Crítica | A Luz Entre Oceanos

estrelas 3

Baseado no livro homônimo de M.L. Stedman, A Luz Entre Oceanos é o mais novo filme do diretor Derek Cianfrance, que nos trouxera anteriormente Namorados para Sempre e O Lugar Onde Tudo Termina. Temos aqui uma obra que contempla os efeitos do afastamento da sociedade, a solidão e os traumas passados por pessoas que perdem seus filhos, um retrato do que a tristeza pode levar alguém a fazer, por mais puras que sejam suas intenções. Com uma narrativa contemplativa, o longa-metragem nos carrega para essa vida em um farol na costa do Reino Unido, mas acaba pecando pela forma como constrói a sua história.

A trama gira em torno de Tom Sherbourne (Michael Fassbender), um veterano da Primeira Guerra Mundial, que decidira se afastar do mundo ao trabalhar em um farol em uma pequena ilha. Não demora muito para que ele acabe conhecendo Isabel Graysmark (Alicia Vikander) e um romance logo surge entre os dois. Ela acaba se mudando junto com seu marido para o local onde trabalha e, após perderem dois filhos, ainda na gravidez, acabam adotando uma garotinha bebê que aparecera na costa da ilha, em um barco junto com o falecido pai. A situação complica, porém, quando Tom descobre que a mãe verdadeira da criança, Hannah Roennfeldt (Rachel Weisz) está viva e sofrendo profundamente com sua perda.

Em um primeiro momento acreditamos que A Luz Entre Oceanos irá ter um foco psicológico, em virtude das dores sofridas pelo protagonista durante a guerra e de seu posterior afastamento. O que vemos, conforme a projeção progride, contudo, é um drama envolvendo a vida desse casal. De fato, o roteiro de Derek Cianfrance dá uma atenção à mente de Tom, que entra em turbilhão quando ele descobre de Hannah, mas o texto ocupa muito de seu tempo com questões que, verdadeiramente, não ajudam a construir a narrativa, estendendo a duração do longa de forma desnecessária.

Em virtude disso, todo o dilema sofrido por Sherbourne acaba ficando em segundo plano até os trechos finais, criando uma artificialidade na narrativa, que apenas é combatida pelo ótimo trabalho de atuação do elenco principal. Fassbender, como sempre, não nos decepciona e coloca todas suas emoções para fora – seu olhar, a forma como sua boca se contorce, perfeitamente refletem a dor do personagem e não conseguimos deixar de acreditar em seu sofrimento interno. Ao mesmo tempo sentimos a paixão que nutre por sua esposa, capaz de fazê-lo realizar qualquer coisa para deixa-la feliz ou a salvo.

Vikander, por sua vez, transmite, também, uma verdadeira profundidade, visto que percebemos sua noção do certo e errado que entra em oposição à sua vontade de ter um filho. Sua personagem fora profundamente abalada pela perda dos dois bebês e sua inconstância emocional, que posteriormente passa para Tom, chega a ser palpável. O amor que os levara inicialmente a ficarem juntos naquela afastada ilha, logo se transforma em uma constante dor, que ocasionalmente dá fortes pontadas no coração dos dois personagens, até criar um ponto de insustentabilidade, que nos leva para o clímax.

Aqui entramos no efetivo maior problema da obra, um trecho final excessivamente prolongado, que soa como um gigantesco epílogo. Enxergamos em inúmeros momentos a possibilidade de terminar o filme ali, mas Cianfrance opta por continuar, quebrando nossa imersão inúmeras vezes, tornando a narrativa enfadonha, cansativa. Com isso, o apelo emocional da obra em relação a nós acaba se perdendo e assistimos o desfecho sem a menor ameaça de uma lágrima escorrer pelos nossos rostos, tornando praticamente em vão os esforços de Fassbender, Vikander e Weisz, esta, por sua vez, uma personagem que consegue nos atingir em cheio pelo drama que sofre – a atriz transmite um realismo nítido, mas é prejudicada pelos flashbacks desnecessários que interrompem o ritmo da projeção.

Felizmente, a direção de Cianfrance sabe aproveitar o cenário à sua volta e preenche os quadros com sua beleza. Do pôr-do-sol ao tempo nublado, não temos como não nos pegar admirando os planos contemplativos da obra, que são organicamente encaixados com a disposição emocional de cada personagem. O diretor ainda sabe utilizar planos mais longos para nos trazer esses quadros e opta por uma sequência com mais cortes quando dentro de ambientes fechados ou em diálogos que pedem a criação de uma maior tensão no espectador.

A Luz Entre Oceanos é certamente um filme belo de se ver, que trabalha com engajantes problemáticas eternas ao ser humano. A forma como seu roteiro é construído, contudo, atua contra os esforços do elenco e da direção, prejudicando o ritmo da narrativa e estendendo a duração do longa-metragem para duas horas e treze minutos, sendo que poderia ser consideravelmente mais curto e, com isso, nos atingiria de forma muito mais certeira. Infelizmente estamos diante de mais uma obra com potencial desperdiçado e não podemos deixar indagar como o filme seria não fossem algumas duvidosas decisões tomadas pelo seu realizador.

A Luz Entre Oceanos (The Light Between Oceans) – Reino Unido/ Nova Zelândia/ EUA, 2016
Direção:
 Derek Cianfrance
Roteiro: Derek Cianfrance (baseado no livro de M.L. Stedman)
Elenco: Michael Fassbender, Alicia Vikander, Rachel Weisz, Florence Clery,  Jack Thompson, Thomas Unger
Duração: 133 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.