Crítica | A Maldição do Cigano, de Stephen King

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estrelas 4

__ Mais magro.

Isso é o que o advogado Billy Halleck ouve de um velho cigano com o nariz carcomido quando sai do tribunal, após o julgamento (no qual é absolvido) por ter atropelado uma cigana, tendo como “justificativa” um motivo bastante… peculiar. Para um homem obeso como Billy, ouvir as palavras do cigano (“mais magro“) pareceu até uma piada cínica, mas pela gentileza com que o velho tocou-lhe o rosto ao pronunciar essa palavras, tudo foi tomado apenas como um fato muito bizarro, algo que Billy faz questão de esquecer imediatamente. Ou até perceber que algo muito, muito estranho está acontecendo com o seu corpo e, ao que tudo indica, o velho cigano de nariz carcomido era a causa disso.

Publicado por Stephen King 1984, sob seu pseudônimo de Richard Bachman, A Maldição do Cigano foi lançado duas vezes no Brasil, recebendo um “outro título” e uma nova tradução na segunda leva (Suma de Letras, 2012), tornando-se apenas A Maldição. Só para título de curiosidade, a versão da Editora Objetiva, lançada em 1998, trazia o termo “Emagrecido” (o que eu mais gosto) como o motor da maldição lançada sobre Billy. Nesta segunda edição, a tradução é literal, do “Thinner“, em inglês, para “Mais magro“, em português.

A premissa interessante do livro é capaz de fazer o leitor pensar sobre maldições, sobre um certo preconceito mudo (ou medo justificado?) em relação aos ciganos e também gera um desconforto frente ao emagrecimento do protagonista sem que haja nenhuma doença ou mesmo ações dele para que isso aconteça, muito pelo contrário. E esse desconforto e medos sociais impensados do leitor são explorados até o último capítulo do volume, ao passo que a questão da maldição é trabalhada e ganha opiniões diferentes, ora vista como verdadeira por parte de Billy, ora como loucura e paranoia por parte de sua esposa e alguns amigos.

O terror de A Maldição do Cigano é de uma categoria que precisa de mais contexto para crescer. Como o fator sobrenatural depende de algum tempo — tempo este utilizado para gerar diferentes reações à medida que as coisas sobrenaturais são percebidas pelo leitor –, parte da obra serve como uma inspeção ao mundo desse advogado arrogante de Connecticut. Alguns mistérios, pequenos crimes e mentiras vão sendo descortinados e sem que percebamos, estamos acompanhando uma aventura road de caça ao cigano patriarca. Nesse trajeto, o leitor perceberá que a inserção da máfia no livro trava consideravelmente a fluidez da parte final, pois ela surge quando boa parte dos eventos já estavam estabelecidos e quando o tempo restando do livro não é grande o bastante para colocá-los de forma mais coesa na história.

Paradoxalmente, é essa inserção da máfia que traz um outro (e bom!) sentimento de caçada “fora da lei”, estabelecendo um amaldiçoado em um mundo que ele costumava condenar e fazendo-o escolher algo de maneira egoísta, destacando muito de sua própria personalidade, de sua moral e ética, fazendo-o compreender da maneira mais infame possível que “não se tira uma maldição. Apenas é possível sair da frente dela“. As consequências não completadas vindas dessa afirmação são o grande ingrediente da torta mágica que vemos surgir no final do livro. O desfecho de toda a história se ampara nela e é algo deliciosamente aterrador.

Para quem conhece a escrita de Stephen King, parece estranhíssimo que ele originalmente tenha lançado a obra com o pseudônimo Richard Bachman, porque exceto a parte narrativamente menos interessante do volume (a incursão da máfia), todo o restante traz o que conhecemos bem do estilo do autor, desde a apresentação dos eventos que vão nos assustando através de detalhes precisos, até o horror puro e simples, conseguido com um bom casamento entre a realidade e o mundo [das trevas?] que parece estar em todo lugar, mas só se vê em ocasiões bastante particulares. Depois da leitura de A Maldição do Cigano, por exemplo, um certo tipo de torta e uma perda qualquer de peso poderão parecer a chave para este “lugar macabro”, ganhando um significado totalmente diferente para os que passaram por essas páginas.

A Maldição do Cigano (Thinner) — EUA, 19 de novembro de 1984
Autor: Stephen King (originalmente publicado sob o pseudônimo de Richard Bachman)
No Brasil: Editora Objetiva (1998) / Editora Suma de Letras (2012, com tradução de Louisa Ibanez)
216 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.