Crítica | A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça

Adaptando o conto clássico de suspense gótico de Washington Irving intitulado The Legend of Sleepy Hollow, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça de Tim Burton traz uma releitura audiovisualmente inspirada de uma das mais antigas peças de literatura norte-americana. Como costuma ser tradicional no trabalho de Burton, o peso da obra clássica do autor de Rip Van Winkle pouco se faz sentir em sua construção da película. O diretor se faz confortável em se pautar na inspiração em pontos específicos do conto para embasar uma história própria original.

A recepção de público e crítica norte-americanos em geral trouxe reservas em relação ao que foi percebido como uma oportunidade perdida em se apresentar uma versão cinematográfica fiel da história, que tem um apelo universal e é um dos contos de Halloween mais populares por lá. O diretor, por sua vez, encontrava-se sintonizado em outra frequência inspirativa. Assim como Marte Ataca! foi uma paródia-homenagem ao glorioso sci-fi trash cinquentista, o filme de 1999 acaba funcionando como um tributo a uma veia bastante específica do horror trash de meados do século passado. Burton assumiu o que se iniciou como um projeto (potencialmente malfadado) do artista de efeitos visuais Kevin Yagher em adaptar livremente o conto de Sleepy Hollow em um slasher de baixo orçamento, aproveitando-se do ensejo para realizar sua homenagem pessoal aos clássicos filmes de terror da lendária produtora britânica Hammer Film.

Felizmente, ao contrário do que ocorreu com Marte Ataca!, a linha entre o tributo e a inspiração consegue ser tangenciada pela produção com maestria: ainda que não seja um filme perfeito, no que cabe a prestar homenagem aos épicos vampíricos e frankensteinianos dos anos 50, 60 e 70, o esforço não é em nenhum momento redundante e deve ser, de fato, capaz de despertar tanto as memórias do entusiasta quanto a curiosidade do neófito a respeito do caminho sem volta (e delicioso) do cinema trash.

O filme se garante primariamente a partir de três frentes bem articuladas e niveladas: fotografia, trilha sonora e elenco. Visualmente, trata-se de uma das mais belas películas de Burton: sem atalhos e sem se balizar por exageros estilísticos, os espaços surreais de Sleepy Hollow conseguem contar muita história por si sós, compensando os momentos em que o enredo se faz mais ralo com a espessura enevoada do vilarego com seus ares góticos com toques de steampunk. Dando uma verdadeira aula sobre o uso de sets, os ambientes convencem e cativam a imaginação: aos que não se animam com a perspectiva de assistir ao Johnny Depp mastigando o cenário, eis aqui uma ótima chance de presenciar  o inverso acontecendo.

Tanto as sequências mais mundanas quanto os saltos sobrenaturais combinam muito bem o surrealismo com o fantástico cartunesco, estilo patente de Burton que se faz presente aqui prestando o melhor serviço possível ao roteiro. O vilarejo enevoado é pintado em formas surreais o suficiente para fazer ser sutil a transição entre as paisagens oníricas de Ichabod (Johnny Depp) e a apavorante realidade em que ele presentemente se encontra. A trilha sonora de Danny Elfman embala essa transição o tempo todo, desde a belíssima sequência de abertura até os momentos mais agitados do clímax aventuresco. A parceria com o compositor novamente se prova acertada, na medida em que sua trilha consegue acompanhar bem as voltas do roteiro e as viradas diretoriais de forma a emprestar concisão e unidade a um filme que se ramifica por tonalidades diversas, digredindo de forma inspirada em torno de uma premissa central bastante simples.

Originalmente um professor atrapalhado, a versão de Ichabod Crane que nos é apresentada nessa adaptação é um investigador forense determinado a defender em corte ideias perigosamente progressistas (como o pensamento lógico) em plena iminência da “virada do milênio” de 1799. A escolha rende bons frutos, embora eu deva admitir que não tenha qualquer memória afetiva relacionada ao conto original. Enquanto as adaptações da história frequentemente constroem o suspense em torno dos ares nebulosos do vilarejo em si, dando centralidade ao triângulo amoroso entre Ichabod, Katrina (Christina Ricci) e Brom Van Brunt (Casper Van Dien) — como é o caso da animação disneyiana, por exemplo — o filme prefere optar por levar a frente a possibilidade sobrenatural do Cavaleiro sem Cabeça. Não mais o símbolo de um conto noturno, o espectro se torna aqui a figura central bastante real de um suspense sobrenatural.

Expandindo a partir da aparição (sempre curta demais) do mitológico Christopher Lee, o elenco de atores britânicos interpretando um suspeitíssimo grupo de elite do vilarejo de Sleepy Hollow consegue mesclar ares de suspense policial com o horror de cordel encarnado nas produções da Hammer Film. Com diálogos e interpretações sempre bem alinhados, a interação entre os personagens é o ponto forte do roteiro, que traz diálogos e situações bastante básicos, apresentados sob a luz constantemente interessante do suspense.

A estrutura do enredo, portanto, acaba por passar longe de um filme de terror. Embora a fita cumpra uma bela cota de decapitações e sequências explícitas, o gore é surrealmente estilizado o suficiente para se aproximar mais do aspecto lúdico do Halloween. Em particular, o uso do vermelho vivo e saturado do sangue em contraste com os tons bronze-acinzentados que predominam o restante do tempo ajudam a dar a tonalidade da narrativa, que flerta o tempo todo com a comédia, mas que por sorte sabe o caminho de volta para casa. As cenas de horror propriamente ditas funcionam mais como interlúdios do que como desenvolvimentos da narrativa propriamente dita. Dentre elas, merece destaque a do ataque à família Killian, que traz os lugares-comus do gênero bem alinhados em um momento inusitado de sutileza, onde o Cavaleiro sem Cabeça surge propriamente como um monstro de filme de terror. Na maior parte do tempo, no entanto, o enfrentamento se dá através das precárias atividades sherlockianas de Ichabod, e de momentos de ação que lembram muito mais uma aventura despreocupada do que o desespero iminente de uma perseguição assassina.

No fim das contas, o que temos aqui é algo como a versão halloweenesca de uma aventura sobrenatural. Mesmo os elementos de suspense deixam de construir tensão na medida em que os mistérios são telegrafados à quilômetros de distância, e o peso narrativo vai do papel do espectador como investigador à contemplação das reações divertidas de Ichabod frente às evidências confusas que vão surgindo. Embora o roteiro não seja assinado por Burton, a subtrama envolvendo o passado e origem de Ichabod curiosamente ressoa um pouco do que seria visto nas versões burtianas de A Fantástica Fábrica de Chocolate Alice no País das Maravilhas: um estudo motivacional de personagem bastante interessante, bem intencionado e relativamente inspirado, porém mal aproveitado no desenvolvimento da trama principal.

Toda ambientação bem realizada, estilo rico e caráter de tributo não livram o filme de sofrer um pouco dos efeitos de um suspense com resolução explicitamente previsível. Somado a uma atuação por vezes apática demais da parte de Ricci, tais fatores fazem com que o terceiro ato seja sem dúvida o ponto fraco da produção. Por sorte, as divertidas cenas de ação e os efeitos visuais muito precisamente realizados compensam o efeito, ainda que não salvem a história no nível do enredo.

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é um filme belo e envolvente para além de suas limitações de enredo. Em sua excentricidade nata, é uma produção bastante centrada, do tipo que parece querer saber onde chegar, e que por sorte cumpre a maioria de suas promessas antes que se encerre a fita, entregando uma experiência marcante, divertida e que faz valer a revisitação, ainda mais em épocas de Halloween. Uma adição sólida à filmografia do diretor, trata-se de um dos filmes que inegavelmente presta à favor da saturada parceria Burton-Depp.

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Sleepy Hollow) – EUA, 1999
Direção: Tim Burton
Roteiro: Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker (baseado no conto de Washington Irving)
Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Miranda Richardson, Michael Gambon, Casper Van Dien, Jeffrey Jones, Richard Griffiths, Ian McDiarmid, Michael Gough, Christopher Walken, Marc Pickering, Lisa Marie, Steven Waddington, Claire Skinner, Christopher Lee, Alun Armstrong, Mark Spalding
Duração: 105 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.