Crítica | A Liberdade É Azul

A Liberdade é Azul

estrelas 4

Eis um dos filmes mais profundos no que tange aos aspectos da utilização das cores como elemento para ambientação psicológica e estética. Na Trilogia das Cores, iniciada com este A Liberdade é Azul, seguido de A Igualdade Branca, e encerrada (e com maestria) em A Fraternidade é Vermelha, o diretor Kieslowski trouxe à tona os ideais iluministas e as discussões oriundas da Revolução Francesa, acontecimento que demarca o início da “modernidade”.

O Iluminismo, movimento intelectual datado do século XVIII, defendia o uso da razão contra o antigo regime e buscava maior liberdade econômica e política na conjuntura histórica em questão. Com representantes de peso como Montesquieu, Voltaire, Rosseau e Adam Smith (A Riqueza das Nações, clássico para compreensão do pensamento da era), a pauta da vez era o avanço do cientificismo e dos ideais burgueses. Pensado no início dos anos 1990, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade são repensados, reinterpretados e reapresentados através da ótica autoral de Krzysztof Kieslowski.

Ao longo dos seus poéticos 100 minutos, o filme nos apresenta a fragilizada Julie (Juliette Binoche), uma mulher que acorda num hospital e recebe a informação sobre um acidente de carro envolvendo seu marido e filha, ambos falecidos, sendo ela a única sobrevivente de tal tragédia. Esposa de um compositor, Julie recebe uma suntuosa encomenda: finalizar uma composição para coro e orquestra, trabalho a ser apresentado num evento que comemora a unificação da Europa.

O nome da composição, Concerto pela Unificação da Europa, torna-se um fio condutor do enredo e de toda a trilogia, lançada, respectivamente, em 1993, 1994 e 1995. Ao imbuir-se do trabalho, Julie desvenda segredos até então obscuros do marido e se envolve com um homem que coloca os seus conceitos fixos em reflexão.

A trilha sonora é um primor. Há algumas cenas bem poéticas e representativas da rima entre áudio e visão: enquanto notas musicais soam, a câmera fecha em tais notas musicais, como uma espécie de videoclipe. Com o trabalho de som sob a responsabilidade de Zbigniew Preisner, A Liberdade é Azul possui no campo sonoro um dos seus mais poderosos recursos narrativos. Tais manejos são reforçados pelos fades e raccords que ajudam na simbiose entre personagens e os demais tons de azul. Com o azul como cor da sua liberdade, Julie quer esquecer o passado para continuar a viver o presente.

No INTERCOM do ano passado (evento anual ligado aos meandros da Comunicação, Cinema e afins), realizado em Foz do Iguaçu, o pesquisador João Fabrício Flores da Cunha trouxe questões interessantes sobre o filme, dentre elas, a liberdade que Julie toma como ideal, bem como a conclusão de que diante da relação com os demais na sociedade, há a impossibilidade de exercê-la. A sua liberdade termina quando começa os direitos do próximo. Essa é uma das questões que o filme traz como reflexão. É preciso observar que ela não é um ente em isolamento diante do ambiente que a cerca.

O filme foi indicado aos mais variados prêmios da indústria cinematográfica. Lançado em 1993, venceu o César de melhor som, edição e atriz (para Binoche, realmente intensa), o Leão de Ouro (Itália) de Melhor filme, o Goya (Espanha) de Melhor filme europeu, além de ter sido indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz drama e trilha sonora. O filme estreou na França em 08 de setembro de 1993 e marcou para sempre a carreira do diretor e a linhagem de filmes que utilizam a cor como centralidade icônica da narrativa.

Ao voltar para a afirmação anterior sobre a reinterpretação dos ideias iluministas, reforço que o diretor trabalha com a microscopia, ou seja, uma narrativa que está atenta aos detalhes como gestos, atitudes sutis, coisas comuns dentro de uma estrutura maior. Os jogos de luzes, a música e as cores gravitam em torno destes pequenos acontecimentos. Os valores iluministas, oriundos da grandiosa construção histórica e imaginada do continente europeu, que se impõe como natural e universal, agora é apresentada através da base e do subterrâneo, do não-dito, como uma espécie de denúncia que nos revela a fraude por detrás de toda argumentação histórica secular. Isso fica mais completo ao refletirmos sobre os filmes subsequentes, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha.

A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, França/Polônia/Suíça – 1993)
Direção: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Krzysztof Piesiwicz, Agniesza Holland, Edward Zebrowski, Slawomir Idziak
Elenco: Juliette Binoche, Benóit Regent, Floence Pernel, Charlotte Very, Hélène Vincent, Philippe Volter, Claude Duneton, Hugues Quester, Emmanuelle Riva, Florence Vignon, Daniel Martin, Jacke Ostaszewski
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.