Crítica | A Igualdade é Branca

BLANC

estrelas 5,0

Um ano após o lançamento do badalado A Liberdade é Azul, o segundo capítulo da Trilogia das Cores chegou aos cinemas mundiais, arrebatando os cinéfilos, o campo da crítica e os demais intelectuais que viram na produção uma abrangente e abissal reflexão do continente europeu contemporâneo. A cor novamente surge como elemento estético, mas desta vez com um discurso político mais arrojado que o “azulado” drama anterior. Desta vez, será através de elementos tragicômicos que a narrativa será conduzida.

No enredo, Karol Karol (Zbigniew Zamachowski, extremamente competente e bem dirigido) é um imigrante polaco que vive em Paris e vê os seus dias de felicidade diluídos ao adentrar no tortuoso processo de divórcio com a sua imatura esposa Dominique (Julie Delpy, excelente). Mesmo sentindo-se humilhado, haja vista que diante da mulher, a sensação que lhe toma é a impotência, Karol Karol continua a amando. Sem sorte e infeliz, vaga pela cidade, dorme no metrô, até que conhece outro polaco, que reconhece a sua nacionalidade. Deste encontro vai surgir uma belíssima amizade, e, desta forma, um fio condutor narrativo excepcional.

Ao voltar para o seu país de origem, o marido humilhado muda de posição social. Assim, planeja uma vingança contra a esposa, revertendo a situação. Em nenhum momento há uma menção verbal ao desabamento do regime comunista, mas os signos que permeiam o roteiro reiteram a questão. A língua, por sinal, é utilizada como instrumento de poder e dominação. No tribunal, no momento do divórcio, Karol pergunta “onde está a igualdade”, afinal, não consegue desenvolver a sua argumentação porque não domina o idioma. É nessa cena, inclusive, que este filme parece colar as narrativas deste feixe, pois Julie (Juliette Binoche), personagem do primeiro filme, aparece brevemente.

Mais uma vez, a trilogia aborda uma espécie de denúncia: questiona de forma silenciosa o sonho europeu da unificação através da ressignificação dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Em A Igualdade é Branca, o processo de transição do socialismo para o capitalismo é o ponto de virada na vida do polaco. O país, recém-saído do bloco soviético, proporcionou-lhe uma mudança. Assim como no filme anterior, A Liberdade é Azul, o diretor apresenta uma reflexão micro que deságua num panorama macro. É a situação externa que permite ao personagem a ascensão social. A cena da chegada de Karol ao salão de beleza do irmão, todo adornado de luzes neon, é uma das alegorias deste desenvolvimento.

No que tange aos aspectos narrativos, é o filme com mais elipses. A trilha sonora é onipresente, além do óbvio tratamento estético e psicológico do branco. A cena final, adornada por uma fotografia quase “estourada”, representa o renascimento dos personagens diante de tantas metáforas: a nova estrutura sociopolítica, a amizade entre os polacos iniciada no metrô de Paris (com uma cena envolvendo uma bala de festim de arrepiar), bem como as vidas de Karol e da sua esposa vingada.

Lançado nos cinemas europeus em 26 de janeiro de 1994, A Igualdade é Branca é um dos mais emocionantes filmes da sua geração. Uma produção que comprova a qualidade do cinema além dos efeitos especiais. A produção recebeu o Urso de Prata em Berlim e foi indicada ao Urso de Ouro, não passou por outras premiações mais badaladas do circuito industrial, mas habita a memória cultural coletiva contemporânea, provavelmente, como um filme tocante e profundamente paradoxal, assim como a obra do diretor, que terminou a trilogia em A Fraternidade é Vermelha, lançado em 1995, e, concomitantemente, a sua carreira, afinal, como apontado, “consegui com o último filme o que queria na posição de cineasta”. Sobre a questão, convido-lhes para o fechamento deste circuito, a ser realizado no próximo texto.

A Igualdade é Branca (Trois Couleurs: Blanc, França- Polônia – Suíça – 1994)
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiewicz, Agnieszka Holland, Edward Zevrowski, Edward Klosinski, Marcin Latallo
Elenco: Zbigniew Zamachowski ,Julie Delpy, Michel Lisowski, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr, Jerzy Nowak, Aleksander Bardini, Cezary Harosimowicz
Duração: 91 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.