Crítica | A Mansão Mágica

estrelas 1,5

Por melhor que tenham sido as intenções dos produtores de A Mansão Mágica, esse desenho belga em computação gráfica é uma sucessão tão grande de “fofismos” e de clichês politicamente corretos que ele não empolga em momento algum. Talvez crianças bem pequenas, não mais do que de cinco anos de idade, apreciem o tom da fita, mas é só.

E sim, já comecei pela conclusão, pois não há mesmo muito mais o que falar sobre essa obra do diretor estreante Jeremy Degruson e de seu co-diretor Ben Stassen, conhecido por trabalhos menores como As Aventuras de Sammy e Sammy: A Grande Fuga. Baseado em roteiro feito a seis mãos, a narrativa é básica e seguidora da cartilha de filmes feitos única e exclusivamente para agradar os pequenos. Um gatinho é abandonado e, depois, adotado por um velhinho (Lawrence – voz de Doug Stone) que vive em um mansão cheia de quinquilharias mágicas que têm vida (lembranças de Toy Story e A Bela e a Fera são inevitáveis), além de um coelho (Jack – voz de George Babbit), um camundongo fêmea (Maggie – voz de Shanelle Gray) e um casal de pombos (Carlo e Carla, vozes de Babbit novamente e Kathleen Browers).

O gatinho é logo batizado de Thunder (Murray Blue) pelo seu novo dono, que faz apresentações de mágica para crianças em hospitais. O antagonista é seu sobrinho Daniel (Grant George), um corretor de imóveis alérgico a gatos que quer mandar seu tio para o asilo e vender a casa a todo custo. Depois que Lawrence sofre um acidente ocasionado pelos ciúmes de Jack e Maggie em relação a Thunder, os bichinhos simpáticos e os gadgets nostálgicos vivos têm que se unir para se livrar do sobrinho progressivamente mais malvado.

Não há nada de errado em se fazer um roteiro voltado especificamente para crianças bem pequenas. Há um público aí e isso faz parte do negócio. O que me causa espécie é o trabalho de três autores para criar um roteiro que não desafia essas mesmas crianças e martela incessantemente ideias como “trabalho de grupo”, “não abandone os animais”, “cuide dos mais velhos” do começo ao fim, sem disfarçar e de maneira didática. Crianças pequenas são esponjas de absorção de conhecimento que precisam de estímulos para crescer e se desenvolver. Simplesmente entregar as respostas em um trabalho preguiçoso não é suficiente.

Aliado a isso há o inescapável fato que a qualidade da animação em si é equivalente à computação gráfica da segunda metade dos anos 90. A mágica da época é o amadorismo de hoje. A Mansão Mágica sofre desse mal, que os diretores tentam disfarçar aplicando muita cor, um sem-número de agradáveis personagens e uma sucessão de músicas divertidas, a começar por The Lovecats do The Cure, que logo no começo tenta passar a enganosa mensagem aos pais de que eles verão algo que também os agradará mais do que o básico e rasteiro. Além disso, há sequências em primeira pessoa que, longe de serem originais, logo cansam, pois são longas e repetitivas, fazendo a fita, muitas vezes, parecer um videogame com o qual não podemos interagir.

Ainda que esforços tenham sido empregados para que as expressões faciais humanas, animais e robóticas funcionem, a fita perde muitos pontos com o trabalho de detalhamento dos objetos e de toda a paisagem fora da mansão. Carros tem traços enrijecidos e banais, a vegetação não se move e não há vida nas ruas. E, olhando para os personagens, pelos e cabelos não se movimentam mais do que o mínimo necessário para transmitir alguma credibilidade.

No final das contas, A Mansão Mágica é uma pequena e simpática animação que em nenhum momento decola ou surpreende, não sendo muito mais do que um desenho na mesma linha dos vários feitos diariamente para a televisão. As crianças merecem mais do que desenhos que não trazem nenhum grau de desafio intelectual e A Mansão Mágica falha fragorosamente nesse quesito, que deveria ser o objetivo primordial de qualquer obra dessa natureza.

A Mansão Mágica (The House of Magic ou Thunder and the House of Magic, Bélgica – 2013)
Direção: Jeremy Degruson, Ben Stassen
Roteiro: James Flynn, Dominic Paris, Ben Stassen
Elenco (vozes originais): Cinda Adams, George Babbit, Murray Blue, Kathleen Browers, Joey Camen, Grant George, Shanelle Gray, Nina Grillo, Danny Mann, Sage Sommer, Doug Stone
Duração: 85 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.