Crítica | A Jovem Rainha

estrelas 3

A ascensão do racionalismo na Europa, que abriria caminho para, no século seguinte, o Iluminismo nos traz inúmeras possíveis abordagens no cinema, já tendo nos proporcionado excelentes filmes, como O Amante da RainhaA Jovem Rainha nos leva exatamente para esse período, através das lentes de Mika Kaurismäki. Infelizmente, uma ótima proposta não significa, contudo, que veremos um bom filme e a obra do diretor finlandês acaba sendo vítima dele próprio, visto que os outros elementos, em sua maioria, atuam de maneira orgânica e o que desestabiliza a obra é a maneira como são colocados em tela.

A trama acompanha a rainha Kristina da Suécia (Malin Buska), nos apresentando brevemente a sua juventude para, posteriormente, focar no seu reinado em si, mostrando suas intenções de reformar todo o país, colocando a Razão acima de todo o resto. O problema é que estamos falando de um país praticamente dominado pelo protestantismo e que ainda se encontra em guerra contra o cristianismo. Kristina deve, portanto, lutar contra os membros do clero, algo ainda mais dificultado pela sua crescente paixão pela condessa Ebba Sparre (Sarah Gadon), que, naturalmente, vai de encontro com o desejo de seus conselheiros de que a rainha encontre seu marido logo.

A Jovem Rainha segue por um caminho já visto anteriormente em outras obras de maneiras bastante similares, o que já atua contra sua originalidade. Figuras femininas de destaque na História e que ainda buscaram abalar o pensamento retrogrado dos religiosos, contudo, sempre é algo bem-vindo nos cinemas. De fato, o problema da obra em questão não se encontra em seu roteiro, já que ele estabelece uma narrativa lógica e coesa, que consegue, por si só, nos manter engajados pelo longa-metragem, algo reiterado pelos deslumbrantes figurinos, capazes de nos levar direto para o século XVII nos fazendo sentir como se estivéssemos diante de (impossíveis) gravações da época.

O verdadeiro problema está na direção de Mika Kaurismäki, que imprime um drama incrivelmente exagerado em toda e qualquer cena. Diálogos orgânicos se transformam em momentos de vergonha alheia, transmitindo ao espectador grandes doses de artificialidade. Isso, naturalmente, acaba prejudicando o trabalho dos atores, especialmente de Malin Buska. A atriz, durante a maior parte da projeção, realmente dá o melhor de si, passando a imagem perfeita da mulher forte, resoluta, que não desiste de seus objetivos. Mais de uma vez, seus esforços, todavia, são prejudicados com aproximações desconfortáveis da câmera, enquadramentos que realçam alguns maneirismos na atuação e outros problemas.

A direção de arte, em alguns momentos, também não ajuda, parecendo cair ao máximo no ridículo ao colocar, por exemplo, um crânio na mesa de Descartes, fazendo parecer um quadro de Caravaggio. Curiosamente, enquanto exagera em alguns momentos, ela poupa todos os seus esforços em outras, ocasionando em inúmeros cenários decorados apenas com paredes brancas, que fazem todo o filme parecer como uma produção de baixo orçamento. Muitos dos planos são prejudicados por essa questão, tirando qualquer profundidade do quadro através de corredores apertados sem absolutamente nada para olharmos a não ser os personagens em si.

Apesar de sua ótima premissa, portanto, A Jovem Rainha falha em nos entregar algo que consigamos acreditar. Através de planos excessivamente dramáticos, ora preenchidos por uma direção de arte igualmente exagerada, ora por uma total ausência de mais elementos em quadro, não conseguimos permanecer envolvidos por essa obra que tenta nos contar uma excelente história, mas cujo roteiro é tristemente mal-executado. Os amantes de História, contudo, ainda podem tirar um bom proveito, se conseguirem se desvencilhar dos evidentes problemas que permeiam toda a narrativa.

A Jovem Rainha (The Girl King) — Finlândia/ Alemanha/ Canadá/ França/ Suécia, 2015
Direção:
 Mika Kaurismäki
Roteiro: Michel Marc Bouchard
Elenco: Malin Buska, Sarah Gadon, Michael Nyqvist, Lucas Bryant, Laura Birn, Patrick Bauchau
Duração: 106 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.