Crítica | A Invenção de Hugo Cabret

Uma nave espacial aterriza no olho direito da lua: tal imagem é a mais marcante do delicioso Viagem à Lua (1902), filme clássico de Georges Méliès, um dos caras mais importantes para a formação do cinema e um dos fundadores da ficção científica e das narrativas fantásticas. Esse curta de começo do século XX, produzido no engatinhar da sétima arte, é recuperado e homenageado por Martin Scorsese no seu A Invenção de Hugo Cabret (2011), história que emociona os aficionados pelos primeiros e brilhantes ensaios de se estabelecer uma linguagem cinematográfica, num jogo de tentativa e erro marcado por tocantes e inesquecíveis acertos.

Hugo (Asa Butterfield) é um menino órfão que mora numa atribulada estação ferroviária de Paris em princípios dos anos 30. Seu pai (Jude Law), morto graças a um incêndio no museu em que trabalhava, ensinou-lhe a manipulação de máquinas e o fez se apaixonar pelos intrincados mecanismos dos equipamentos tecnológicos. Eis que certo dia ele encontra no depósito do museu um autômato abandonado, levando-o para casa e tentando, juntamente ao filho, consertar o misterioso robô. O filme dá bastante destaque para o maquinismo da sociedade moderna, representando os complexos relógios, o trem a vapor, as bugigangas metálicas de Papa Georges (Ben Kingsley) e, como descobrirá o público, o cinematógrafo, novidade técnica finissecular que, no raiar do século XX, vira verdadeira febre e vai se estabelecendo como nova arte.

O garoto se encontra abandonado à própria sorte e tentando sempre fugir do maldoso inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), que procura caçar órfãos zanzando nos corredores do local e enviá-los a orfanatos. Após a morte de seu pai, Hugo passa a trabalhar com o beberrão do tio, que, no entanto, habilita o menino no conserto e manutenção dos relógios. Graças a isso, ele vai sempre deixando em ordem os horários da estação. Através dos vidros do gigantesco relógio que fica no topo de uma torre do lugar, Hugo consegue ver fragmentos da vida de trabalhadores e transeuntes, numa posição de voyeur que, aliás, é bastante próxima àquela dos espectadores na sala de cinema. Ele acompanha os pequenos dramas individuais, notando a solidão de uma vendedora de flores, o affair entre dois velhinhos e a obscura loja de Georges, onde é possível também perceber, às vezes, o vislumbre de Isabelle, menina apaixonada por literatura.

As vidas de Hugo Cabret e Georges Méliès se tocam quando o primeiro tenta roubar do estabelecimento do segundo peças para reformar o autômato. O senhor toma de Hugo um caderno que contém detalhadas instruções sobre o funcionamento da máquina, sentindo-se inexplicavelmente abalado ao vê-las, chegando à ameaça de queimar as anotações. A criança tenta recuperar o objeto de todo jeito, pois este é uma lembrança de seu pai e pode ajudar a fazer com que o robô funcione novamente. Aliado a Isabelle (Chloë Grace Moretz), louca para viver na prática as aventuras que ela até então só pôde conhecer nos livros, ele vai desbravando aos poucos os enigmas que cercam Georges, descobrindo que o taciturno trabalhador de uma estação de trem no centro urbano da França é, na verdade, um dos maiores gênios da história do cinema, que foi, injustamente, esquecido e posto de lado. O passo inicial para essas descobertas quase detetivescas é o sucesso na restauração do autômato, que desenha a imagem da lua com que comecei essa crítica.

O filme de Martin Scorsese encontra seus melhores momentos quando entra em cena o debate sobre o nascimento da sétima arte e as entusiasmantes sequências metalinguísticas. A Invenção de Hugo Cabret baseou-se em livro de Brian Selznick, parente do conhecido produtor David O. Selznick, chefão das obras hollywoodianas na era clássica. Apesar de o enredo original não ser de autoria de Scorsese, pode-se ver que o longa é um projeto que tem tudo a ver com esse diretor, conhecido por sua incondicional cinefilia (bem descrita no essencial Viagem Pessoal pelo Cinema Americano, livro de autoria do cineasta e que acabou virando documentário) e por seu trabalho na restauração de películas. Hugo… é, portanto, um filme de homenagem ao cinema mas também, e antes de tudo, um sinal de alerta para a necessidade de preservação das fitas antigas, histórica e esteticamente valorosas, de modo que elas não caiam no limbo. Já ouvi depoimentos de vários professores universitários que percebem, em alguns dos novos alunos, um certo desapreço às obras antigas; deve-se lutar fortemente contra esse desinteresse, ele é uma tragédia que pode significar o esquecimento de artefatos relevantes a até geniais. Por isso, o esforço de preservação encabeçado por Scorsese e outros é inestimável: os verdadeiros amantes do cinema agradecem.

Papa Georges e Mama Jeanne (Helen McCrory), sua mulher que chegou a atuar nos filmes do esquecido diretor, se sentem profundamente magoados pelo ostracismo de que são vítimas. A Primeira Guerra Mundial e o mau trato com as películas fizeram com que um artista de sucesso estrondoso acabasse sendo ignorado pelas novas gerações. Mas nem todos deixam de lado esse passado glorioso… Quando Hugo e Isabelle vão para a biblioteca pesquisar a vida do padrinho da menina, eles encontram René Tabard (Michael Stuhlbarg), estudioso do cinema que, quando criança, conheceu Georges Méliès e após isso passou a acompanhar a trajetória do diretor, assistindo a todos os seus filmes. O crítico achava que Méliès fora morto na Grande Guerra, e é tomado de surpresa quando descobre que seu ídolo continua vivo.

A partir do momento em que Tabard entra em cena, suas explicações a respeito da história do cinema e da carreira de Georges apresentam aos personagens e aos espectadores cenas de vários filmes do grande cineasta francês. Vemos inclusive uma tentativa de reconstrução de como seriam os bastidores das produções daqueles primeiros curtas, numa tentativa de Scorsese (um tanto real, um tanto ficcionalizada) de imaginar a postura do diretor, as dificuldades técnicas, os modos dos atores e a criação de efeitos especiais. É impressionante como até os dias de hoje aquelas produções, embora tecnologicamente incipientes e desprovidas dos infinitos recursos de que dispomos atualmente, continuam sendo interessantes e atraentes.

Aliás, o filme não recupera apenas os feitos de Méliès. A Invenção de Hugo Cabret é um verdadeiro desfile de clássicos cinematográficos, dedicando momentos a trechos de A chegada do trem na estação e A Saída dos Operários da Fábrica (ambos de autoria dos irmãos Lumière), O Garoto (Charles Chaplin), O Grande Roubo do Trem (Edwin Porter), Intolerância (Griffith), A General (Buster Keaton), O Gabinete do Doutor Caligari (Robert Wiene) e muitos, muitos outros. Se algum dos leitores estiver adentrando agora na seara da cinefilia, considero que a lista de filmes contemplados por Hugo… é ótimo começo, que ilumina bastante coisa do que já foi produzido de essencial.

O mais interessante é que alguns dos excertos apresentados estabelecem uma relação orgânica com o enredo do longa. Por exemplo, o filme de Buster Keaton tem tudo a ver com a ambientação onde vive Hugo, e numa cena de sonho do garoto vemos o trem saindo dos trilhos e atingindo pessoas que andavam na estação, numa espécie de realização do conhecido temor (provavelmente mais anedótico do que real) atribuído aos primeiros espectadores de A Chegada do Trem na Estação, de que a locomotiva quebraria a quarta parede e ultrapassaria a tela. Outro caso em que isso acontece se dá quando Hugo foge do inspetor e se pendura nas setas do relógio, situação que retoma uma sequência que Hugo e Isabelle haviam visto na telona, numa retrospectiva de cinema mudo.

Do mesmo modo, a fita está recheada de comentários sobre a própria linguagem cinematográfica: veja-se que, em si, o gesto de Scorsese de filmar a feitura dos filmes de Méliès já aponta para as diferenças entre o começo do século XX e o ultratecnológico século XXI; nesse sentido, cabe lembrar que esse longa de 2011 usa, e de modo muito competente, a técnica do 3D, inconcebível para os artistas de passado tão remoto. No que diz respeito à discussão metalinguística, outra cena me chama a atenção: quando as crianças vão explicar a Jeanne suas descobertas sobre a carreira de Georges, Isabelle, afeita à literatura, começa uma fala cheia de circunlóquios e detalhamentos longos; já Hugo, acostumado ao cinema, pura e simplesmente mostra uma imagem, o desenho feito pelo autômato, cuja força expressiva aclara sinteticamente toda a situação. Eis a força do cinema: dizer muito com pouco, esclarecer pelo poder não verbal das imagens.

Para além de toda a discussão sobre o nascimento e o desenvolvimento da sétima arte, o filme de Scorsese é muito habilidoso no que concerne à realização estética. Ele venceu, com merecimento, os prêmios de melhores efeitos visuais e melhor direção de arte, no Oscar de 2012. Recria-se soberbamente a Paris do pós-guerra, centrando-se na estação de trem, nos modos sociais e nas vestimentas. Para quem gosta de literatura, destaco a passagem em que aparece o irlandês James Joyce, o que demonstra que à época a França ainda era o epicentro cultural do mundo. Pode-se argumentar que A Invenção de Hugo Cabret tem momentos narrativamente mais fracos, pois a trama às vezes cansa o público e fica desinteressante, sendo sua duração um pouco excessiva. Os seus vários méritos, porém, me prenderam tanto que eu não consigo considerar decisivas essas falhas.

Nas últimas cenas, vemos Georges Méliès sendo finalmente reconhecido e reverenciado. O evento lembra um pouco os Oscar Honorários, momentos de justa homenagem a diretores essenciais. O reconhecimento de grandes artistas é sempre tocante, tais ocasiões são uma oportunidade de dedicar aos gênios os seus devidos lugares. O filme de Scorsese é um retrato apaixonado feito por um homem sempre preocupado com a sobrevivência dos artefatos históricos, e representa uma ótima chance para o público de conhecer Méliès, o rei das trucagens, o mágico, o fabricante de sonhos, o francês que pousou na lua muito antes dos americanos.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)- EUA, 2011.
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Loga, Brian Selznick (livro)
Elenco: Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Jude Law, Frances de la Tour, Richard Griffiths.
Duração: 126 min.

GUILHERME ALMEIDA . . . Estudante de Letras e apaixonado por literatura e cinema, acho Crime e Castigo o auge da inteligência humana, não consigo assistir Tarkovski sem acender uma vela e me emocionar, e toda vez que vejo Taxi Driver me olho no espelho e lanço um “You talking to me?”. Se por uma desgraça cósmica preciso passar um dia sem contato com a Arte, sofro de profunda abstinência e preciso ser amarrado numa camisa de força. Nesses momentos, não se aproximem.