Crítica | A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson

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estrelas 5,0

O escocês Robert Louis Balfour Stevenson, cinco anos antes de escrever O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Sr. Hyde ou, como também conhecido por aqui, O Médico e o Monstro, inspirou-se em histórias de piratas para construir uma aventura que objetivava, primordialmente, ser contada a seu enteado, Lloyd Osbourne. Publicada originalmente sob pseudônimo (Capitão George North) e com o título A Ilha do Tesouro, ou o Motim do Hispaniola, na revista infantil Young Folks, entre 1881 e 1882, a obra foi seu primeiro sucesso literário, sendo publicada em formato de livro em 1883 e, desde então, tornando-se leitura obrigatória para jovens e adultos.

E, de fato, A Ilha do Tesouro merece todos os elogios. Se olharmos para trás, veremos que a figura do pirata que se estabeleceu no imaginário popular foi criada por Stevenson. Os amotinados bêbados com rum, perna de pau e cantando em voz alta

Quinze homens sobre o baú do defunto –
Io-ho-ho – e uma garrafa de rum!

com um papagaio falastrão no ombro e sedentos pelo tesouro marcado por um “X” em um mapa são, hoje, os clichês do gênero, ainda que tenham passado por releituras que dão voltas e mais voltas e acabam mais ou menos no ponto de partida aqui descrito.

Contado em primeira pessoa a partir do ponto de vista do jovem Jim Hawkins em forma de diário (com exceção de três capítulos, que alterna para a visão do Dr. Livesey), a história é a clássica aventura de amadurecimento de um garoto que deixa o conforto de seu lar – a estalagem Almirante Benbow – depois que seu pai morre e ele descobre um mapa  no baú do Capitão Billy Bones, um ex-pirata bêbado que vivia em um dos quartos até sua morte prematura, e parte para uma aventura primeiro à bordo do navio Hispaniola e, depois, na Ilha do Esqueleto (ou Ilha do Tesouro) onde os “X” (sim, mais de um) marcam a fortuna escondida pelo lendário Capitão Flint. Desde o início mostrando-se muito esperto, Hawkins é o arquetípico jovem desbravador e corajoso cujas ações são vitais para o desenvolvimento da narrativa, seja por sem querer ouvir os planos de motim dos piratas inadvertidamente contratados como parte da tripulação, seja por aventurar-se sozinho pela ilha.

Enquanto Hawkins é a versão perfeita do garoto aventureiro, Long John Silver, o cozinheiro do navio, é a quintessência do pirata que mencionei mais acima. Esperto, egoísta, capaz de trair a tudo e a todos, mas com um lado fraco por Hawkins, talvez por ver-se quando mais jovem no menino, ele é o grande personagem da obra. Dono de uma habilidade ímpar com a palavra, capaz de convencer todos de qualquer coisa que quiser, Silver, que fora imediato do Capitão Flint, é, de certa forma, visto com uma reverência temerosa por Hawkins que reconhece sua natureza traiçoeira, mas também suas qualidades que incluem um controle absoluto da muleta que usa no lugar de sua perna perdida anos atrás e sua lábia destruidora, além de um verniz inegável de coragem e uma certa – ainda que extremamente duvidosa – moralidade. Se Hawkins é o protagonista e com quem mais facilmente nos identificamos, é por Silver que torcemos secretamente.

E é desenvolvendo personagens como Silver que Stevenson realmente faz sua obra sobressair-se. O autor que, motivos de saúde, mudou-se de sua frígida terra natal para lugares mais quentes, baseou muito de seu trabalho anterior em suas desventuras e não foi diferente aqui. Silver é uma espécie de amálgama de pessoas que ele efetivamente conheceu durante suas viagens de navio com toda a lenda de piratas violentos e selvagens que não muito tempo antes singravam os mares com ou sem autorização da Coroa Britânica. Ainda que A Ilha do Tesouro trate cada ação de maneira quase maniqueísta, sem que haja espaço para interpretações “acinzentadas”, Silver reúne características dos dois polos. Ele é admirado por Hawkins por sua experiência, astúcia e inteligência, ao mesmo tempo que ele é odiado pelo menino por sua natureza escorregadia e pérfida. O contraste entre Silver e os demais personagens – Capitão Smollett, Dr. Livesey e Sr. Trelawney, de um lado e o Cego Pew, Job Anderson e Israel Hands, de outro – torna essa constatação evidente. Não há espaço para dúvidas em relação a nenhum dos demais, que mantém linhas morais inamovíveis por todo o tempo e são, até certo ponto, desinteressantes e servem muito mais para preencher espaços vazios e dar o caráter épico da aventura do que para efetivamente serem trabalhados com arcos narrativos mais complexos do que o básico.

E a razão para isso já deixei claro quando mencionei que A Ilha do Tesouro foi concebido para ser uma história infanto-juvenil para o enteado de Stevenson. Sim, é uma história para crianças ou adolescentes, mas, com trocadilho, ela é também um tesouro muito mais valioso do que uma enorme percentagem das obras atuais para o mesmo público-alvo. O autor, para começar, não economiza no linguajar náutico, sendo comum que edições mais recentes da obra contenham até um glossário para facilitar o entendimento. Mesmo considerando a época em que foi feito, o conhecimento demonstrado no livro exige mais do que uma criança da época – que não vivesse em um navio, claro – efetivamente conhecesse, o que já, logo de início, retira o leitor de sua zona de conforto e atiça sua curiosidade para compreender exatamente o que são “trincanizes”, “serviolas”, “tricórnios”, “embornais” e “bimbarras”. Nada de vocabulário emburrecedor simplificado, portanto e fico feliz em constatar que, apesar de ter relido a obra no original, conferi a versão em português disponível e constante da ficha técnica abaixo e notei que o tradutor – ainda bem! – não usou sinônimos modernos das palavras originais e de certa forma antiquadas mantendo intacto o espírito da época.

Além disso, Stevenson não tenta esconder a realidade das crianças. Mesmo com a obra sendo voltada para eles, há violência, sangue e ações moralmente duvidosas também por parte de Hawkins. Crescer significa absorver responsabilidade na mesma medida em que significa enfrentar o mundo como ele é. Abordar assuntos como contos de fada sanitizados é manter a criança em uma bolha de segurança irreal. Por outro lado, essa realidade nua e crua é sempre contextualizada e jamais gratuita. As mortes existem e elas são sentidas por Hawkins, seja de seu lado, seja do lado dos vilões. Vemos o menino tornar-me um homem a cada novo capítulo, a cada nova reviravolta e tudo parece muito natural e lógico dentro da estrutura estabelecida.

Ler e reler A Ilha do Tesouro é, por si só, um prazer inenarrável. E passar as aventuras de Jim Hawkins para as novas gerações é obrigação de todos nós. Afinal, piratas com perna de pau e papagaio no ombro são absolutamente irresistíveis.

A Ilha do Tesouro (Treasure Island – Reino Unido, 1881/2)
Autor: Robert Louis Stevenson
Editora original: Cassell and Company (primeira versão encadernada, de 1883)
Editora no Brasil: L&PM Pocket (uma das versões nacionais disponíveis à data da presente crítica)
Tradutor: William Lagos (versão da L&PM Pocket)
Páginas: 250

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.