Crítica | A Luta Pela Esperança

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Os chamados “filmes de Oscar” se tornaram, com o passar dos anos, uma espécie de gênero à parte na produção da seara cinematográfica. Quase como um contraposto aos diversos blockbusters que bombeiam as salas de cinema ao longo do ano, estes ditos filmes acadêmicos, ou seja, imaginados primeiramente para abocanhar seus prêmios, quase sempre optam por retratar grandes histórias reais de superação, de fácil apelo dramático e emocional ao público, e que ao final nos reservem sentimentos edificantes que sustentem sua relevância enquanto experiência cinematográfica.

O grande momento acadêmico na filmografia de Ron Howard aconteceu quando seu Uma Mente Brilhante se tornou o bicho-papão dos prêmios no início dos anos 2000, levando inclusive os grandes prêmios da premiação do Oscar como melhor filme, direção, atriz coadjuvante para a belíssima Jennifer Connelly e roteiro adaptado para o notável Akiva Goldsman, que ao longo dos anos, se tornou um colaborador recorrente de Howard. Não parece ser exagero apontar, entretanto, que para um cineasta tão convencional e de pouco peso autoral como Ron Howard (apesar da admirável experimentação de gêneros que pode ser observada em sua filmografia), que a chegada deste reconhecimento parece ter feito mal aos objetivos do diretor, e se o infame Desaparecidas já havia falhado miseravelmente  em levar o nome de Ron ao boca-a-boca das premiações, A Luta Pela Esperança apenas cimentou a ineficiência do responsável em lidar com os tais projetos acadêmicos (um quadro que apenas mudou no contido e impressionante Frost/Nixon).

Há uma tendência clara em A Luta Pela Esperança de se deixar levar por todo o sentimentalismo que há envolvido na história real de Jim Braddock (Russell Crowe). Ele, um grande prodígio do boxe, se vê afetado com a chegada da Grande Depressão e uma série de derrotas nos ringues que o obrigam a se aposentar prematuramente do esporte e viver de bicos nas docas dos Estados Unidos. Tendo que sustentar sua esposa Mae (Renée Zellweger, que não muito tempo atrás havia sido premiada por Cold Mountain) e três filhos, Jim encontra mais uma oportunidade de retornar ao mundo do boxe quando é escalado para disputar contra o 2° pugilista na busca pelo título mundial, Max Baer (Craig Bierko).

Sem se fazer afeto a sutilezas (e se o fizesse, dificilmente teria sido tão cotado para a época de premiações como foi em sua época), Goldsman e Howard apelam para o que há de mais clássico nos clichês hollywoodianos para narrar uma história que precisa superar o interesse parco de uma boa parcela do público pelo esporte em si, investindo na catarse emocional da situação familiar de Jim e Mae. Com inspirações mais que óbvias em Touro Indomável, Rocky, um Lutador e O Invencível, clássico dos anos 40 estrelado por Kirk Douglas (e tais óbvias inspirações passam bem longe de ser o real problema), o roteiro Goldsman pesa na mão no que há de maniqueísta naquela história, construindo Jim como um homem absolutamente incorruptível, estabelecendo Mae como a típica esposa e mãe preocupada e dedicada, transformando Max Baer na presença vilanizada, caricata e desumana que tanto conhecemos, e fechando o pacote com o treinador, empresário e melhor amigo de Jim, Joe (Paul Giamatti, indicado ao Oscar pelo papel), que desempenha um papel fundamental nas vitórias e no bom senso de Jim.

É pouco para que Howard passe por cima do convencionalismo que lhe é característico, e na tentativa de conferir alguma autenticidade que se faça válida a história, o diretor apela para os recursos mais básicos para construir sua narrativa, desde elipses que situam a ascensão e a queda inicial de Jim de forma didática, flashbacks grosseiros em meio às cenas de luta e toda uma pomposidade técnica (planos e enquadramentos abertos que ressaltem a recriação histórica na direção de arte de Peter Grundy e a fotografia dessaturada de Salvatore Totino) que, acompanhada da trilha sonora desesperada pela emoção de Thomas Newman, afundam a rica história de Jim numa narrativa absurdamente circular, calculada, que dá pouco ou quase nenhum espaço para a catarse da jornada do protagonista e sua família, de fato, seja transmitida ao público com maior naturalidade. É o água-com-açúcar que no desejo pela manipulação, afasta gradativamente o interesse genuíno pelo resultado daquela história que, convenhamos, já se faz óbvia desde o início, e não pelo fato de ser baseada numa história real.

Russell Crowe, felizmente, é um ator competente o suficiente para passar por cima da má construção de seu personagem e entregar a Jim Braddock lapsos de dúvida sobre suas escolhas e até onde elas são benéficas para si e sua família, e o ar cansado que Crowe confere ao personagem nos permite criar a empatia inicial que o roteiro de Goldsman faz questão de sabotar desde o início. Giamatti também entrega um trabalho competente como o alicerce de Jim durante seu trabalho e como sua força para abalar os adversários, e a boa química entre os dois atores é capaz de nos convencer da amizade e proximidade entre aqueles dois homens. Zellweger, infelizmente, é o grande ponto fraco do elenco e chega ao ponto de comprometer todas as suas cenas ao personificar Mae como uma esposa afetada, oscilando entre a tremedeira na voz e o choro de forma absolutamente mecânica, artificial, jogando por água abaixo o papel essencial da personagem como alguém que apesar de não levar os golpes físicos, passa por uma dor tão grande quanto a do marido.

E as cenas de luta, apesar de bem coreografadas e filmadas com uma intensidade elegante por parte de Howard, pouco saem do terreno do burocrático, e quando nos damos conta, A Luta Pela Esperança se encerra como mais um dramalhão formalmente imaginado para que as lágrimas rolem pelo rosto do público, mas sabota em cada momento esse potencial através de uma história que nada mais é do que mal contada.

A Luta Pela Esperança (Cinderella Man) – EUA, 2005
Direção: Ron Howard
Roteiro: Akiva Goldsman, baseado em argumento de Cliff Hollingsworth
Elenco: Russell Crowe, Renée Zellweger, Paul Giamatti, Craig Bierko, Paddy Considine, Bruce McGill, Rosemarie DeWitt
Duração: 144 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.