Crítica | A Intrometida

estrelas 4

De acordo com as narrativas cinematográficas, principalmente uma grande fatia da produção hollywoodiana, as mães são personagens indesejáveis, chatas, âncoras que prendem a sua prole ao passado, em suma, personagens intrometidas que atrapalham o caminho dos seus filhos rumo aos prazeres da vida adulta e independente. Essa impressão do espectador não faz parte apenas de A Intrometida, comédia dramática escrita e dirigida por Lorene Scafaria, mas de um amplo feixe de produtos audiovisuais, tendo também a ficção seriada televisiva como outro espaço em que ecoam as vozes destas mulheres aparentemente dispensáveis.

Em Sex and The City, Will & Grace, Damages e Friends, por exemplo, a presença da família, em especial, a visita da mãe é encarada como algo vergonhoso, pesaroso, desastroso e incômodo. Será apenas uma convenção narrativa ou parte de uma faceta da realidade? Nos anos 1990, o historiador Marc Ferro publicou um artigo em que afirmava ser o cinema uma contra-análise da sociedade. Sendo assim, acredito ser possível pensar neste conflito como uma ressonância da realidade, haja vista a frequência com que esta questão gravita em torno da indústria cultural.

Em A Intrometida, Marnie Minervini (Susan Sarandon) é uma mãe bastante preocupada com Lori (Rose Byrne). Elas lidam com a perda recente de Joe, marido/pai, uma figura bastante simbólica na vida de ambas. Enquanto Marnie vive os seus dias tentando superar o luto, Lori encara tudo com muita amargura, pois além da perda paterna, precisa lidar com o término de seu relacionamento amoroso. Nesta travessia, mãe e filha distanciam-se, aprendem lições valorosas, para mais adiante (especialmente Lori), perceber que dependem muito do amor que nutrem uma pela outra.

Enquanto Lori se afasta para equilibrar o humor e aliviar a dor das perdas recentes, Marnie preocupa-se em distribuir bondade. Torna-se a benfeitora de um rapaz que trabalha como atendente em uma loja de celulares, adentra no circuito de amigas da sua filha, colhe aprendizados e distribui ensinamentos, abre o coração para um possível amor e ainda atua como voluntária em um hospital. Para o espectador mais exigente e realista, tudo parece muito cheio de bondade, mas como estamos em constante estado de alerta e desiludidos com as mazelas que a mídia constantemente trata de nos informar, tais comportamentos soam menos utópicos. Dá para sair do cinema aliviado e esperançoso, afinal, esperamos isso de uma comédia dramática deste quilate.

No percurso do filme os elementos da dramaturgia estão dissolvidos em um roteiro sem o engessamento proposto pelos dramas que seguem à risca a cartilha de Syd Field. No que diz respeito aos personagens, a roteirista não pesou a mão. Apresentou com leveza o tema sério, sem cair na banalidade comum às comédias contemporâneas que apostam em discursos escatológicos e desfechos lacrimejantes demais.

Susan Sarandon é a responsável por tornar o filme tão especial. A eterna “Louise” entrega um desempenho cheio de brilhantismo e carisma.  A forma como a personagem encara a vida que promete muita solidão num futuro próximo é carregada de humor, sem o choro fácil e os possíveis excessos de um roteiro banal. Os diálogos, inteligentes e bem desenvolvidos, levam a narrativa adiante, tornando um dos melhores elementos do filme. Rose Byrne também não faz feio. Em seu currículo, a jovem atriz constantemente já foi colocada para atuar diante de veteranas, saindo-se sempre muito bem. Para confirmar a afirmação, basta lembrar-se do duelo de atuações em com Glenn Close em Damages, drama judicial televisivo que permaneceu vigente por cinco temporadas.

No que tange aos demais aspectos estruturais, a comédia dramática é equilibrada, possui ótima trilha sonora e trabalha bem o papel criador da câmera. Com montagem eficiente e direção de arte cuidadosa, o filme entrega muito mais do que o prometido o seu trailer e cartaz. A Intrometida vai além do riso pelo histrionismo, tocando em cordas sensíveis da contemporaneidade, tais como a união afetiva por casais homossexuais e a adoção, ajudando-nos a refletir sobre os nossos conceitos sobre família.

Numa época em que celebridades gastam milhões na construção de pequenas mansões em seus jardins, tendo em mira abrigar os seus cães de estimação, tal como Paris Hilton, o mito da futilidade contemporânea, a “intrometida” do filme usa o dinheiro que tem para realizar ações mais significativas. Lembrando, caro leitor, que o discurso aqui não pretende defender causas cristãs ou evocar sentimentos típicos de um drama vitoriano ao estilo Charles Dickens, mas clamar por ações mais representativas dentro de uma conjuntura histórica e social que clama por mudança e bom senso.

E como último ângulo a iluminar, cabe repensar os questionamentos sobre a constante presença da mãe como instrumento de inquietação. O cinema, neste caso, parece radiografar esta questão problemática que insiste em aparecer como material de base não apenas para dramas e comédias, mas para filmes de ação, suspense, terror, etc. Já assistiu ao ótimo Que Horas Ela Volta? E ao recente Mãe Só Há Uma, da mesma cineasta? Emocionou-se com Julieta, de Pedro Almodóvar? Antes de assisti-lo, revisitou Tudo Sobre Minha Mãe?

Procure saber o que há em comum nestas narrativas. Logo depois, compare com A Intrometida. Desta forma, você encontrará respostas bastante satisfatórias, tendo a vantagem de passear por cinematografias de países culturalmente distintos, e assim, ainda terá a chance de perceber que a presença das “mães”, para o bem ou para o mal, é algo que engendra o discurso cinematográfico há tempos e provavelmente continuará a promover muitas tramas no cinema, na literatura, na televisão e na “vida real”.

A Intrometida (The Meddler) – EUA, 2015
Direção: Lorene Scafaria
Roteiro: Lorane Scafaria
Elenco: Susan Sarandon, Rose Byrne, Cecily Strong, Jason Ritter, J. K. Simmons, Lucy Punch, Sarah Baker, Casey Wilson
Duração: 104 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.