Crítica | A Maldição (1996)

Muitas das adaptações cinematográficas das obras literárias de Stephen King acabaram fracassando na desenvoltura de suas, quase sempre inacreditáveis e instigantes, premissas. O longa acabava, em uma visão geral, caindo na superficialidade narrativa por onde era conduzido, sem trazer um aprofundamento mais interessante. Podemos colocar nessa lista de reimaginações fracassadas, romances e contos como Chamas da Vingança, A Criatura do Cemitério e Colheita Maldita. A Maldição, adaptação do livro A Maldição do Cigano, infelizmente entra na lista de exemplares de tal, perdoem o trocadilho, maldição. E ainda consegue se superar, sendo uma tragédia de se fazer perder uns quilinhos no meio do caminho.

Leigo da literatura de King, permito-me a analisar a obra cinematográfica de modo avulso, sem traçar paralelos algum com a sua fonte original. Sendo assim, a história de Billy Halleck (Robert John Burke), um advogado obeso e corrupto que após atropelar acidentalmente uma cigana é amaldiçoado pelo pai dela, Tadzu Lempke (Michael Constantine), condenado assim a emagrecer eternamente, mais e mais a cada dia passado. Caberá a Billy reverter os danos causados pela maldição e enfrentar as consequências de suas ações passadas e futuras, que tiveram e irão ter grande peso na modulação de sua concepção própria de homem branco da cidade.

Assim como outras ficções buscam criar e consequentemente utilizar esteriótipos que possibilitem uma antagonização fácil para o público, A Maldição faz o mesmo com os ciganos. Isso é problemático, e provavelmente tal problematização também recairia sobre o texto original de King. A utilização do povo cigano dessa forma é extremamente nociva à noção comum que se tem sobre-o. A tal vingança deliciosamente saboreada por Tadzu, em seu devaneio de justiça, é completamente ilógica e caminha mais para a maldade irrefreável do que qualquer outra coisa. A amenização da vilania disneysiana presente no personagem de Constantine e a exploração de uma perspectiva crítica ao cotidiano questionável do homem branco da cidade não apenas traria camadas à narrativa, como tiraria a perigosa manutenção de uma visão deturpada do povo cigano.

Sem nada disso, o longa consegue ainda trazer monólogos péssimos e contraditórios que fragmentam ainda mais a caracterização de Lempke. Tudo isso sem nem mencionar a desastrosa performance afetada e entediante de Kari Wuhrer. Na terceira vez que a fórmula de sua contribuição esporádica ao longa é utilizada, já está deveras maçante ver a atriz gritar freneticamente frases horrorosas lidas diretamente do roteiro, antecedidas ou sucedidas por cuspes ou estilingues aleatórios. Após inúmeras tentativas fracassadas de Billy fazer Lempke retirar a maldição, o cigano finalmente cede, mas a cessão soa tão artificial que nem parece verdadeira. Por minutos peguei-me pensando que Tadzu tinha enganado Halleck e que aquela torta, acompanhada de mais diálogos sofríveis e não compráveis, era uma cilada. Billy ainda se dá mal, mas o motivo é totalmente diferente. Mais irônico, menos telegrafado, mas não menos errático.

Não se enganem, pois teoricamente o final é espetacular, sem sombra de dúvidas. Mas chegamos em um ponto que o desinteresse é tão grande, que as mais devastadoras das reviravoltas seriam insípidas. E assim é. Ademais, a inconsistência de personalidades é tremenda, que o roteiro parece uma bagunça mal calculada, que tenta guiar a narrativa para caminhos diversos sem ter noção alguma do universo que está criando. Halleck é tão misericordioso quanto vingativo, e ele oscila entre os dois polos sem nenhum alicerce argumentativo. Ao mesmo tempo que clama para que Richie (Joe Mantegna) poupe a vida dos arquétipos de ciganos, os mesmos que tornaram a vida do advogado um inferno por nenhum motivo “válido”, Billy também tem cada vez mais ciúmes em relação à suposta traição de sua mulher Heidi (Lucinda Jenney) com Houston (Sam Freed).

Tratando-se de um body horror, subgênero no qual o aspecto de horror encontra-se na transformação corporal sofrida por um ou mais personagens, A Maldição consegue oferecer bem, com esse aspecto, sua dose de entretenimento. O espectador fica cada vez mais “empolgado” para ver como William estará no próximo corte de cena. A maquiagem, aliás, é um bom aliado desses primeiros dois terços do longa, ainda mais com o surgimento de dois outros personagens que também sofreram da maldição do cigano. No entanto, nos últimos 40 minutos do longa a história deixa a questão do emagrecimento de lado, passando a flertar insensivelmente com os filmes de máfia e em tal via, não condizendo com o tom apresentado anteriormente. Cheio de esteriótipos étnicos, personagens unidimensionais, inconsistências narrativas, atuações apagadas, dentre outras adversidades, A Maldição é definitivamente uma das piores, senão a pior, adaptação de uma obra de Stephen King. Resta saber de quem é a culpa desse desastre: do autor do material fonte ou do próprio adaptador, tanto responsável pelo roteiro quanto pela direção.

A Maldição (Thinner) — EUA, 1996
Direção: Tom Holland
Roteiro: Michael McDowell, Tom Holland (baseado no livro A Maldição do Cigano, de Stephen King)
Elenco: Robert John Burke, Joe Mantegna, Lucinda Jenney, Kari Wuhrer, Bethany Joy Lenz, Michael Constantine, Stephen King, Daniel von Bargen, John Horton, Time Winters, Sam Freed
Duração: 92 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?