Crítica | A Lenda de Tarzan

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estrelas 3

Depois de quatro capítulos seguidos da saga de Harry Potter e uma ausência de cinco anos da direção de longas, David Yates retorna com uma releitura de Tarzan, criação de Edgar Rice Burroughs e um dos mais famosos personagens da literatura mundial. Aliás, releitura não. A Lenda de Tarzan é, na verdade, uma mescla, uma mixagem até honesta de diversas versões diferentes que o personagem recebeu no cinema e televisão ao longo dos mais de 100 anos desde que surgiu para o mundo em Tarzan, o Filho das Selvas, em 1912, com pitadas de auto-referências bem inseridas que fariam o Capitão América pirar.

Há mais do que uma mera inspiração na obra literária original quando vemos rapidamente, em flashbacks, a origem do protagonista e também no uso de alguns personagens símios e humanos (como Kala, sua mãe; Kerchak, o chefe da tribo símia e também o Chefe Mbongo, nêmesis humano de Tarzan e outros detalhes menores). Há também traços do Tarzan selvagem, mas caninamente apaixonado da série de filmes de Johnny Weissmuller, incluindo uma variação do famoso berro, e muito do Tarzan altamente civilizado dos filmes sessentistas de Sy Weintraub e uma semelhança física forte de Alexander Skarsgård com Ron Ely, ator que viveu o personagem na série televisiva de 1966. Mas o roteiro de Adam Cozad (cujo único crédito anterior é de co-roteirista de Operação Sombra – Jack Ryan) e Craig Brewer (diretor e co-roteirista do remake de Footloose) também bebe de fontes mais recentes, como de Greystoke, com um Tarzan dividido entre a selva e o seio da nobreza britânica e também da aclamada animação da Disney de 1999, com a extrema agilidade do personagem amplificada por doses generosas de CGI.

Com isso, há de tudo um pouco na película, o que pode agradar diferentes públicos, desde os mais saudosistas, até aqueles que precisam de ação e pancadaria a cada cinco minutos. Contudo, ao embutir na narrativa conceitos diferentes, às vezes convergentes, mas outras vezes divergentes e carregar a obra de constantes elementos históricos do mundo real, o roteiro acaba criando algo substancialmente sem alma. Há o Tarzan primordial apenas de relance, já que a história começa com o personagem – John Clayton III, vivido por Skarsgård – completamente assimilado à civilização (com exceção de suas mãos que são os lembretes do quem ele no fundo é), casado com Jane (Margot Robbie) na Inglaterra e sendo atraído de volta à África, mais precisamente ao Congo Belga, por um plano sórdido engendrado pelo vilanesco Leon Rom (Christoph Waltz), emissário do Rei Leopoldo I da Bélgica. A camada civilizatória de Tarzan nunca é perdida, mas o ator, por outro lado, também nunca consegue convencer de verdade sobre a natureza selvagem de seu personagem, especialmente em razão de extremos, tremidos e desnecessários close-ups dele quando mais jovem na selva, além do uso equivocado de CGI rejuvenescedor. Ele fica em um meio termo incômodo entre o que ele foi e o que ele é, sem jamais abraçar de verdade um estado ou outro. O peso dos fatos históricos reais para dar suposta veracidade à narrativa apenas a atrapalha, especialmente a quem souber dos efeitos nefastos do controle belga sobre o Congo que se perpetuam até hoje e que Tarzan algum pode curar.

Mas a grande verdade é que as lentes de Yates querem é criar um novo super-herói e, potencialmente, uma nova e lucrativa franquia. Tarzan tem esse potencial, sempre teve na verdade, como se pode atestar pelas centenas e centenas de obras nas mais diversas mídias com o nome do personagem. De protótipo de herói, ele é alavancado ao super-homem das selvas, com direito a voos intermináveis em cipós mágicos (reparem na sequência do trem, em que o cipó parece estar preso nas nuvens, como às vezes parece estar a teia do Homem-Aranha nos quadrinhos e também filmes), controle mental (ou quase isso) dos mais diferentes animais e uma aparente desobediência a coisas banais como gravidade e invulnerabilidade a projéteis independente da letalidade para todos ao redor. Em um mundo cinematográfico em que tudo aparentemente tem que ser frenético, exagerado e desnorteador para ser apreciado, A Lenda de Tarzan até que consegue dar conta do recado sem ferir de morte o conflito entre a natureza e a civilização, base conceitual da obra de Burroughs, ainda que esse aspecto fique escondido bem lá nos recônditos da impenetrável floresta onde vive a tribo símia que criou Tarzan. No entanto, não se enganem: o filme é uma verdadeira montanha-russa de cortes rápidos, câmeras hiperativas e derramamento sem dó ou piedade de bits e bytes no lugar onde poderia haver efeitos práticos. Yates, porém, sabe se segurar e evita transformar seu filme em um borrão indutor de ataques epilépticos, algo que por si só merece ser aplaudido.

Se Skarsgård é passável como um lorde, mas constrangedor quando é mostrado como um homem-macaco (misericordiosamente por apenas poucos segundos), Margot Robbie é apenas um enfeite supérfluo e constantemente em perigo para seu marido a salvar, um grande desperdício do potencial da atriz. Waltz é, bem… Waltz. Se um dia ele despontou ao mundo mais do que brilhantemente como Hans Landa em Bastardos Inglórios, ele aos poucos foi perdendo sua luz própria e, hoje em dia, tem se tornado quase que uma paródia dele mesmo, algo que fica dolorosamente evidente com seu personagem que usa um terço como John Way usaria um laço. Ele, porém, ainda diverte, ainda encanta. Ainda vive aquele tipo de vilão que amamos odiar, mas não mais do que isso. E o que dizer do onipresente Samuel L. Jackson? Ele tem, talvez, o mais ingrato papel do filme, como o americano bonzinho que chora pelo massacre indígena, se arrepende de ter participado da Guerra Mexicano-Americana ao mesmo tempo que funciona como um deslocado e completamente desnecessário alívio cômico. Mas é Jackson e ele é sempre uma presença agradável, mesmo quando faz personagens desagradáveis (seu asqueroso Stephen é prova disso).

Com idas e vindas ao passado por meio de flashbacks que não ajudam na fluidez da narrativa, mas que indubitavelmente acrescentam informações importantes a ela, A Lenda de Tarzan é o proverbial potencial desperdiçado, mas que, em seu conjunto, ainda consegue ser superior a muita remake e reboot que Hollywood vem fazendo. Mesmo sem conseguir alcançar o patamar de ter personalidade própria, pelo menos a versão remixada, refeita, reimaginada e cheia de CGI de Tarzan para agradar a plateia do século XXI não é completamente genérica e proporciona 110 minutos de mastigação satisfatória de pipoca.

A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan, EUA – 2016)
Direção: David Yates
Roteiro: Adam Cozad, Craig Brewer (baseado em romance de Edgar Rice Burroughs)
Elenco: Alexander Skarsgård, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Margot Robbie, Djimon Hounsou, Sidney Ralitsoele, Osy Ikhile, Mens-Sana Tamakloe, Antony Acheampong, Edward Apeagyei, Casper Crump, Madeleine Worrall, William Wollen, Rory J. Saper, Christian Stevens
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.