joel Osment, Jude Law, William Hurt, Clark Gregg, Sam Robards, Frances O’Connor, Meryl Streep
Duração: 146 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.