Crítica | A Liga Extraordinária: Black Dossier

estrelas 5

Sabem aquela cena no gostoso filme oitentista Os Goonies, quando as crianças vão até o sótão de Mikey (Sean “Sam” Astin) e se depararam, com olhos esbugalhados de estupefação a quantidade de tranqueiras que tem lá em cima? Pois é. Black Dossier é o sótão e o crítico que subscreve a presente resenha é os Goonies.

black dossier cover final

Só a capa já é repleta de preciosidades.

Black Dossier é um baú de tesouros de difícil classificação. Tem formato de graphic novel, mas os quadrinhos lá contidos são meros detalhes. Eles encapsulam e introduzem o próprio dossiê do título que, por sua vez, funciona como uma espécie de riquíssima enciclopédia sobre a verdadeira origem da Liga, ou melhor, das versões anteriores da Liga, começando com a Rainha Gloriana (do poema do século XVI The Faerie Queene), Próspero (de A Tempestade, do “biógrafo” Shakespeare) e Orlando (da lenda medieval). A história que une esse material diverte, não se enganem, mas ela é a parte menos importante desse magnífico trabalho de Alan Moore e Kevin O’Neill dentro do universo d’A Liga Extraordinária que os dois criaram em 1999.

Assim, fica já um aviso: quem tiver preguiça e decidir ler só os quadrinhos, estará perdendo 80% do valor desse tesouro. É como abrir o baú do tesouro, jogar fora o conteúdo e ficar só com o baú…

Publicado por obrigação contratual de Alan Moore com a DC Comics, mas já depois do período em que a relação entre os dois já havia ultrapassado o limite da civilidade, Black Dossier não é o volume três da saga da Liga. Moore propositalmente fugiu disso, deixando a DC com um material sensacional, mas que não faz conexão direta com as histórias anteriores. Mas é embasbacante ver o profissionalismos de Moore que, mesmo enfurecido com a editora, apresentou um trabalho com uma densidade talvez maior do que os próprios volumes anteriores.

black dossier 3d glasses

Disponível também em 3D!

E o tamanho enganará os incautos. Com apenas 200 páginas, qualquer um poderia achar que, por mais complexa a linha narrativa, não demoraria muito mais do que algumas horas para acabar. Ledo engano. Um leitor atento demoraria para ler Black Dossier o mesmo que demoraria para ler um livro todo em prosa de mais ou menos 500 páginas. É muito material, muita referência e muita necessidade de conhecimentos literários ou de pesquisa pós-leitura (com uma releitura em seguida).

Mas tudo começa de maneira muito divertida, com Mina Murray e Allan Quatermain, agora jovens (leia o anexo de 45 páginas do segundo volume d’A Liga para entender o porquê), no final da década de 1950, depois que o governo Big Brother (o verdadeiro Big Brother, não o da Globo) acabou. Eles são foragidos do serviço secreto a que tinham ligação e eles roubam o tal dossiê do título para descobri o quanto M sabe do paradeiro deles. E roubam de quem? Ora, de um “tal” de Jimmy, neto de Campion Bond, um espião mulherengo e que gosta de martini mexido, não batido (perceberam quem é ou querem mais pistas – se quiserem, cliquem aqui).

black dossier orlando

3 mil anos em 25 páginas

Nós – os leitores – lemos o dossiê na medida em que Mina também o lê e vamos, aos poucos, descobrindo cada detalhe da vida dos membros das Ligas anteriores. Há uma história em quadrinhos de 25 páginas contando os 3 mil anos da vida de Orlando (Life of Orlando), que mistura fato com ficção de maneira tão fluida que é impossível não se apaixonar pela narrativa; um texto em prosa sobre os deuses desse universo que Moore criou (On the Descent of the Gods); uma peça de Shakespeare que serve de prelúdio para a sua A Tempestade (escrito em inglês shakespeareano, claro); uma continuação de Fanny Hill (obra pornográfica de John Cleland) escrita pela própria Fanny Hill e mais um milhão de criações interessantíssimas, incluindo toda uma seção em 3D (cujo óculos, daqueles de papel com lentes de celofane azul e vermelho, estão incluídos no pacote, vale dizer).

Falar mais é estragar a diversão. É uma grande pena que esse volume não tenha ainda sido publicado no Brasil, apesar das promessas da Devir. Mas, quem tiver a chance, leiam no original. Mas leiam tudo. Cada palavra. Em detalhes. É absolutamente extasiante.

A Liga Extraordinária: Black Dossier (The League of Extraordinary Gentlemen: Black Dossier)
Roteiro: Alan Moore
Arte: Kevin O’Neill
Cores: Benedict Dimagmaliw
Letras: Bill Oakley
Publicação original: America’s Best Comics (hoje selo da DC Comics), em 14 de novembro de 2007
Publicação no Brasil: ainda não publicado
Páginas: 200 (edição encadernada americana)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.