Crítica | A Idade do Ouro

Com Um Cão Andaluz, Luis Buñuel e Salvador Dalí foram recebidos de braços abertos no mundo muito particular dos surrealistas. Capturando a atenção do investidor e entusiasta do movimento Visconde de Noailles, que tinha como hábito presentear a esposa com um filme por ano (fantástico, não?), a dupla conseguiu dinheiro para sua próxima empreitada: A Idade do Ouro.

No entanto, os então amigos começaram a se desentender com o roteiro. As sequencias que surgiram de um acordo entre eles, trancados em um quarto para escolher tudo aquilo que não poderia ser explicado para formarUm Cão Andaluz, não fluíram sem rusgas na segunda vez. E, para piorar, Dalí apaixonou-se por Gala Éluard, mulher que Buñuel detestava, o que os levou à separação final, que nunca mais seria remendada. Apesar de tudo, o nome de Dalí continuou nos créditos da versão final do filme.

A Idade do Ouro é a continuação espiritual de Um Cão Andaluz. A mesma estrutura de sequencias aparentemente sem explicações é vista na tela, começando com trechos de um filme tipo National Geographic sobre os hábitos dos escorpiões. Dentre os vários hábitos curiosos que descobrimos, aprendemos que a cauda dos bichos é dividida em cinco segmentos e o que se segue nos próximos 60 minutos são cinco segmentos dessa “cauda” unidos tematicamente por críticas à religião e à burguesia.

E vocês repararão que usei a expressão “tematicamente”, pois, com 60 minutos de duração, seria próximo do impossível ou enfadonho demais reunir imagens inexplicáveis uma atrás da outra. A coesão mínima de uma narrativa foi meio que forçada pela duração. Afinal de contas, mesmo Um Cão Andaluz, com apenas 16 minutos, já nos permite divagar sobre o significado do que está na tela, mesmo que o objetivo dos roteiristas tenha sido outro.

Assim, vemos bispos pendurados em um desfiladeiro na praia transformando-se em esqueletos, campesinos aleijados usando armas como muletas e uma longa sequência de uma festa burguesa em que vemos um casal tentando consumar seu amor, mas sendo constantemente interrompido por diversas distrações, durante as quais acabamos aprendendo muito sobre eles e o que vemos não é agradável e sim extremamente crítico.

Tudo converge para a já icônica cena em que a mulher, lânguida de desejo, literalmente faz sexo oral com o dedão de uma estátua de mármore e com o último segmento, inspirado na obra 120 Dias de Sodoma, do Marquês de Sade. Antecedendo esse segmento, vemos inter-títulos explicando que, em um remoto castelo, homens e mulheres participam de uma orgia depravada por 120 dias. E então, emergindo da porta do castelo vemos o Duque de Blangis e, surpresa supresa, ele é a cara de Jesus Cristo!

Não é de se espantar que a reação ao filme não tenha sido das melhores fora do círculo dos surrealistas. Tamanha foi a indignação dos extremistas que cinemas foram sabotados e o filme foi levado de volta para análise dos órgãos de censura na França e ele foi banido. O próprio Visconde de Noailles recolheu as cópias e as manteve sob seu poder, sem distribuí-las por 40 anos.

Mas A Idade do Ouro sobreviveu em circuitos limitados a museus como o Museu de Arte Moderna em Nova Iorque e em exibições privadas aqui e ali, até que, na década de 70, alcançou, novamente e para sempre, o circuito comercial e nós, agora, podemos nos deliciar com as bizarrices de um dos maiores diretores que já viveu.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.