Crítica | A Incrível História de Adaline

ageofadalinepc

estrelas 2,5

O argumento de uma produção artística é a sua razão de ser. Com um filme, não é diferente.

Ao término de A Incrível História de Adaline, dentre vários problemas se destaca um recorrente no cinema atual: a premissa ambiciosa, cheia de promessas, mas que falha em seu desenvolvimento, no apuro de nuances envolvendo a proposta. Como dito, porém, esse é apenas um dos problemas da produção.

Já conhecido pelos melodramas Corações Instáveis e Celeste e Jesse para Sempre, o diretor Lee Toland Krieger se aventura de novo no gênero, mas agora flertando com a ficção científica  – e não consegue mesmo ir além do flerte -, dessa vez para falar da tal Adaline Bowman (Blake Lively), que nasceu na virada do século XX. Quando moça, já com uma filha e viúva, sofre um acidente de carro, morre congelada e volta à vida graças a uma descarga elétrica. Provavelmente, a inventividade mais mirabolante e absurda do cinema para o grande público – competindo com os jogos de cintura sem sentido algum dos chamados Slasher Movies para que seus assassinos sempre voltem à vida -, que busca justificar a incapacidade de Adaline envelhecer a partir de então. Não satisfeito, o longa ainda busca esboçar uma explicação para o tal fenômeno em termos científicos, por meio de um narrador, apesar da justificativa em si não ser de modo algum relevante à história – mais valia ter criado um mistério acerca de um acontecimento tão improvável. Assim, Adaline chega ao tempo presente aparentando menos de trinta anos, buscando não manter laços com ninguém para proteger sua filha, que então aparenta ser vó da protagonista,  e sua própria identidade. Até que, adivinhe, conhece o filantropo Ellis Jones, com direito a esbarrão, a um amor moderno à primeira vista e à piadinha pastelão para conquistar a amada.

Repare, contudo, que melodrama não é sinônimo de filme ruim, de modo algum. O grande problema é a superficialidade com a qual o drama romântico constrói a sua narrativa no seguinte sentido: não é o romance de Adaline uma extensão do seu drama de imortalidade, mas a imortalidade vira uma extensão do seu drama amoroso. Ao contrário do que vemos em O Curioso Caso de Benjamin Button, por exemplo, no qual o rejuvenescer representa a inexorável aproximação do fim da vida tanto quanto no envelhecer, a prisão de Adaline à sua juventude se converte no mero opositor de um romance, oposição essa que poderia ser facilmente substituída por outra sem, a princípio, grande prejuízo para o valor da história. Já no começo da fita, encontramos Adaline no tempo presente e muito pouco ficamos sabendo de sua trajetória em tantos anos de vida ao longo da trama. Apesar do conhecimento acumulado por ela e da noção de perda timidamente abordada, em momento algum se pode captar, de fato, sua velhice interior, nenhum elemento sequer estimula a crença de que Adaline realmente tem mais de cem anos feitos – somente a atuação ponderada de Lively não é o bastante -, também o extremo oposto do que se observa em histórias como a daquele que nasce velho para morrer criança.

Destaque para a presença de câmera de Harrison Ford, que com certeza compõe o personagem mais intenso do melodrama e em muito contribui para a considerável melhora de ritmo do filme no princípio do último ato. Também é no último ato do longa que a trilha de Rob Simonsen, com seus violinos, mais se destaca, e parte da ambientação de um dos flashbacks de Adaline ao som de Bob Dylan, com a faixa Simple Twist of Fate, é um ponto chave. Méritos aparte, cheio de coincidências impressionantes e com um final que só não parece de conto de fadas por não haver fada madrinha e pela insistência em se colocar a ciência no meio da história, resulta em mais uma produção que não passa de uma falsa promessa.

A Incrível História de Adaline (The Age of Adaline – EUA, 2015)
Diretor: Lee Toland Krieger
Roteiro: J. Mills Goodloe, Salvador Paskowitz
Elenco: Blake Lively, Michiel Huisman, Harrison Ford, Ellen Burstyn, Kathy Baker, Amanda Crew, Lynda Boyd, Hugh Ross, Richard Harmon, Fulvio Cecere
Duração: 112 min

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.