Crítica | A Mais Bela

estrelas 2

Talvez se eu tivesse visto A Mais Bela (1944) na ordem cronológica dos filmes de Kurosawa, a impressão negativa que tive do filme não teria sido tão forte. O problema aqui está em toda uma filmografia já visitada, uma filmografia pontuada de obras no mínimo boas, o que estampa ainda mais o contraste entre este segundo filme de Kurosawa e todos os outros que ele iria dirigir.

A história é bastante simples e foi escrita sob encomenda para servir de propaganda de guerra. Estando o Japão sob severo ataque dos Estados Unidos e do Reino Unido, ficava evidente o futuro trágico do Exército nipônico, porque a Segunda Guerra já tomava um outro rumo em 1944. Com esse plano de fundo, não é de se espantar que um filme de propaganda deixasse clara a necessidade de destruição do inimigo. O roteiro, claro, deveria dar suporte a esse discurso, mesmo que a história não fosse necessariamente um drama político de guerra.

Em A Mais Bela, Kurosawa escreveu uma história de luta de bastidores, e teve como foco, a importância do operariado feminino. O drama acontece em uma fábrica de lentes para equipamentos militares, e já no início, percebemos que o filme irá acompanhar a “ordem de produção extraordinária”, um pedido de aumento notável (100% para os homens e 50% para as mulheres) na fabricação de lentes, em um período de quatro meses. Após o protesto das garotas da fábrica, os chefes de seção aumentam a produção feminina para 70%, e já nesse discurso percebemos as entrelinhas da luta nos bastidores, do sacrifício civil para melhor servir aos militares que estavam no front.

As filmagens acontecem em sua maior parte no interior da fábrica e nas dependências em torno, como o dormitório das operárias, a sala de música e a quadra de esportes. Ao passo que acompanhamos o comprometimento engajado das garotas, vemos as motivações pessoais por trás desse trabalho, e mais uma vez a ideia de sacrifício vem à tona, na pessoa das trabalhadoras doentes, que mesmo sob esta condição insistem em trabalhar; ou como no caso da chefe das operárias que passa toda uma madrugada revisando lentes.

O que espanta o espectador acostumado com os outros filmes do diretor, é que em A Mais Bela, o apelo dramático para as operárias ganha contornos patéticos, porque é visível que este não era o objetivo da película, só estavam lá para encorpar a narrativa de propaganda de guerra. Como nesse tipo de produção as motivações pessoais devem dar suporte ao engajamento político, as emoções e as escolhas das trabalhadores parecem forçadas e deslocadas da história. A tentativa de Kurosawa em fazer com que as intenções pareçam orgânicas no roteiro, fracassam, e só na reta final da obra temos um desprendimento emotivo, o único momento em que percebemos um toque não mecânico do diretor.

Imagino que para um humanista como Kurosawa, dirigir e escrever um filme como A Mais Bela tenha sido algo bastante difícil. Como compensação, o diretor conseguiu fazer algumas pequenas reflexões sobre a tradição familiar e a postura das jovens em relação à sua terra natal. O pensamento de uma delas sobre a terra onde nasceu e a reprodução de uma bela paisagem enevoada e com crianças brincando mostram uma postura sentimental legítima, algo além dos deveres para com a pátria e com a empresa, talvez o único momento realmente emotivo da fita, porque seu motor é puramente pessoal.

A Mais Bela é o filme mais fraco de Akira Kurosawa, uma propaganda de guerra cuja utilidade é apenas histórica e cujo valor cinematográfico reside em apenas algumas sequências, a verdadeira salvação da fita. Se me permitissem esquecer por completo a imagem de alguma obra de um diretor, não resta dúvidas de que esta seria a minha primeira opção.

A Mais Bela (Ichiban utsukushiku) – Japão, 1945
Direção: Akira Kurosawa
Roteiro: Akira Kurosawa
Elenco: Takashi Shimura, Sôji Kiyokawa, Ichirô Sugai, Takako Irie, Yôko Yaguchi, Sayuri Tanima, Sachiko Ozaki, Shizuko Nishigaki, Asako Suzuki, Haruko Toyama, Aiko Masu, Kazuko Hitomi
Duração: 85 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.