Crítica | A Ilha Negra

estrelas 2

Müller é um Rastapopoulos mais empenhado. Müller é enérgico enquanto o outro é mole, adiposo. Müller é um homem vigoroso, com muita iniciativa. Aliás, em Carvão no Porão ele lançar-se-á pessoalmente na aventura com os árabes sob o nome de Mull Pacha, tal como o verídico oficial britânico que operava na Jordânia com o nome de Glubb Pacha. Sabe, eu tive mais tarde de redesenhar inteiramente A Ilha Negra a pedido do editor inglês, que detectara na versão original uma extensa série de pormenores “britanicamente não conformes”. Bob de Moor deslocou-se à Grã-Bretanha e trouxe de lá uma montanha de esboços muito úteis para refazer o álbum, fotografias e outros documentos, graças aos quais a nova A Ilha Negra passou a estar, creio, inteiramente adequada ao espírito inglês. Hergé

Escrito um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial, A Ilha Negra é um dos álbuns mais fracos desta fase final dos anos 1930 para Hergé, período onde ele já demonstrava um claro amadurecimento artístico, tanto nos desenhos quanto nos roteiros de suas histórias. Se compararmos este aos seus dois ou três álbuns anteriores, perceberemos que o roteiro de A Ilha Negra está aquém do que se podia esperar, e mostra uma trama perdida e atropelada em seu desenvolvimento, ou pelo menos sem a substância intrigante que pontuou, por exemplo, histórias maravilhosas como Os Charutos do Faraó e O Lótus Azul.

O álbum foi lançado em preto e branco no ano de 1938, e sua versão colorida, cinco anos depois. Um fato interessante, porém, ocorreu quando da publicação do álbum na Inglaterra, em 1966. Os editores de Hergé na Terra da Rainha não gostaram muito do modo como o país fora abordado na história e sugeriram uma mudança considerável nos desenhos. Aparentemente, Hergé passava a imagem do Reino Unido como uma região atrasada, cheia de aldeias com pubs frequentados por pescadores bonachões e hospitaleiros, além de paisagens belas e desertas. Desse modo, foi preciso uma reedição completa do álbum, que cobrou de Hergé uma recriação das paisagens e de um ponto ou outro do roteiro. Consta que esta é a única história das Aventuras de Tintim que possui três versões diferentes.

A história de A Ilha Negra acompanha a longa caçada de Tintim a um grupo de falsificadores de dinheiro, cuja sede principal ficava na tal Ilha Negra, um local situado ao norte de Kiltoch, uma pequena (e fictícia) vila escocesa.

O longo caminho percorrido pelo repórter do Le Petit Vingtième até o chefe da quadrilha, um certo Dr. Müller (ou J.W. Müller, como o conheceríamos nos anos seguintes), vilão que é de fato um médico e possui uma “casa de repouso” onde trata pessoas desequilibradas, local para onde tenta enviar Tintim. Essa profissão no entanto, é a máscara para as atividades criminosas do doutor, que envolve falsificação, sequestro, roubos e assassinatos. É em torno dele que funciona a rede de falsificação de dinheiro na Ilha Negra, um local isolado e habitado por uma “besta”, como diziam os habitantes de Kiltoch.

O início da história apresenta o primeiro contato de Tintim com os mercenários do Dr. Müller. O ritmo apresentado não foge do que tínhamos visto nos álbuns anteriores, embora o cenário inicial e a ação direta e perigosa – Tintim é baleado já na primeira página – seja uma novidade interessante. Até as primeiras buscas, não temos problemas narrativos incômodos. Tudo funciona a contento, inclusive a arte, que desde O Ídolo Roubadomarca, ao lado da diagramação de páginas, um novo e delicioso momento visual de Hergé. As histórias ganharam maiores sequências de ações, o que podemos identificar no aumento de quadros por página.

Em A Ilha Negra, os grandes quadros possuem uma arte bastante expositiva do cenário em questão, como é possível ver no quadro que disponibilizei acima. Tanto a qualidade do desenho quanto a ocorrência frequente deste tipo de diagramação não era comum nos primeiros álbuns de Hergé, por isso identificamos aqui uma mudança conceitual em sua concepção estética e de  narrativa visual.

Mas a pedra no sapato deste álbum (ou sequência de tirinhas juntas em um álbum, como alguns gostam de chamar) está mesmo no roteiro, principalmente a partir do meio da caçada aos falsificadores. Além de ações impossíveis – Hergé não queria fazer Tintim com superpoderes, mas tem coisas aqui que só nessas condições poríamos explicar! –, as subtramas são forçadas, postas como empecilhos mecânicos no meio de uma história que tinha um desenvolvimento bom até esse ponto.

Na reta final, o absurdo do acavalamento de eventos e a sua qualidade contestável impressionam de maneira negativa o leitor, que já tinha se acostumado com um Hergé mais orgânico e cuidadoso com seus enredos. De todo modo, A Ilha Negra não chega a ser um álbum horrendo. Mas certamente está longe de figurar dentre os melhores já concebidos por Hergé.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.